segunda-feira, 16 de abril de 2018

O famoso Chapéu Panamá

 Tom Jobim – Santos Dumont e Getúlio Vargas (ao centro) e Roosevelt (à esquerda)
 Ambos de Chapéu Panamá.

Trecho de artigo extraído do site Vintage Blog

Chapéu Panamá...

Hoje vamos falar de um modelo de chapéu que é muito querido por nós brasileiros: o Chapéu Panamá! Este modelo, além de possuir uma história bastante curiosa, que por incrível que pareça não vem do Panamá, é muito adequado para o clima de nossa bela América Latina. Mas como usar o chapéu panamá?

Tanto o Chapéu Panamá Original (o que é confeccionado artesanalmente no Equador) como o Chapéu Tipo Panamá ficam perfeitos em looks mais tropicais, envolvendo tecidos leves e estampas coloridas. A palha sintética ou legítima por serem claras refletem boa parte dos raios solares, protegendo e não esquentando tanto mesmo sob sol! O chapéu Panamá tornou-se uma aposta certa para o verão, podendo ser utilizado em dias de praia, piscina, e também passeios ao ar livre. Logo mais, postaremos looks com chapéus panamá para você se inspirar!


História do Chapéu Panamá

De origem equatoriana, o chapéu Panamá já fez a cabeça de muita gente! Muito tradicional há mais de 100 anos, o chapéu leva o curioso nome que não é de sua origem. O chapéu de palha Carludovicapalmata, mais conhecido como palha toquilla, levou fama em 1914, quando o presidente norte-americano Theodore Roosevelt visitou o país para inaugurar o Canal Panamá. O presidente de traje formal foi fotografado usando um chapéu que atribuiu o nome de Panamá. A fotografia teve repercussão repentina no mundo todo, tornando o chapéu um sucesso e aumentando sua comercialização.

Origem do Chapéu Panamá

Até então, o acessório era muito difundido no Equador. No século XVI, quando espanhóis conquistaram o Equador, o chapéu do Equador conquistou os espanhóis: os colonizadores aproveitaram o belo trabalho dos indígenas e, já no século XVIII, era muito comum a utilização dos chapéus de palha toquilla pela nobreza espanhola.

Após a independência do Equador, o empresário Manoel Alfaro, estabeleceu uma fábrica de produção de chapéus em Montecristi, junto da expansão da França, aproveitou a importância comercial do Panamá e passou a exportá-lo. O chapéu tornou-se atração no mundo todo, porém, devido o seu nome, há sempre associação dos chapéus equatorianos ao Panamá. Separamos algumas imagens para vocês verem como a confecção artesanal do chapéu panamá legítimo com a palla toquilla, que à propósito, foi declarada pela Unesco em 2012 como Patrimônio Imaterial da Humanidade! Belíssimo trabalho!

Produção do Chapéu Panamá

Além do presidente Roosevelt, estrelas de Hollywood contribuíram com a popularização do chapéu, tanto dentro e fora das telas; produções de renome como “E o vento levou…” e “Casablanca”, também auxiliaram em sua comercialização, pois, era comum atores, músicos e pessoas da alta sociedade utilizando um chapéu Panamá. Tom Jobim, Getúlio Vargas e Santos Dumont também utilizaram o acessório, tornando-o ícone de estilo e com muita história.

Tipos de Chapéus Panamá

Conhecido em sua forma tradicional, de cor clara e faixa preta, também passou por repaginação, aderindo a novos formatos e cores, alguns com abas mais largas e tonalidades diferentes. Normalmente, são encontrados os chapéus Panamá originais (artesanais) e os similares, que são os chapéu tipo panamá. Eles são bastante semelhantes aos originais, mas a palha é sintética, sendo dispensado o delicado trançado artesanal dos artesãos...

Trecho de artigo extraído do site: vintageblog.com.br

sábado, 14 de abril de 2018

Cristiele França, radialista, jornalista e mãe de santo


Cristiele França: A filha de santo que vê no rádio outra forma de não andar só

"Tem uns alunos que já sonham em trabalhar com rádio quando crescer. Eles me falam: ‘professora, eu quero ser como a senhora’", disse, em entrevista ao HuffPost Brasil.

By Ruot Studio Brasil


Além da Ialorixá e dos filhos de santo, um outro cargo também completa o quadro de uma casa de Candomblé. Mesmo que não sejam rodantes – aqueles que conseguem manifestar através da matéria a personificação dos Orixás –, as Ekedes dão suporte aos trabalhos e são consideradas autoridades na casa. Essas mulheres precisam estar sempre atentas e acordadas para atender necessidades das entidades que foram devidamente designadas para servir.

As obrigações das chamadas "mão-direita da Mãe de Santo" são cozinhar para a casa de culto, puxar os cânticos, zelar, acompanhar, dançar, cuidar das roupas e apetrechos do Orixá da casa, além dos demais Orixás, dos filhos e até mesmo dos visitantes. Diferentemente das outras posições da religião, essa não se impõe, e sim surge como um convite. Fica a cargo da escolhida decidir ou não se quer seguir esse caminho.

Foi aí que eu tive contato com as coisas: cachoeira, barracão... eu ouvia ele conversando com a minha mãe, prestava atenção e fui aprendendo algumas coisas.

Com sua voz, Cristiele conseguiu ocupar um lugar e hoje fala sobre Orixás na rádio Metrópole de Salvador.

Cristiele França foi chamada por Iansã, incorporada na própria mãe, a Ialorixá Mãe Carmen, durante um festejo no Ilê Axé Oyá Mesi, do babalorixá Antonio Celestino Pereira. "Ela veio e me pegou pelo braço. Eu até então não estava entendendo, tava achando legal ela me tirar para dançar. No dia seguinte, me chamou para conversar e disse o que significava", conta em entrevista ao HuffPost Brasil. Carmen então explicou: "essa é uma função muito importante. Enquanto você é criança, é tranquilo. Mas pense que você, por exemplo, daqui um tempo pode arranjar um namorado ou um marido que não seja do Candomblé, e ele não queira entender. Você vai escolher o marido ou a religião?". No auge de seus nove anos, sem pestanejar e "com uma convicção de mulher de 30", Cristiele disse sim ao chamado.

Nascida e crescida em Salvador, a jornalista sempre esteve envolvida nas atividades de Axé da mãe. Das lembranças que têm da infância, todas envolvem os trabalhos e atendimentos que Carmen realizava em casa. Tomou consciência do que era o Candomblé um ano antes de se tornar Ekede, quando a família se se mudou para o bairro do Uruguai e, numa casa de aluguel, morava perto da casa do Pai de Santo da mãe. "Aí eu comecei a ver uma outra estrutura, porque minha mãe fazia os atendimentos em casa, não tinha estrutura de terreiro. Foi aí que eu tive contato com as coisas: cachoeira, barracão... eu ouvia ele conversando com a minha mãe, prestava atenção e fui aprendendo algumas coisas".

Em terreiros mais antigos, como o de Mãe Menininha do Gantois, os homens eram proibidos de receber o Orixá.

Se você está em Salvador e sintoniza a 101.3 a partir das 8h, será brindado com o Orixá do dia, suas cores, suas saudações. E com a voz de Cristiele.

Caçula de quatro irmãos homens, foi a segunda a manifestar relação com a religião. O que não foi surpresa, dado ao pioneirismo feminino que é intrínseco ao Candomblé. Cristiele conta que até bem pouco tempo, os principais terreiros nem aceitavam a figura masculina, como forma de valorizar o matriarcado. "Só existia a figura da Ialorixá, não existia o Babalorixá. Em terreiros mais antigos, como o de Mãe Menininha do Gantois, os homens eram proibidos de receber o Orixá – o que é uma loucura, porque o Orixá é que escolhe em que se manifestar, não somos nós quem devemos dizer em quem ele pode ou não, é além de nossa vontade".

Atrelada à religião, descobriu uma segunda paixão: o rádio. Ainda na faculdade de jornalismo, trabalhando em uma empresa de telemarketing, soube de uma vaga de estágio na Rádio Cultura. Se jogou. O problema é que ela não sabia que quem iria conduzir a entrevista seriam os donos da emissora, ligados à Igreja Evangélica. "Eu não fui de turbante, porque fui toda formalzinha. Só que durante a minha entrevista perguntaram qual a minha religião. E eu respondi. Eles então questionaram como é que eu iria lidar com o público de lá. Eu disse que do mesmo jeito que em qualquer outra emissora: o que está em voga é o profissionalismo, não a religião". Saiu de lá achando que não ia ser chamada. Só que como a gente já viu, Cristiele não anda só.

Começou apenas na produção dos jornais, depois vieram os boletins de trânsito e previsão do tempo. Agradou: foi contratada antes de se formar. Dona de uma voz poderosa, safa e muitíssimo bem-humorada, ganhou um programa cultural aos sábados e conquistou ainda mais. "Eles gostaram e me deram um programa diário, o De Bem Com a Vida, no qual eu podia escolher as músicas da programação. Eu perguntei se tocaria só música evangélica ou se eu poderia tocar qualquer tipo. E deixaram. Aí eu fui e botei Timbalada (risos). Todo mundo me olhou de cara torta quando eu saí do estúdio. Mas o pior é que os ouvintes me adoravam!".

E lá eu tive espaço para falar também da questão da religiosidade – antes eu era só uma voz falando notícia o tempo todo.

Nascida e crescida em Salvador, a jornalista sempre esteve envolvida nas atividades de Axé de sua mãe.

Se até em rádio evangélica Cristiele não se deixou abater, emendou um trabalho no outro e, nas emissoras subsequentes, permaneceu com o mesmo jeitinho. Na última parada, porém, se encontrou mais ainda. Na Metrópole, emissora na qual trabalha atualmente, ganhou uma função que juntou o útil ao agradável. O chefe soube que ela era do Candomblé e pediu que ela listasse os Orixás de cada dia. Ela preparou uma tabelinha e entregou. Ele então avisou: "olhe, eu quero que você fale isso todo dia".

Desde então, já é sabido: se você sintoniza a 101.3 a partir das 8h, será brindado com o Orixá do dia, suas cores, suas saudações e comentários irreverentes acerca das informações. "Eu falo de um jeito baiano, não sei falar toda certinha. E lá eu tive espaço para falar também da questão da religiosidade – antes eu era só uma voz falando notícia o tempo todo. Entrar no ar falando dos Orixás faz tudo ficar mais leve e me ajuda a quebrar um pouquinho esse paradigma, esse preconceito que muita gente tem com o Candomblé. No começo eu ficava com vergonha, mas agora já 'discarou' (risos)".

A Ekede ressalta que há uma preocupação constante, no entanto, para que a intervenção não caia na ridicularização ou na patifaria. "Tem gente que se aproveita mesmo do Candomblé para ganhar dinheiro, faz da religião um teatro. Se você fizer uma busca rápida na internet, vai encontrar muita gente querendo aparecer e querendo viver as custas daquilo ali. Para mim, que sou de Axé, é fácil diferenciar. Mas e uma pessoa leiga? ".

Tem uns alunos que já sonham em trabalhar com rádio quando crescer. Elas me falam: 'professora, eu quero ser como a senhora'.

Cristiele conta que, até bem pouco tempo, os principais terreiros não aceitavam a figura masculina, como forma de valorizar o matriarcado.

Depois de quase dez anos no rádio, desde o fim de fevereiro deste ano passou a dar aulas de radiojornalismo para estudante das escolas públicas de Salvador. Nos encontros, ensina a vivência em uma rádio, como o meio chegou ao Brasil e à Bahia, mostra como montar e editar os programas e cria junto com eles todo o conteúdo. "Tem uns alunos que já sonham em trabalhar com rádio quando crescer. Eles me falam: 'professora, eu quero ser como a senhora'. Eu me vi, do nada, sendo espelho para eles. Pode parecer muito pouco para quem sonha com fama, com estrelato. Mas para mim, nascida e criada no subúrbio de Salvador, me ver numa emissora grande, falando da minha religião e podendo passar aquilo que eu sei pra crianças, é maravilhoso. É um reconhecimento incrível do meu potencial", constata.

Para quem levou uma vida regada a espiritualidade, sua gravidez não poderia ter chegado sem uma pitada de misticismo. "Meu marido olhou para mim um dia e falou que a minha barriga estava com uma listrinha estranha. Eu disse que deveria ser da calça jeans e ele retrucou: 'minha filha já tá aí e você não sabe". Estava, e há muito tempo: após fazer um exame de farmácia, descobriu que estava grávida de sete meses. Não sentiu enjoo, dores, absolutamente nada. Passados quinze dias, foi realizar um exame de rotina. Ao chegar no hospital, foi informada que iria ter de realizar o parto ali mesmo, naquele dia: "eu gritei: É o quê? Me dê mais um mês que é pra eu curtir". No dar à luz, também não sentiu uma dorzinha sequer. Nasceu Emily Abayomi, o "encontro precioso", como o segundo nome em iorubá sugere. E o nome de Emily também significa "aquela que traz alegria".

Então todo mundo fica dizendo que ela vai ser a herdeira da casa – eu nem gosto de pensar nessa possibilidade porque a responsabilidade é muito grande.

Desde o fim de fevereiro deste ano ela passou a dar aulas de radiojornalismo para estudante das escolas públicas de Salvador.

Hoje em dia, com dois anos de idade, Emily segue "linda, forte, saudável e pentelhaça". E frequentando todas as cerimônias do Ilê Axé Oyá Mesi – ainda sem destino traçado. "Nas cerimônias ela fica louca para ir para o chão dançar, gosta de um batuque... eu já flagrei ela imitando Orixá em casa. Ela é do mesmo Orixá de minha mãe, de Iansã. Então todo mundo fica dizendo que ela vai ser a herdeira da casa – eu nem gosto de pensar nessa possibilidade porque a responsabilidade é muito grande. Mas alguma função ela vai ter ali dentro, sabe lá Deus qual".

Porém já adiantamos que os filhos de Oyá, a Rainha dos Raios, têm um temperamento indomável, são exagerados em tudo aquilo que lhes pareça importante e não gostam de ser contrariados. Seja qual for o caminho de Emily, para que não percamos o costume: hoje é sexta-feira, dia de Oxalá, o primeiro dos Orixás, criado por Olorum e pai de todos os Orixás. A cor do dia é o branco – da cabeça aos pés – e as saudações são as seguintes: Axé Babá! Epa Babá!

Texto e imagem reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Fernanda Torres só e bem acompanhada



Publicado originalmente no site da revista TRIP, em 10.11.2017

Fernanda Torres só e bem acompanhada 

A atriz fala de seu novo livro, da solidão de escrever, da convivência com os personagens que cria e não saem da cabeça e do momento do país em relação a arte

Por Giulia Garcia  

Prestes a lançar seu terceiro livro, Fernanda Torres ainda hesita na hora de se dizer escritora. Atriz há mais de trinta e cinco anos e autora de Fim e sete anos, em seu novo romance, A glória e seu cortejo de horrores, ela narra uma história que tem como pano de fundo o universo do teatro. O protagonista é Mario Cardoso, um ícone nacional da teledramaturgia brasileira que, aos 60 anos, resolve se reinventar em uma uma nova leitura de Rei Lear para os palcos, na qual ele também atuaria. O projeto, porém, se mostra uma catástrofe.

O universo em que Fernanda passou a vida toda inserida —  a televisão, o teatro e o cinema brasileiros — ambienta a narrativa, na qual, a partir das vivências e reflexões do narrador e protagonista, ela convida para um pensamento sobre a relação entre a arte a história do Brasil. “Existe uma relação direta entre o teatro e o contexto histórico. A profissão de ator é um eterno recomeçar e você fica muito exposto às mudanças climáticas do país, da economia, da política, do mundo. É seu dever se relacionar com essas mudanças, propor diálogo, produzir pensamento, saídas", reflete Fernanda. "A depressão de agora se reflete nas artes, não à toa a insatisfação se virou contra os artistas. Um país deprimido só pode detestar sua própria cultura. A cultura é o reflexo do próprio país.”

A atriz conversou com a Tpm sobre o livro, a situação atual da cultura no Brasil, antropofagia na arte e a briga entre o Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona e o Grupo Sílvio Santos.

Trip. Este é seu terceiro livro. O que te encanta na literatura para continuar escrevendo?

Fernanda Torres. Atuar é uma profissão coletiva e, quando escrevo, só depende de mim, é uma liberdade muito grande poder sentar, imaginar, e se bastar. 2017 foi um ano dedicado à escrita. Fora A glória e seu cortejo de horrores, adaptei dez capítulos do Fim e sete anos para uma série na Globo. Existe uma solidão muito grande nesse ofício, mas tenho um prazer indizível de jogar a tinta no papel, depois lapidar o capítulo, editar, procurar o ritmo certo dos parágrafos, das frases e conviver com os personagens, que ficam a rondar na cabeça. Agora, depois de um ano diante do computador, bateu a saudade de atuar, o que devo voltar a fazer em fevereiro, na série Sob Pressão. Estou sentindo a falta do caráter físico e comunal da profissão de atriz. Uma profissão alimenta a outra, e te descansa da outra.

“A glória e seu cortejo de horrores” é uma frase de sua mãe, Fernanda Montenegro. Por que torná-la título do livro? 

Sempre gostei dessa frase e a ouvi dizê-la muitas e muitas vezes. É uma frase que resume a danação e a maravilha que se conhece na profissão de ator, de escritor, nas artes. O triunfo do artista é uma grande ameaça, vem acompanhado do medo de nunca mais repetir o feito, de se perder, de falhar, de não estar à altura de si mesmo. O mito de Sísifo é o que mais se assemelha ao da criação artística. Você faz um esforço hercúleo para carregar a pedra até o alto da montanha e depois assiste ela rolar ladeira abaixo. Tudo volta ao zero, ao nada, é como se você nunca aprendesse.  Não há paz na glória, como não há no fracasso, e acho que a frase resume essa ideia de algo público, passageiro, intenso e angustiante.

Mario, o protagonista-narrador, é um homem de 60 anos. Como surgiu a ideia para esse personagem?

Veio naturalmente. Escrever na pele de um homem ajuda a me afastar de mim, a não ser confessional, algo que seria muito difícil de fazer caso o personagem fosse uma atriz. Fora isso, minha escrita tem um componente tragicômico, sarcástico e me sinto mais livre para exercer esse sarcasmo sobre o pobre coitado de um homem. A supremacia do macho está em xeque. Trata-se de uma crise instigante, trágica e risível. Uma amiga disse que era como chutar cachorro morto, talvez seja. Gosto do fato dos meus homens não se adequarem ao mundo como ele é e tentarem entender em que momento perderam o bonde da história. O Mario é um ator da geração do Zanoni Ferrite, do José Wilker, do Armando Bógus, gente que eu vi em cena quando era adolescente e que foram jovens adultos nos anos setenta, durante a revolução de costumes. Hoje, a adulta sou eu e acho que gosto de me lembrar deles, daquelas pessoas que tinham a minha idade, ou menos, quando eu comecei a me entender por gente, e experimentar "ser eles" agora.

O processo para criar esse personagem foi semelhante ao de criar um que interpretaria em seus trabalhos como atriz? 

Existe muita autoria na profissão de ator, você é o autor das suas criações, você empresta a sua imaginação ao personagem, alimenta ele com as suas memórias, com o seu sentimento. Nesse sentido, sim, atuar ajuda a escrever, é como se você colocasse no papel o que imagina entre as falas, a tal da voz interior. Você dá forma concreta a ela quando escreve. Eu cresci acompanhando os ensaios e as temporadas dos meus pais fazendo [Friedrich] Dürrenmatt, Millôr [Fernandes], Nelson Rodrigues, [Eugene] O’Neill, Heiner Müller, e comecei a atuar numa época em que o teatro do improviso, pós-Asdrúbal Trouxe o Trombone [grupo teatral dos anos 80 marcado pela desconstrução da dramaturgia], estava no auge. Ter tido contato com esses autores e, depois, ter feito um teatro em que a gente paria o próprio material, me ajudou a escrever. A Casa dos Budas Ditosos foi um divisor de águas para mim, porque tive que introjetar um livro do João Ubaldo Ribeiro, o que me ensinou muito. Mas o que faz diferença mesmo é ler, ler, ler e ler, tanto para escrever, quanto para a atuar.

O que Mario Cardoso tem de Fernanda Torres, ou o que Fernanda Torres tem de Mario Cardoso? 

A tentativa de entender a potência que o teatro, o cinema e a televisão possuíam há quatro décadas, e o que aconteceu com a arte ao longo desse tempo é algo comum aos dois. Quando eu era adolescente, assistir o Asdrúbal, o Macunaíma do Antunes Filho, ir ao teatro era algo essencial, capaz de mudar a sua vida e a da sua geração. O Mario diz que não ter visto O Rei da Vela, Galileu Galilei e Roda Viva, pesava nele como uma falha. Eu me sentia assim. Me lembro de assistir Grande Sertão: Veredas na televisão, O Grito, Gabriela, Saramandaia, de ter testemunhado um período de experimentos na teledramaturgia, e sentir falta dessa liberdade e dessa audácia agora. Eu me criei no século passado, como o Mario, e estou impressionada com a revolução tecnológica que bagunçou a estrutura das artes, da política, da religião, da economia. Eu e o Mario estamos estupefactos, nos perguntando quem lê Tchekov? Quem sabe de Guimarães? Quem se interessa por Shakespeare? Essa estranheza dele é também a minha.

Qual acredita ser o papel do teatro, do cinema e da televisão no momento atual do país? 

A arte está sendo criminalizada, tanto pelo uso das leis de incentivo, quanto pelo crescimento de uma mentalidade conservadora, que acusa a arte de ser inimiga do povo. Já há algum tempo minha mãe diz que faz teatro de Catacumba, nas periferias, nas profundezas. A Globo sempre foi vista como conservadora, hoje é atacada como uma ameaça à família. As artes plásticas, que pareciam incólumes à crise que se abateu no mercado fonográfico, no cinema, no teatro e na televisão, virou o foco da artilharia desse novo Brasil. Acho que vai primeiro piorar para depois melhorar. O discurso antiarte, antitudo está muito potente, mas ele também dará subsídios para a própria arte se reinventar, se revigorar.

No romance você traz o passado do teatro, cinema e televisão nacionais. Qual acredita ser o futuro dessas artes? 

Eu assisti com grande pesar o fechamento da MPB FM. Era a rádio que eu ouvia, porque amo música brasileira. Agora, no dial, só encontro o pior da música americana, o pior. Meus filhos conhecem menos música brasileira do que eu conhecia com a idade deles. Há dez anos, o Brasil consumia 70% de música brasileira, agora inverteu e ela atrai apenas 30% da demanda. Melhoramos com isso? Penso que não. Estamos ouvindo uma música de melhor qualidade? Não. A cultura de massa impõe regras muito imbecilizantes ao mercado. É o lado terrível da globalização, que força o mundo todo a ouvir mais do mesmo, e um mesmo medíocre, ruim. O teatro está numa crise séria, porque as leis de incentivo criaram uma cultura em que a bilheteria não era importante, o que acirrou a dependência do Estado e terminou num levante de insultos, na crença de que mamamos nas tetas. Isso é grave, porque o teatro é o berço de muitas artes, foi ele que nos deu Vianinha, Nelson, Zé Celso, Antunes, Nanini, Fernanda, Bibi, Dulcina, Regina Casé. Mas a televisão também está sendo posta a prova, com o público migrando para a internet, o que afetou o mercado publicitário, o fonográfico e a própria imprensa. No cinema não há mais os filmes médios, você tem os blockbusters e uma enormidade de produções com um número irrisório de espectadores. Estamos no meio de uma revolução.  A questão é saber se nos tornaremos um país consumidor de séries estrangeiras, de música estrangeira, que rejeita a própria cultura, ou se continuaremos interessados em nós mesmos. Essa é a questão que muitos países enfrentam, é o dilema da Globalização, que concentrou riquezas e nivelou o gosto por baixo.Por outro lado,  novas janelas, sedentas de conteúdo, estão surgindo. Produtoras internacionais estão de olho no enorme mercado consumidor  brasileiro; o cinema e a televisão, com o fim do celulóide, se transformaram no mesmo veículo, e as produtoras independentes já começam a produzir para as grandes redes. Há um crescimento bem vindo e é importante fomentar a produção nacional, para que não nos transformemos em consumidores passivos, que revertem dividendos para o exterior, sem fomentar criação, indústria, emprego e riqueza aqui. A quem serve o desprezo pela cultura brasileira?  Ele só aumenta a nossa miséria, entregando de bandeja a exploração de um mercado consumidor de duzentos milhões de habitantes, sem dar nada em troca.

O livro também fala sobre o complexo de vira-lata e logo no início, Mario questiona decisões cenográficas e de figurino que são importadas de peças estrangeiras. Como isso se relaciona com a realidade da arte no Brasil? 

As influências sempre existiram e existem, a questão é como torná-las próprias. De que interessa uma sub Broadway? Um sub cinema de ação? Se for por aí, seremos sempre piores. O problema é antropofágico, é engolir e devolver algo seu. Não acredito em arte pura, acho que as influências fazem parte da arte. O Macunaíma do Antunes conversava com o que o Bob Wilson estava fazendo em teatro naquele momento; o Zé Celso bebeu no Living Theatre e vice-versa;  o Asdrúbal foi o nosso Monthy Python; a Tropicália se valeu das guitarras elétricas; o Gregório Duvivier faz um programa baseado nos âncoras americanos, mas fala conosco, sobre nós. Eu escrevi esse livro depois de ler a experiência do David Hare como ator, um livro maravilhosos em que ele, diretor e autor, arriscou-se num monólogo, como ator, e quase infartou, pelo esforço de estar em cena. Saí de Relatos Selvagens, o filme argentino, com um sentimento horrível de humilhação. Nós poderíamos ter feito aquele filme, deveríamos nos mirar em Relatos Selvagens, naquela contundência, naquela audácia. Hoje, quando penso em influência, penso no cinema argentino. Mais do que francesa, americana, chinesa, ou inglesa, eu gostaria de fazer um cinema brasileiro argentino.

O livro trata de uma discussão ainda acalorada no meio artístico: a arte vista como mercadoria. Queria que falasse um pouco sobre isso. 

Não existe apenas uma arte. Existe a economia criativa, para a qual o Brasil tem um enorme talento, pois é um país que produz cultura, que é reconhecido pela sua cultura, dono de uma música refinadíssimos, de uma literatura potente. É um país que consome suas próprias histórias, que assiste novela, que fala português e se vê em português. Nesse sentido, a arte como mercado é algo a ser explorado e protegido, pois ela gera empregos e movimenta a economia. A arte também é uma ferramenta  importante para a diminuição da desigualdade social, esse sim, o grande problema do país. A arte educa e possibilita a integração social. Meu filho faz capoeira, todos os anos, no batismo dos novos alunos, uma roda gigantesca com os mestres e outras escolas de capoeira se reúne para uma celebração. Nesse ano, a turma da Rocinha, comunidade que enfrenta uma guerra, esteve presente, e era clara a importância da capoeira para a formação daqueles jovens. A capoeira reúne história, música, dança, luta, é cultura com C maiúsculo, saída dos navios negreiros, e era evidente o papel social dos mestres na formação daquela meninos. Mas você também tem a cultura dita erudita. Uma orquestra sinfônica não sobrevive sem subsídios. Talvez, o deputado que grita contra a Lei Rouanet, acredite que o Brasil não mereça ter orquestras, maestros, talvez ele ache que Cultura não é relevante. Talvez, esse mesmo deputado que vilania o subsídio à cultura, nunca tenha ouvido falar do Parque Nacional da Serra da Capivara, ou da importância de Niéde Guidon, na preservação dos sítios arqueológicos que contam a história dos povos pré históricos que habitaram o Brasil. Estamos vivendo tempos obscuros, em que a arte brasileira está sendo tratada como oportunista, suja e degenerada. É num país assim que desejamos viver, que não investe em cultura, em educação? Porque uma é indissociável da outra. Queremos um país iletrado, inculto? Ficaremos melhor assim? Essa é a pergunta que devemos nos fazer. Para muitos, e isso já é um reflexo da falência da educação no país, Katy Perry vale mais do que Chico Buarque. Mas Katy Pery, além de chatíssima, jamais nos dará Caravanas, e eu prefiro viver num país capaz de compor Caravanas.

O atual momento da negociação do Teat(r)o Oficina com Grupo Silvio Santos traz justamente essa questão de como os espaços artísticos e culturais devem se relacionar. Acredita que existem problemáticas na união desses dois espaços? 

Aquele encontro diz muito, diz tudo. O Sílvio pergunta ao Zé o porquê dele querer aquele terreno e o Zé responde que não é para ele, é para a cidade. O Zé diz que tem 80 anos, que o Sílvio tem 86, que os dois já já estarão mortos, e propõe ao Sílvio um projeto para a cidade. Mas o Sílvio, que se diz muito rico, quer o dinheiro. O mediador Doria, que mais parece uma caricatura do Oswald de Andrade, fala de assets, fundings, malls, ele mal raciocina em português. O Doria acha maravilhoso um teatro de shopping e o Zé sabe, como eu sei, como qualquer ator sabe, que um teatro de Shopping é um espaço morto, é o túmulo do samba. O Zé propõe um jardim, mas o Sílvio quer o paliteiro de prédios, o Doria quer o paliteiro. O Zé diz que São Paulo não precisa de mais um paliteiro e o Sílvio dá a entender que um parque é sinônimo de cracolândia, e ainda diz que vai fazer um campeonato no parque e dar um prêmio ao mais drogado. É tudo muito chocante. O Zé é uma anomalia nesse paraíso que sonha com Miami, com malls, que manda varrer a cracolândia do mapa. O parque do Bexiga, o projeto do Zé, não tem lugar nessa sub-Miami. E acredito que a vizinhança do teatro também sonhe com o mall. É um clash de civilizações, é a Grécia e a Barra da Tijuca, é Dioníso e o Romero Britto, é, mais uma vez, Chico Buarque e Katy Perry, não há ponto de encontro. Aquela reunião é muito reveladora, a maneira como o Sílvio ri, o prefeito que só fala inglês, o poncho indígena do Zé. Oswald Andrade faria uma peça e tanto daquilo.

Texto e imagens reproduzidos do site: revistatrip.uol.com.br

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Anitta rouba a cena em megaevento sobre Brasil em Harvard


Publicado originalmente no site da BBC/Brasil, em 7 de abril de 2018

Em versão 'business', Anitta rouba a cena em megaevento sobre Brasil em Harvard

Ricardo Senra - @ricksenra
Da BBC Brasil em Cambridge (EUA)

'Antes, tinha uma equipe comigo e eu era só artista. Mas não concordava com o modelo de negócio, o dinheiro era mal investido'
Foi literalmente o show da poderosa.

Entre um pelotão de figurões da política e do empresariado, incluindo o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, o presidenciável Ciro Gomes (PDT-CE) e o CEO da maior cervejaria do mundo, Carlos Brito (Inbev), a personalidade mais aplaudida desta sexta-feira na Universidade Harvard, nos EUA, foi Anitta.

A carioca de 25 anos encerrou o primeiro dia da Brazil Conference, organizada por Harvard e pelo MIT, que há quatro anos trazem aos Estados Unidos alguns dos principais nomes do noticiário brasileiro - de Sérgio Moro e Dilma Rousseff, aos juízes Luis Roberto Barroso e Gilmar Mendes.

Em um ambiente diferente de sua audiência habitual, repleto de ternos e tailleurs escuros e embalado por linguajar corporativo (um palestrante insistia em dizer "insertar" em vez de colocar), Anitta apareceu de casaco dourado e salto agulha para defender a "música como instrumento de transformação", tema oficial de sua fala.

Por quase uma hora, deu lições de empreendedorismo e gestão de carreira para a plateia mais cheia do evento. Dono de uma fortuna de R$ 93,3 bilhões, o homem mais rico do Brasil, Jorge Paulo Lemann, assistiu da primeira fila - ele não quis falar com a imprensa, mas bateu palmas de pé e seguiu a cantora para o camarim.

Anitta abriu a noite narrando a infância pobre em Honório Gurgel, "quase, quase na favela", e os primeiros passos da carreira em bailes funk, quando o cachê não ultrapassava R$ 150 (hoje ele pode superar R$ 200 mil).

Foi interrompida pelo menos quatro vezes por aplausos. A primeira leva veio quando ela defendeu o ritmo carioca - que chegou a ser alvo de debates no Senado sobre eventual criminalização, no ano passado.

"Antes de cantar, eu nunca tinha ido à zona sul do Rio de Janeiro. Então é muito difícil você cantar o 'barquinho vai, a tardinha cai' (referência à Bossa Nova) se você nunca viu essas coisas", disse.

"O funkeiro canta a realidade dele. Se ele acorda, abre a janela e vê gente armada e se drogando, gente se prostituindo, essa é a realidade dele", continuou. "Para mudar as letras do funk, você tem que mudar antes a realidade de quem está naquela área."

Da 'balada' para a sala de reuniões

Mas os olhos da plateia brilharam mesmo quando a cantora narrou suas estratégias para ganhar dinheiro e conquistar o público internacional.

Oito anos depois dos primeiros passos na trupe funkeira "Furacão 2000", Anitta é listada pela revista Vogue como uma das 100 pessoas mais influentes e criativas do mundo, pela Billboard dos EUA como a 10ª artista mais relevante do planeta em redes sociais e comemora mais de 240 milhões de visualizações do clipe Vai Malandra, que por semanas foi alvo de elogios apaixonados e críticas ferozes, de Bogotá a Nova York.

A virada veio quando ela demitiu sua empresária para construir a carreira por conta própria (a ex-colega hoje move um processo judicial contra Anitta).

"Antes, tinha uma equipe comigo e eu era só artista. Mas não concordava com o modelo de negócio, o dinheiro era mal investido. Abri minha empresa na cara e na coragem aos 21 anos. Eu achava que chegaria aonde queria no Brasil aos 30 e poucos. Aí, aos 22, já estava superbem."

Plano antigo, a carreira internacional foi antecipada.

"Fui sozinha para a Espanha conversar com empresários e produtores. Aí decidi ir para a rua. Comecei a pesquisar com o povo, na balada, perguntava quais sons eram aqueles, quem cantava, conversava com o DJ."

Repetiu a estratégia em Los Angeles, nos Estados Unidos, por meses. "Nessas baladas eu conheci vários artistas com quem depois cantei ou ainda vou cantar", lembrou.

Dormir não era prioridade. "Chegava da balada, tomava um banho e ia para a reunião com os produtores."

A uma plateia que se mostrava surpresa com a fluência da cantora sobre estratégias complexas de negócios, Anitta revelou passos calculados às paradas de sucesso estrangeiras em três idiomas.

"Vi que os três grandes mercados digitais são os de língua inglesa, língua espanhola e o português, porque o Brasil é muito grande. Eu pensei: se eu conseguir unir os números (de audiência) do Brasil e da América Latina, vou me equiparar aos do público em inglês", disse.

Se caísse no gosto dos brasileiros e dos vizinhos hispânicos, calculou, teria cacife - e público - suficiente para emplacar a carreira também nos Estados Unidos.

Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro aceleraram as passadas mais uma vez.

"Caetano e Gil me chamaram para tocar na abertura da Olimpíada. Falei: vou cantar, claro, é um evento mundial, vai estar cheio de gringo no Brasil (...) Então, me programei para fazer uma música metade em inglês, metade em espanhol."

Anitta já se mantinha contato com fenômenos de audiência latino-americanos, como os colombianos J. Balvin e Maluma, com quem gravou duetos "que só fizeram sucesso anos depois".

"Quando as pessoas ouviam a voz deles, os reconheciam (porque eram famosos internacionalmente) e, automaticamente, também chegavam ao meu trabalho", contou.

Principal ritmo comercial dos vizinhos latino-americanos, o reggaeton (uma mistura de hiphop, reggae e ritmos latinos como a salsa) era novidade para a brasileira.

"Fui a Pedro Alvares Cabral do raggaeton", brincou. "O ritmo já estava lá, mas eu não conhecia".

"20 centavos fazem muita diferença"

Formada em Administração, Anitta relembrou os primeiros passos como mulher de negócios, quando estagiou na mineradora Vale, onde "cuidava de seguros e garantias internacionais".

Dividia o vale-transporte com o irmão, aprovado no vestibular da UFRJ.

"Ele passou, mas a gente não tinha dinheiro para pagar a passagem. Muita gente não entendeu os protestos (de 2013), mas esses 20 centavos faziam muita diferença. Esses 20 centavos poderiam impedir meu irmão de ir para a faculdade", disse - novamente aplaudida.

Aos 17 anos, ouviu dos chefes uma proposta de contratação. Mas eles também queriam saber se ela se dedicaria 100% ao mundo corporativo.

"Falei, olha, eu prefiro tentar a minha carreira", lembrou. "Liguei para a minha mãe e contei. Ela apoiou e disse que viraria até faxineira para me ajudar. Meu pai ficou com ódio louco, disse que eu ia "rebolar para bandido'."

Ela continua, levando a plateia as gargalhadas. "Mas, depois que eu comecei a ganhar dinheiro, meu pai ficou ótimo. Agora jura de pé junto que estimulou desde o primeiro dia", brincou.

Após cantar à capela versos de Downtown (sucesso em espanhol com mais de 200 milhões de visualizações no YouTube), Anitta agradeceu e deixou o salão ainda sob assovios e palmas.

Fora do anfiteatro, uma estudante de Harvard guardava lugar em uma fila enorme, onde estava boa parte da plateia que havia pouco aplaudira a funkeira.

A jovem contou que esperava ali sua vez de ganhar autógrafos ou fotos com Anitta.

A reportagem precisou desapontá-la. Aquela era a fila da chapelaria.

Texto e imagem reproduzidos do site: bbc.com/portuguese

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Os 80 anos de Woody Allen e sua paixão pelo cinema


Os 80 anos de Woody Allen e sua paixão pelo cinema

Estadão Conteúdo

Allan Stewart Königsberg completa 80 anos nesta terça-feira (1). E quem se importa com isso? Quem é Allan Königsberg?

Você já já vai se importar, porque, com o pseudônimo de Woody Allen, ele tem sido uma referência de humor (e cinema) para o público de todo o mundo, há mais de meio século. A data será lembrada por um ciclo no Sesc Campo Limpo.

Nascido numa família judaica de Nova York, Allan começou muito cedo a escrever esquetes de humor para TV e peças curtas. Aos 15 anos, virou Woody Allen.

Nos anos 1960, cansado de escrever para os outros, virou comediante de stand-up, escrevendo para si mesmo. Em vez de piadas, valorizava monólogos. Em 1964, concorreu ao Grammy na categoria disco de humor. No ano seguinte, estreou no cinema como ator e roteirista - O Que É Que Há, Gatinha?, de Clive Donner, colocou na tela as mudanças comportamentais que emanavam daquilo que, na época, se chamava de ‘Swinging London’. Peter O’Toole fazia o conquistador em crise e Peter Sellers era seu analista. As mulheres eram uma súmula do bom gosto em 1965 - Ursula Andress, Paula Prentiss, Capucine. Por pouco Norma Bengell não integrou o time. Os produtores alemães exigiram que o papel dela fosse para Romy Schneider.

Dois anos mais tarde, Woody coescreveu e de novo atuou em uma paródia de James Bond. Na trama de Cassino Royale, o velho 007 (David Niven) aposenta-se e tenta passar o cargo para o sobrinho. Interpretado por Woody, ele não possui o physique du rôle. Suas aventuras se pulverizam em episódios de humor aos quais o batalhão de diretores (John Huston, Val Guest, Ken Hughes, Robert Parrish, etc.) não consegue transmitir unidade - mas dava para rir. Mais dois anos e Woody fez sua estreia como diretor com Um Assaltante Bem Trapalhão, contando, como num falso documentário, a história de um ladrão compulsivo. O ano era 1969 e há controvérsia quanto à estreia porque, em 1966, Woody já adquirira os direitos de um thriller japonês, cujos diálogos reescreveu e dublou em inglês - Whats Up Tiger Lily?

Esse clima de nonsense e o humor episódico prossegue por mais de uma década, durante a qual ele fez rir com filmes como Bananas e Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo. E, então, em 1977, algo se passa. Woody perfecciona tudo - humor, dramaturgia - e, mudando o tom, realiza um retrato de mulher que também é um retrato da intelectualidade nova-iorquina. Annie Hall, lançado no Brasil como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, ganha os principais Oscars do ano - filme, diretor, atriz (Diane Keaton) e roteiro (Woody Allen e Marshall Brickman). O resto é história. Woody teve mais 15 indicações para o Oscar de roteiro - e ganhou mais duas estatuetas, em 1986, por Hannah e Suas Irmãs, e em 2012 por Meia-Noite em Paris.

Muitos atores e atrizes foram indicados e até ganharam o Oscar por seus filmes. Cate Blanchett foi melhor atriz por Blue Jasmine, Dianne Wiest foi duas vezes melhor coadjuvante (Hannah e Suas Irmãs e Tiros na Broadway), Mira Sorvino também foi melhor coadjuvante por Poderosa Afrodite, Penelope Cruz por Vicky Cristina Barcelona e Michael Caine, melhor ator coadjuvante por Hannah. Woody Allen é um dos mais premiados diretores/autores do mundo, se não for o mais. Além de Oscars, ganhou Globos de Ouro, Baftas, César (o Oscar francês).

Recebeu prêmios honorários em Cannes, Berlim e Veneza. Vários de seus filmes podem ser chamados de obras-primas. Manhattan, o já citado Hannah, Zelig, A Rosa Púrpura do Cairo, Crimes e Pecados, etc. Cinéfilo de carteirinha, Woody nutriu-se da admiração por Ingmar Bergman, Fellini, Antonioni - e também dos clássicos literários, especialmente os grandes russos (Dostoievski, Tolstoi) para fazer seus filmes.

Casado com Mia Farrow, de 1980 e 1992, fez com ela seus maiores filmes. A separação foi traumática. Woody uniu-se à filha adotiva de Mia, Soon-Yi Previn, e a ex reagiu acusando-o de abusar da própria filha, Dylan, mas a acusação não foi referendada pelos especialistas de uma clínica designada pela Corte de NY. Woody segue filmando. Um filme por ano, todos os anos. Os últimos nem têm sido tão bons. Ele não se abala. O importante é o conjunto da obra. No total, são mais de 40 filmes e muitos livros.

Crítico da América, Woody também sabe ser autocrítico. "As pessoas sempre se enganam em duas coisas sobre mim: pensam que sou um intelectual (porque uso óculos) e que sou um artista (porque meus filmes perdem dinheiro)."

Texto e imagem reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

quarta-feira, 4 de abril de 2018

O que é ser inteligente?


O que é ser inteligente?

Dezenove meses após meu último texto publicado no Pequeno Guru, volto a escrever sobre um assunto que está na minha lista há muito tempo. Nada mais pertinente do que escrever sobre inteligência direto de uma universidade, cercado de livros de estatística, artigos de psicologia e slides de aula de marketing. Será que devo me sentir inteligente?

Resolvi escrever sobre depois de tanto ouvir pessoas falarem “fulano é inteligente”. O que pode parecer despeito da minha parte, na verdade é pura curiosidade e estranheza. Ouvir isso gera uma resposta automática (e muitas vezes silenciosa) na minha cabeça “como você sabe disso?”. Normalmente, quem afirma chega a essa conclusão utilizando pequenos fragmentos de fatos.

O ser humano é rápido no gatilho quando se trata de fazer deduções e como a psicologia mostra, não somos muito bons nisso. Jonah Berger diz em seu livro “Contágio” que, se alguém conta uma piada engraçada em uma festa, você tende a considera-lo espirituoso, divertido. Da mesma forma, se um novo colega de trabalho chega comentando sobre a queda da taxa Selic, logo presumimos que ele é um expert em economia ou, pelo menos, um leitor voraz. Quando, na verdade, ele pode ter visto enquanto rolava seu feed de notícias do Facebook.

Segundo a sabedoria popular, inteligente é alguém que lê bastante ou tem um bom conhecimento acerca das coisas. De fato, conhecimento e inteligência andam juntos, mas saber se alguém é realmente inteligente requer uma exame mais profundo.

Embora consideremos inteligente alguém que tira 10 em matemática e “não tão inteligente” um bailarino do Bolshoi, a famosa teoria das múltiplas inteligências, do psicólogo Howard Gardner, considera tipos diferentes de inteligência tanto a lógico-matemática como a corporal-cinestésica.  A ideia de que não existe um único tipo de inteligência não é nova, Charles Spearman já havia explicado a sua ideia de inteligência geral e especial 100 anos atrás, o problema é que ele considerava ambas interligadas, assim, se você possuía uma alta inteligência geral, também possuiria boas inteligências especiais, diferentemente da teoria de Gardner que diz as inteligências são independentes. Já Robert Sternberg e sua teoria triárquica da inteligência divide a inteligência em três: analítica, criativa e prática, e parece ser a mais útil para responder a pergunta “o que é ser inteligente?”. Através dela, podemos considerar Einstein um gênio, algo passível de discussão segundo a teoria de Howard Gardner.

Mais de 20 anos após importantes teorias de inteligência, surge uma nova teoria advinda da neurociência. A teoria P-FIT de inteligência (nome complicado demais para colocar aqui) sugere que há regiões no cérebro responsáveis pela inteligência. A identificação veio de um estudo que revisou resultados de outros 37 estudos que tinham o objetivo mapear as áreas do cérebro associados ao alto QI. Estudos posteriores reforçaram a teoria, incluindo quais áreas estariam relacionadas aos vários tipos de inteligência.

Conclusão #1: estudos recentes sugerem que inteligência está relacionada à eficiência cerebral que permitem o cérebro se comunicar e trocar informações entre diferentes áreas mais rapidamente.

Sabedoria, um outro tipo de inteligência?

Seria a sabedoria um outro tipo de inteligência? O próprio Howard Gardner questiona o valor da linguagem lógica se você não sabe lidar com outras pessoas ou não conhece a si mesmo. Uma pessoa assim ficará atrás de uma mesa para sempre, pois ela é incapaz de se relacionar de forma saudável com os outros, e esse é o tipo de habilidade que a sociedade moderna tem valorizado. Não é à toa que o termo “inteligência emocional” entrou para o vocabulário após o livro do Daniel Goleman e desde então vem sendo usado e pesquisado para se referir à capacidade das emoções de afetarem o pensamento e as decisões. Nem sobre a definição de IE os pesquisadores concordam. Então, não vou me arriscar.

Apesar disso, inteligência emocional e cognitiva são ambas importantes para uma vida bem-sucedida seja no campo profissional ou pessoal. Associar características como “empatia”, “habilidade social”, “autoconsciência” e “motivação” à inteligência só torna tudo mais confuso e atrapalha a busca por uma resposta do que é ser inteligente.

Recapitulando, até agora vimos que inteligência não é acumular conhecimento, envolve várias habilidades que talvez não tenham relação, e que inteligência no século XXI passa pelo autoconhecimento e domínio das emoções.

A minha mãe costuma me dizer o quanto a minha vó era uma mulher sábia, mesmo não sabendo ler. Em outras palavras, a minha vó era uma mulher dotada de sabedoria, não de inteligência. Contudo, suas valiosas lições sobre como criar filhos, casamento e até sucesso podem ser classificadas como inteligência prática, um dos três tipos segundo a teoria de Robert Sternberg dos anos 80. Nos anos 2000, ele usou o conceito de conhecimento tácito para medir inteligência prática e descreveu três características bastante interessantes sobre:

* É um conhecimento sobre como fazer algo e não sobre algo

* É normalmente aprendido sem ajuda dos outros ou instruções

* É um conhecimento sobre coisas pessoalmente importantes para a pessoa

Sternberg desenvolveu testes baseados em situações reais e concluiu que conhecimento tácito ajuda a predizer sucesso na carreira, especialmente em certas carreiras como vendas, gestão, psicologia acadêmica e liderança militar.

Em outras palavras, conhecimento tácito e inteligência prática estão interligados. Logo, a minha vó mesmo analfabeta parece ter sido mais inteligente do que muitos universitários brasileiros.

Conclusão #2: Sabedoria pode ser considerado um outro tipo de inteligência.

Quando Sócrates disse “eu sei que sou inteligente, pois sei que não sei nada”, ele estava demonstrando uma grande capacidade de auto avaliação, uma característica relacionada à inteligência emocional e à sabedoria.

Talvez você não concorde comigo e não precisa fazer, o objetivo do Pequeno Guru sempre foi provocar reflexão e não apenas oferecer conhecimento. Conhecimento novo nasce, frequentemente, de conflitos na cabeça de um sujeito inquieto e curioso. Na minha opinião, inteligência é saber usar o conhecimento existente (relacionando, combinando, inferindo) para gerar coisas novas (perguntas, soluções).

Da mesma forma que se associa notas 10 a um aluno inteligente, a maioria das pessoas consideram físicos indivíduos muito inteligentes, devido a sua alta habilidade matemática. No entanto, Einstein associou inteligência à capacidade de imaginar (a qual, sem ela, ele jamais teria sido considerado um gênio) e Stephen Hawking à capacidade de se adaptar à mudança.

Diante disso tudo, ser inteligente é: ver semelhanças nas diferenças; associar coisas estranhas em busca de grandes resultados; alimentar uma curiosidade insaciável; buscar respostas para perguntas nunca respondidas; acreditar em si próprio; conhecer seus limites; dominar suas emoções ou ao menos saber que elas impactam quase todas suas ações; ser humilde; valorizar os detalhes; prestar atenção ao mundo a sua volta; reconhecer que nada de valor vem sem esforço; tratar bem todo mundo. Ser inteligente é tudo isso e muito mais.

Se nem cientistas, filósofos e a minha vó conseguiram dar uma resposta completa a essa questão, quem sou eu para achar que consegui? Ao menos tentei.

Texto e imagem reproduzidos do site: consumidormoderno.com.br

terça-feira, 3 de abril de 2018

Geovani Martins: como a favela me fez escritor

Geovani Martins teve como leitores de seu primeiro livro Chico Buarque, Fernando Meirelles, Walter e João Moreira Salles (Foto: Adriana Lorete)

A Remington 22 que Geovani ganhou da mãe e do padrasto o fez “pirar na hora” 

Geovani diz que o desespero o motivou a escrever. Estava desempregado, 
sem profissão  e sendo obrigado a mudar-se de casa 

A estante de livros de Geovani em sua casa no Vidigal 

Visão do Vidigal. A mudança para a favela está na gênese do livro de Geovani
Fotos: Adriana Lorete

Publicado originalmente no site da revista Época, em 06/03/2018 


Geovani Martins: como a favela me fez escritor

As cores, os sons, os dribles de corpo, as diferentes linguagens e até o sol
que queima de um jeito diferente me transformaram num autor

Por Geovani Martins 

Nasci em Bangu, Zona Oeste do Rio de Janeiro, no dia 18 de julho de 1991. Em 2004, aos 13 anos de idade, mudei com minha mãe e meus irmãos para o Vidigal, na Zona Sul da cidade. Destaco esses lugares e essas datas para dizer que, às vésperas do lançamento de O sol na cabeça, meu primeiro livro, a ser publicado em março pela Companhia das Letras, posso afirmar que a gênese dos 13 contos foi o choque provocado por essa mudança.

Era tudo diferente: o jeito de falar, de brincar na rua, as regras no futebol, os dribles de corpo, as pipas, a música, o ritmo das pessoas, o volume dos gritos, até o sol parecia queimar de outra forma. Eu ficava no meio, tentando me adaptar, fazer novos amigos e, ao mesmo tempo, sentia saudade, queria voltar para Bangu, para minha Rua Araruama, onde todo mundo me conhecia e eu conhecia todo mundo. Passei toda a adolescência nesse trânsito. Às vezes voltava a morar com meus avós em Bangu, passava uns meses e depois voltava para o Vidigal, normalmente no verão, sentindo saudade da praia.

Independentemente de onde estivesse morando, uma coisa era certa: no fim de semana eu sempre ia visitar meu outro pedaço de cidade. Sem um centavo no bolso, atravessava o Rio pedindo carona com meu irmão quatro anos mais novo. Naquela época, pegávamos sempre o hoje extinto 756, ônibus histórico para os rolezinhos da minha geração, por ligar Senador Camará à Barra da Tijuca, passando por Bangu, Realengo, Sulacap, Catonho, Taquara e Cidade de Deus. Ele ia e voltava daquele jeito.

Depois dessa primeira mudança encarei mais umas tantas; até o ano de 2015 já havia me mudado 17 vezes. A partir desse trânsito constante entre tantas casas, becos, ruas e praças, e depois com a oportunidade de participar da Festa Literária das Periferias (Flup) e visitar a cada sábado uma favela diferente parti para o livro com a ideia de que a periferia precisa ser tratada sempre como algo em movimento e que não podia mais ser considerada sinônimo de favela. A favela hoje é centro, gira em torno de si, produz cultura e movimenta a economia. O favelado cria e consome como qualquer outra pessoa do planeta. E quando digo consome, não me refiro apenas a Nike, Adidas, Kenner, Honda, Black Label, Red Bull, Samsung, Sony, Microsoft. Falo também da cultura pop que faz a cabeça dos jovens do mundo todo, os filmes e as séries de sucesso mundial que bombam nas telas das smart tvs de meus amigos. Shakespeare, Frida Kahlo e Machado de Assis também encontram seus públicos por becos e vielas. Os exemplos são praticamente infinitos e para fechar com um interessante cito a menina Eva, que conheci numa das edições da revista Setor x. Nascida e criada em Manguinhos, Eva tem como ritmo musical favorito o rock sul-coreano. E segue o baile.

Paralelo a isso, é possível enxergar em cada casa um epicentro. Histórias de muitos Brasis se cruzando, reinventando a língua por meio do encontro. A pesquisa que fiz sobre a linguagem que usaria nos contos do livro veio a partir dessa ideia. É claro que me ajudou, e muito, o fato de eu falar usando as gírias dos personagens do livro. Tenho facilidade para me adaptar às muitas formas de falar o português brasileiro e como já morei em favelas sob comando de todas as três facções do Rio, e ainda numa dominada pela milícia, acabei tendo contato com as particularidades de cada região. Mas transformar isso em literatura não é fácil.

Tentei construir os personagens de todos os contos a partir dessa premissa. Independentemente do tom que escolhesse para contar determinada história, ele nunca poderia ser uma coisa só. Onde a linguagem ia para o português mais canônico, eu fazia questão de inserir gírias e expressões populares. Onde usava e abusava da oralidade para contar uma história, sempre havia espaço para uma palavra mais recorrente ao português formal. Isso resultou numa série de perguntas sobre verossimilhança, se aqueles personagens falariam daquele jeito. Continuo achando que sim. Os personagens do livro são todos baseados em seres humanos, complexos e imprevisíveis por natureza.

Hoje, pensando sobre todas essas motivações, não posso descartar uma, determinante: o desespero. Estava com 24 anos, desempregado, sem profissão, sendo obrigado a mudar da casa onde vivia. Naquele ano de 2015 havia participado da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), apresentando com meus colegas as revistas Setor x, produzidas na Rocinha, em Manguinhos e no Complexo do Alemão. Muita gente gostou da mesa e veio falar com a gente, desde possíveis leitores a profissionais do mercado editorial. Na época, eu não tinha um trabalho pronto para mostrar, não tinha nem mesmo um projeto em andamento, e isso me fez sair de Paraty com a determinação de que, quando aparecesse outra oportunidade, estaria preparado.

Convenci minha mãe a mais uma vez apostar em mim. Disse a ela: preciso ficar um tempo sem trabalhar para escrever um livro, e esse livro vai mudar minha vida. Dona Neide mais uma vez abraçou o papo. Comecei a escrever um romance. Desde 2013, quando participei da Flup pela primeira vez, escrevia contos, mas muita gente me dizia que seria difícil conseguir uma editora para publicar um livro de contos, a não ser que eu estivesse disposto a pagar pela edição, o que estava completamente fora da minha realidade.

O problema era que o romance não andava, estava tudo muito forçado, e por sorte não demorei para perceber. No meio disso, apareceu um concurso de minicontos de suspense da Biblioteca Parque Estadual, no centro do Rio, que oferecia bicicletas aos vencedores. Para esse concurso, escrevi o conto “Primeiro dia”, em 40 linhas — que era o limite do texto —, e levei a bicicleta para casa.

Para acabar de vez com minhas pretensões de fazer um romance, meu computador parou de funcionar. Fiquei dias pensando no que fazer, pensando em arrumar um emprego, alugar uma casa. Por mais que me desse muito bem com minha mãe, voltar a morar com ela depois de tantos anos, e sobretudo naquela situação de dependência, era complicado. Até que um dia, voltando da Feira de São Cristovão, minha mãe e meu padrasto me trouxeram uma máquina de escrever. Uma Remington 22 funcionando perfeitamente e com tinta. Pirei na hora. No mesmo dia comecei a escrever um conto novo, chamado “A viagem”, que acabou entrando no livro.

A biblioteca abriu um novo concurso de minicontos. Histórias de verão deveriam ser contadas em até 40 linhas. Fazia tempo vinha pensando em escrever sobre as tensões provocadas por uma praia lotada, e foi aí que escrevi em 40 linhas a primeira versão do “Rolézim” (título do conto que abre O sol na cabeça. Ele narra o dia de garotos da periferia na praia e é marcado pela experimentação da linguagem e pelo uso de gírias). Achei que a história tinha potencial, mas não gostava do texto e acabei não mandando para o concurso. Passadas algumas semanas, depois de um dia inteiro conversando com meu irmão que trabalhava na praia, voltei ao conto. Foi uma escola. Passava dias inteiros escrevendo e reescrevendo. Percebi que o processo de escrever à mão e depois bater à máquina possibilitava um cuidado muito maior com cada palavra ou pontuação. Levei mais de três meses para concluir o texto, mas quando terminei tive a certeza de que deveria fazer um livro de contos.

Escrever o “Rolézim” me ajudou muito; tanto para definir o conceito e a estrutura do livro quanto no entendimento do próprio gênero literário. Ainda assim, cada história foi um parto. Trabalhava na máquina de escrever de seis a oito horas por dia, de segunda a sexta-feira. No fim de semana, tentava me distrair, evitava pegar no caderno ou na Remington. Mas a verdade é que passava boa parte desse tempo imaginando histórias possíveis, montando personagens, costurando frases que ouvia pelas ruas, consertando coisas, organizando argumentos, trocando uma palavra por outra.

Passei o ano de 2016 mergulhado nos universos de cada conto. No final do ano, a falta de grana me fez aceitar o convite de meu irmão para trabalhar numa barraca de praia durante o verão. Com o dinheiro da praia, consegui alugar um quarto na Rocinha e comprar a mobília. Mas era impossível conciliar o emprego com o trabalho literário, tendo em vista que tinha uma carga horária de mais de 12 horas por dia. O livro então ficou na gaveta até março de 2017, quando fui convidado para participar da programação paralela da Flip.

Depois do convite, larguei o trabalho na praia e me dediquei à finalização do livro, revisei o que estava pronto e ainda escrevi mais três histórias que já vinham me assombrando havia tempos: “Espiral”, “Travessia” e “Sextou” (contos incluídos em O sol na cabeça). Levei o livro debaixo do braço na intenção de conhecer editores possíveis durante o festival. Isso aconteceu de uma maneira muito mais fácil do que eu imaginava. O Antonio Prata, escritor e mediador da mesa de que participei, já havia lido os contos que mandei para a produção do evento, se interessou e acabou falando sobre mim com o Ricardo Teperman, seu editor na Companhia das Letras. O Ricardo assistiu à mesa, conversamos e uma semana depois assinamos o contrato de edição do livro.

De lá para cá, muita coisa aconteceu: O sol na cabeça teve por leitores iniciais nomes como Chico Buarque, João Moreira Salles, Fernando Meirelles, Walter Salles… Foi vendido até o momento para nove países e seus direitos foram vendidos para o cinema. De minha parte, acho que o melhor nisso tudo é carregar a certeza de não ter quebrado a promessa que fiz a minha mãe.

Geovani Martins tem 26 anos e é carioca. Descobriu­-se escritor ao participar da Festa Literária das Periferias (Flup). Neste mês publica seu primeiro livro, O sol na cabeça, composto de 13 contos sobre as vivências dos jovens das periferias. Marcadas por uma linguagem original, as narrativas incorporam as gírias urbanas. Antes mesmo de chegar às livrarias brasileiras, o livro já foi vendido para nove países — a China, inclusive. Os direitos de adaptação cinematográfica foram adquiridos pelo produtor Rodrigo Teixeira. Karim Aïnouz será o diretor

Texto e imagens reproduzidos do site: epoca.globo.com

O futuro do emprego





Publicado originalmente no site da revista Planeta, em 16/11/2016

O futuro do emprego

O mercado de trabalho da forma como conhecemos está em plena mutação. Ao mesmo tempo que as novas tecnologias ameaçam muitas vagas, também criam outras; e os próprios profissionais já não querem mais o estilo de vida das gerações anteriores

Por Renata Valério de Mesquita 

No ritmo acelerado das tecnologias digitais e móveis, o futuro já começou a reorganizar as estruturas tradicionais de emprego e o mercado de trabalho. O que, por si só, já deixa qualquer um inquieto, somado a crises econômicas gera ainda mais preocupação com desemprego em massa e inadequação aos novos modelos. A isso ainda se acrescenta, no Brasil, a acalorada discussão sobre a proposta de reforma trabalhista do governo. Processos estão sendo automatizados, algoritmos e robôs estão substituindo pessoas e a inteligência artificial ameaça até mesmo atividades intelectuais.

Assim como o mercantilismo, no século 16, e a industrialização, no século 19, a atual revolução digital está alterando os modos de produção, as relações comerciais e de trabalho. O Banco da Inglaterra calcula que, nos próximos 10 a 20 anos, as máquinas poderão ocupar 50% das vagas de emprego do país e dos Estados Unidos, incluindo funções administrativas, de escritório e de produção.

A notícia pode parecer ruim, mas não necessariamente. Enquanto alguns ofícios e profissões tendem a se desmanchar, novas atividades e vagas estão surgindo. A conectividade está transformando onde e como fazemos as coisas e criando a economia colaborativa. Apesar de assustadora, a automação promete liberar as pessoas de trabalhos mecânicos e repetitivos para exercer sua criatividade, raciocínio e habilidades sociais em atividades mais interessantes.

“O pagamento por hora – ‘bunda-cadeira’, como eu chamo – tende a ir se extinguindo e os trabalhadores passarão a ser mais cobrados e remunerados pelos resultados que gerarem no seu dia a dia”, afirma Caroline Batista, especialista em auto­liderança, uma categoria de coaching que nasceu em função da nova era. “As pessoas precisam ­assumir a gestão das suas car­reiras. Essa é a melhor coisa que você pode fazer para não ser pego de surpresa.”

Seu próximo trabalho

Com tantas tendências redefinindo as relações de trabalho (leia infográfico nas páginas seguintes), surgem também conceitos de carreira. Identificada ainda nos anos 1970, a “carreira proteana” derruba as tradicionais barreiras para prestação de serviços, sem limite de lugar físico nem de exclusividade com o cliente. O profissional é remunerado pelo conhecimento transmitido e pelo resultado gerado.

Já a “carreira inteligente” valoriza a forma de atuar de cada indivíduo. Como o conhecimento técnico todo mundo tem, passam a contar mais a experiência de vida de cada um e as competências que desenvolveu em prol da sua carreira. O profissional se torna uma espécie de mentor e é remunerado por isso.

Na “carreira sem fronteiras”, por sua vez, os profissionais são completamente independentes e trabalham para diferentes países; os pagamentos são feitos por cartão­ de crédito. Se a concorrência é globalizada, as oportunidades laborais também são.

Caroline lembra, porém, que a legislação brasileira, ainda muito engessada, não está preparada para esses novos formatos. O que a atual reforma trabalhista propõe aponta nesse sentido, mas ainda deixa questões sem resposta e assusta a concepção mais tradicional de emprego. “Além disso, é preciso pensar em um plano de migração para as pessoas que estão sendo substituídas por robôs”, alerta a coach.

Na Suécia estão ocorrendo experiências de redução da jornada de trabalho para seis horas diárias, por enquanto com bons resultados. E na Suíça a população foi chamada, em junho, para um plebiscito que decidiu se se estabelecia, ou não, uma renda básica universal para os cidadãos de todas as idades – independentemente de estarem empregados. Quase 80% rejeitaram a proposta.

Ocupação x realização

A carreira tradicional – tão focada em salário, nível hierárquico e status – vai perdendo lugar para outros critérios de sucesso. Nessa nova cultura em formação, o contracheque perde importância frente à autorrealização e ao sentido no que se está fazendo. Os profissionais de hoje estão interessados em causar impacto positivo na sociedade com seu trabalho.

Toda essa transformação começou com a geração Y (nascidos entre 1980 e 1995), também conhecida como Millennials, que entrou no mercado de trabalho questionando os modelos anteriores. Diferentemente da geração X (nascidos nos anos 1960 e 1970), que queria ascender rapidamente e chegar aos 30 anos ganhando muito dinheiro, os Y já não queriam mais se matar de trabalhar, preferiam ter tempo para ser felizes. Agora, com a chegada ao mundo laboral da geração Z (nascidos na era digital), as mudanças são ainda mais demandadas e velozes.

“A geração Z quer ser feliz o tempo todo, quer gostar do que faz como trabalho. É uma geração que vai passar por muitas carreiras na vida”, analisa Caroline. Ela mesma, hoje com 32 anos, já viveu na pele a passagem para outra profissão. Depois de dez anos na empresa de marketing que criou com colegas, não sentia mais vontade de continuar nessa área. “Na época já atuava como coach interno lá dentro, me identificava muito com essa atividade e fui me desenvolver nisso no exterior.”

Para a jornalista Claudia Giudice, demitida depois de mais de 20 anos numa mesma empresa (leia reportagem “Reescrevendo a própria carreira” ao final da reportagem), como parte de um enorme corte de funcionários – algo muito frequente nos dias de hoje –, essas mudanças são um ruído e um susto para sua geração e as anteriores. Para ela, a perenidade no trabalho não faz mais sentido. “A gente conseguia controlar os movimentos, agora não consegue mais.”

O lado bom, a seu ver, é realizar diferentes aptidões e desejos numa mesma vida e não precisar mais se prender a velhos modelos. “Não sabemos para que lado vão as profissões. Temos vidas produtivas mais longas e os jovens de hoje não vão mais começar e terminar a vida profissional na mesma carreira.” Mas reconhece que, para quem gosta de estabilidade e segurança, a situação é desafiadora: “está mais para o filme Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu!”

Por isso, ela defende que a melhor forma de lidar com as incertezas de hoje é se manter preparado para as mudanças. “Com o mercado como está, é bom ter à mão uma saída para a situação que se está vivendo.” Mas destaca que empreender não é a única saída. Sua sugestão é que as pessoas apostem no que gostam de fazer, em atividades que sintam prazer em fazer.

A coach Caroline concorda. O fundamental é afastar as imposições familiares e conhecer a si mesmo para descobrir do que realmente se gosta. “Todos têm múltiplos talentos. Ninguém tem que ter nascido para atuar numa coisa só”, instiga. Hoje é possível fazer um hobby render dinheiro, sem necessariamente ter de empreender. Assim como não é mais necessário fazer uma faculdade. “As universidades, aliás,­ vão ter de evoluir para certificadoras de conhecimento dentro dessa realidade do conhecimento livre e sob demanda, como Harvard e Yale já começaram a fazer.” Para ela, no Brasil, títulos ainda costumam contar mais do que a experiência. “Lá fora é o inverso.”

O aplicativo Uber e o táxi: maneiras diferentes de fazer a mesma coisa

Choque geracional

Mesmo o empreendedorismo ganha hoje novos contornos. Com 27 anos, Francisco Forbes (leia reportagem “Máquina de empreender” ao final da reportagem) pode falar disso com propriedade. Já pôs de pé três empresas de sucesso e ensina em três universidades. Ainda acha tempo para pilotar helicóptero e estudar saxofone – se declara apaixonado por jazz. “O jazz­ não é o que, é o como. É a forma como se faz. Posso tocar qualquer música jazz.”

Para ele, a forma de fazer as coisas é o que marca o novo mercado: o sistema de aluguel de acomodações Airbnb e o de transporte de passageiros Uber, por exemplo, fazem basicamente o mesmo que a rede hoteleira e o taxista já faziam, mas de um jeito diferente.

No caso do empreendedorismo, as grandes diferenças com os negócios abertos pelas gerações anteriores é que as empresas iniciantes (startups) de hoje já não estão pensadas para dar lucro, mas sim para durar menos tempo e serem vendidas. “Além de dependerem de injeção de capital para ter um impulso de crescimento”, lembra.

O ambiente organizacional nas startups – até mais do que em outras empresas – enfrenta o choque geracional: os profissionais mais velhos se sentem incomodados de ser liderados por pessoas da idade dos filhos, e os mais novos vêm criando resistência em trabalhar com quem pensa de forma muito diferente da deles. “Mas precisamos nos entender, não vamos conseguir viver de uma geração só. Precisamos das habilidades que os mais velhos podem trazer.”

Esse atrito entre gerações acontece nas empresas e em casa. “Os pais estão claramente discordando de os filhos fazerem essa migração do conforto e estabilidade do emprego tradicional, para o risco do modelo de startup”, comenta Francisco Jardim, sócio-fundador do fundo de investimento SP Ventures. Isso porque as empresas iniciantes oferecem salários mais baixos e quase nada de benefícios, mas dão aos funcionários participação acionária. “É como trocar conforto e benefício de hoje pelo potencial futuro”, diz.

Se as gerações anteriores buscavam bônus semestral e anual, plano de saúde e de carreira, hoje, segundo Jardim, a garotada está pedindo outras coisas. Principalmente: propósito (uma missão no planeta), autonomia (ninguém está mais disposto a ser microgerenciado, querem liberdade para poder criar e pensar) e espaço para exercer o próprio potencial (oportunidade de crescimento pessoal e profissional conjunto). “Um exemplo disso tudo é o Google que, por exemplo, permite aos funcionários dedicarem 20% do seu tempo ao que quiserem.”

O futuro do emprego promete responder às mudanças do mercado e, em grande parte, ao desejo dos profissionais. A revolução que vivemos não é só digital, mas também comportamental.


Reescrevendo a própria carreira

Claudia Giudice começou sua carreira de jornalista com 16 anos e ficou por mais de duas décadas na mesma empresa, escalando a hierarquia corporativa. De repórter estagiária chegou à diretora superintendente de marcas femininas da Editora Abril. E planejava se aposentar ali em 2020, para então assumir a Pousada A Capela, em Arembepe (BA), que abriu em sociedade com uma empresária local, Níl Pereira, em 2012. Mas, em 2014, foi demitida em um grande corte. Experiência que inspirou a criação do seu blog Vida sem Crachá, editado em livro no ano passado.

Apesar de Claudia já ter uma carta na manga, a demissão a deixou desorientada por certo tempo. A primeira atitude foi mudar sua forma de consumir. Cada dinheiro economizado era um tempo a mais para decidir o que ia fazer. Trocou o carro pela bicicleta, cancelou a TV por assinatura, mudou para uma casa menor. “Liberdade individual é proporcional à segurança financeira. A gente descobre que pode viver com muito menos e que é uma delícia.” Diferentemente do que se pode imaginar, Claudia não vê o momento como uma crise, mas como uma “transformação” devido à revolução digital. “Estamos dentro do processo histórico e é difícil avaliar o quanto isso significa. Quero viver mais uns 20 anos para poder falar disso como testemunha ocular da história.”

Menos pressão, mais exigência

Enquanto a sócia cuida da parte mais operacional na pousada, Claudia responde pela gestão das reservas, pelo financeiro e pelo marketing, atividades que pode executar a distância. (Durante a semana, ela geralmente está em São Paulo.) Claudia acredita que trabalha mais como empreendedora do que como funcionária. “Não tenho mais a pressão do chefe. Mas sou mais exigente agora do que era como executiva.” Nem por isso parou por aí. A dupla está abrindo uma loja para vender arte popular e móveis (que já atraíam o interesse dos hóspedes da pousada) e administrar reformas e manutenções, para atender as casas de veraneio da vizinhança.


Com música e dentes

O confisco da poupança, em 1990, época em que a inflação passava dos 100% ao mês, levou o então dentista Carlos Althier de Souza Lemos Escobar a perder tudo o que tinha, inclusive sua clínica. “O Brasil me fez fechar as portas e dispensar 17 funcionários”, lembra do episódio ocorrido quando tinha 53 anos de idade. Aquela crise só não tirou a música de Guinga, como é conhecido o violonista de renome internacional.

Seu caso com o violão era antigo, mas foi interrompido pelo consultório. Já com 16 anos, Guinga acompanhava artistas como Beth Carvalho, Clara Nunes e Cartola. Como músico mal pago que precisava se sustentar, decidiu viver como doutor quando entrou na faculdade de odontologia, aos 20 anos. “Não me arrependi de ter mudado. Tive muitos anos de estabilidade e pude formar minha família.” De forma alguma a vida foi fácil. Trabalhava de 6h30 às 22h, de segunda a sábado, sem nunca tirar férias. Mesmo assim, nunca deixou de tocar. “Quando a gente quer, sempre arranja tempo. Compunha muito no consultório. Mas minha ideia era voltar para a música só quando tivesse meu cavalo amarrado na sombra.”

Ele reconhece que a situação hoje não está boa. “No Brasil, o mercado sempre foi complicado.” Por isso aprendeu a diversificar. Só no primeiro semestre deste ano foi três vezes à Europa e uma aos Estados Unidos para fazer shows. “Hoje, com 66 anos, tenho nome firmado; não vendo muito, mas sou bem-sucedido e respeitado.” 


Máquina de empreender

Ainda no ensino fundamental, Francisco Forbes começou a programar e desenvolver sites. O pagamento era feito na forma de permutas com as empresas que atendia. Apesar de ter se formado arquiteto no Brasil e estudado cinema nos Estados Unidos, nunca trabalhou com nada disso. Ligou-se cada vez mais ao mundo digital e se tornou um empreendedor em série.

Depois de trabalhar com marketing digital nos EUA, voltou ao Brasil, em 2007, decidido a abrir sua própria empresa na área. Driblou as dificuldades se tornando o braço digital de grandes agências de propaganda. “Em um ano já tinha 70 funcionários. Aprendi errando de todas as maneiras possíveis. Descobri o que era imposto, tomei processo trabalhista e levei golpe”, conta.

Quando fundos de investimento ao estilo norte-americano vieram para o Brasil, Forbes participou de uma série de startups, como Groupon, Dafiti, Submarino, assim como dos próprios fundos. Logo um desses fundos comprou sua agência e, com outros dois negócios, montou a Infracommerce, da qual Forbes foi vice-presidente por dois anos. Hoje, ela é o maior distribuidor de tecnologia e desenvolvimento para comércio eletrônico da America Latina, com clientes do porte de Danone, Unilever e Ray-Ban.

Forbes saiu de lá em 2014 para montar a Seed, empresa que leva ao varejo físico a mesma inteligência das métricas usadas no e-commerce. Um robozinho instalado na porta da loja e integrado ao caixa conta quantas pessoas entraram, se compraram, o que compraram, se voltaram outro dia, etc. “Com essas informações, varejistas como Ponto Frio, Centauro, Ri Happy, bancos e aeroportos podem tomar decisões sobre promoções, investimentos em marketing, reformas físicas e otimizações.”

Cultura da horizontalidade

Apesar do extenso currículo, Forbes ainda tem 27 anos. “A barreira do tempo acabou. Hoje tenho mais valor – do ponto de vista de geração de dinheiro e de receita – do que muito executivo com 20 anos de empresa”, diz. Ele destaca que sua geração está criando uma nova cultura marcada por horizontalidade, colaboração, transparência e ética. “As notícias correm muito rápido – para o bem e para o mal. Antes era preciso sair nos jornais, hoje basta o Facebook.”

Recentemente, ele foi convidado a ser sócio de uma cervejaria. Mas alerta que o sucesso não vem fácil: é preciso trabalhar muito. “VIvo uma constante angústia de liquidez, não controlo minha agenda e já fui parar no hospital por estresse.”

Texto e imagens reproduzidos do site: revistaplaneta.com.br