quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Sexo e Sexualidade


Sexo e Sexualidade 

Por Dênis Athanázio

Muitas pessoas confundem sexo com sexualidade. O sexo, segundo o “pai dos burros”, é a conformação física, orgânica, celular que permite distinguir o homem e a mulher, atribuindo-lhes um papel específico na reprodução. Para a Psicanálise, a sexualidade é muito mais que sexo, genitália ou algo estritamente biológico.

A sexualidade está diretamente relacionada à libido, isto é, à pulsão. Essa libido é a energia psíquica pulsante que nos motiva a levantar da cama, a encontrar um amor, a sentir prazer, a criar, pensar, cuidar, chorar, protestar por uma causa, se enraivecer, investir nossa atenção (não apenas com o objetivo de fazer sexo ou se reproduzir). Se pudesse resumir isso tudo, eu diria que é quando vivenciamos a eroticidade da vida em nossa própria vida.

Dizem popularmente que tem gente por aí que não consegue gozar a vida porque são recalcados(as), reprimidos(as), vivem carrancudos e infelizes, o que quer dizer, em outras palavras, e no sentido psicanalítico, que não estão com sua sexualidade minimamente saudável, e isso tem direta ligação com momentos de alegria que possamos sentir ou não no decorrer da nossa nada mole vida. Pois quanto mais “severo” o nosso recalque e repressão, menos nós abrimos para novas possibilidades de vida que batem a nossa porta, mesmo que algumas delas sejam positivas.

O conceito de repressão, muito trabalhado por Freud e seus contemporâneos, nos ensina que este é o processo psíquico através do qual todos os sujeitos rejeitam determinadas representações, ideias, pensamentos, lembranças ou desejos, mergulhando-os na negação inconsciente e no esquecimento, bloqueando, assim, os conflitos geradores de angústia. Na prática, e se o Freud estiver certo, isso quer dizer que não existe ser humano que não recalque ou reprima, o que existe são intensidades, graus e formas diferentes em cada pessoa para onde estes conteúdos vão se manifestar.

O problema prático é que, quando rejeitamos essas determinadas representações que temos dentro de nós fingindo que elas não existem, a gente “esquece não esquecendo”, tampa o pote, mas, mesmo assim, o cheiro vaza pelos lados. Tudo isso escapa e aparece em nós em forma de sintoma, neuroses, dores físicas e doenças de todo tipo.

Até hoje temos muitas dificuldades em lidar com nossa sexualidade e a dos outros. Vejo muitas pessoas reclamando e alegando sobre o pouco interesse de seus parceiros(as) em fazer sexo, alegando que os mesmos não têm a quantidade de libido que eles têm. O problema é que este tipo de pessoa comumente deseja o sexo no sentido quase animal, procriador e do “sexo fácil” e esse outro grupo deseja o “sexo da sexualidade”. Este é mais refinado, deve nutrir afeto diário, personalidade interessante, para depois a prática sexual acontecer. É daí que ouvimos ou dizemos sobre pessoas que achamos sexy ou um “bom partido” por ser inteligente, compreensivo(a) ou criativo mesmo não sendo necessariamente bonito(a), no padrão físico estabelecido socialmente. Quem olha de fora não entende nada e só fica com inveja, mas para quem está dentro faz todo o sentido do mundo. A sexualidade exala no ar e conquista os mais atentos e os mais sofisticados psiquicamente.

Outro ponto que nos gera medo é que o contato com nossa sexualidade ligada ao outro pode trazer à tona sentimentos relacionados a nossa vulnerabilidade e à perda de controle por acharmos que estamos na palma da mão desse outro.

Seja por algum trauma ou por uma repressão muito forte que constituímos em nossa história de vida, nos entregar em uma relação íntima, cria dentro de nós uma fantasia de que vamos nos perder no outro, nos destruir ou ficarmos dependentes para sempre dele. E é a partir dessa fantasia que nos entregamos pela metade, ficamos apenas na superfície da relação, não nos doamos de corpo e alma no sexo, no afeto e reprimimos nossa sexualidade. Nesse sentido, o ato do chamado sexo casual é menos angustiante, pois mesmo sem o entrosamento prático de ambos, a cobrança interna pode ser menor e o desempenho sexual melhor, com mais liberdade. O medo começa quando esse “casual” se transforma em “casal”. Pois é quando começa a se intensificar a intimidade e nossos esqueletos saem do armário.

Não acredito que exista alguém cem por cento resolvido em todas as vivências, contradições e desdobramentos da sexualidade inerente ao ser humano. Mas podemos pensar e refletir sobre os sinais inconscientes que transmitimos em forma de resistências, defesas e desculpas para não enfrentarmos essas contradições. A seguir citarei algumas:

Quando a relação entre duas pessoas começa a ficar mais íntima e a convivência frequente, alguns abandonam seus pares antes mesmo de saber se terão futuro como casal. É o medo da entrega e da frustração, mas o discurso é que “você é bom demais para mim e não te mereço”.

Quando ficamos tristes por ver que o homem ou a mulher tem energia para fazer as tarefas de um universo inteiro, mas quando o assunto é a prática sexual, o cansaço, sono, dores de cabeça surgem mais rápido que um cometa. É o medo de conhecer o mundo da sua sexualidade, de se soltar e não ter mais como frear, caso queira.

Quando vemos pessoas que conseguem ter energia suficiente para, após um longo dia de trabalho, ir direto para um happy hour de três horas de duração com o pique de uma criança. Se fosse para se entregar ao sexo comprometido,  ao cuidado e à atenção dos filhos, o esgotamento mental e físico viria imediatamente.

Quando adicionamos compromissos de última hora para evitar aquela conversa tão importante e necessária sobre o futuro da relação, com a desculpa (socialmente aceita) de que tivemos que passar na casa dos pais, pois era “caso de vida ou morte”. Aliás, compromisso profissional, cuidar dos filhos, limpar a casa, visitar um amigo e problemas de saúde muitas vezes são boicotes inconscientes, que geram desculpas difíceis de negociar, pois sempre vem em nossa mente a culpa “e se for verdade mesmo que ele(a) precisou estar lá ou fazer o que disse que iria fazer”? Geralmente essas desculpas socialmente aceitas, fazem com que quem está do lado de fora ou que possui uma reflexão mais primitiva da vida pensar que somos egoístas, intolerantes e chatos por não entendemos o ocorrido. Mas é porque eles só enxergam as linhas e esses conteúdos só se apresentam em forma de defesa da sua sexualidade nas entrelinhas.

Sei que existem as exceções e os contratempos cotidianos, mas sei também que alguns deles nós criamos por medo de vivenciarmos nossa sexualidade nesse conceito maior que é forma erótica de se relacionar com a vida, incluindo todas as suas tristezas, alegrias, responsabilidades e prazeres, perdas e ganhos existencialmente falando.

Um dia desses, ouvi pessoalmente a história de um casal que após 25 anos de casamento conseguiu se liberar mais sexualmente e em suas outras formas de sexualidade. O sorriso sincero e brilho no olhar deles era nítido e fiquei realmente feliz por eles. Mesmo sabendo que cada um tem seu tempo para as coisas acontecerem, me peguei pensando se eles não poderiam ter esse despertar aos 25 ou 30 e não apenas aos 55 anos. Inclusive o homem me confessou que está adorando essa nova fase do casal, e que o relacionamento com os filhos melhorou muito. Em relação ao sexo também está tudo ótimo, mas  me disse que sente várias dores no corpo por fazer sexo quase todos os dias. “Não sou mais um menino, Dênis!”, ele me disse, respirando profundamente. É como se agora a alma de um menino estivesse num corpo mais velho.

Entregar-se a alguém é difícil, mesmo. Alguns preferem se relacionar com várias pessoas ao mesmo tempo para talvez não ter intimidade com nenhuma. Outros preferem estar apenas com uma pessoa, mas são desconhecidos vivendo debaixo do mesmo teto. Outros são um pouco mais corajosos para tentarem se doar e se conhecerem cada dia mais, sem saberem o que acontecerá daqui uma semana, um mês ou um ano.

Nossa vida começa com a abertura de uma pequena aspa antes do nosso nome. Quando esta será fechada, isso só Deus sabe. O que nos cabe é se entregar a ela com responsabilidade misturada com pequenas doses de loucura. Isso se chama sexualidade.

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Dênis Athanázio - Psicólogo, palestrante, terapeuta de família e casal. Gosto de futebol e de “arranhar” minha guitarra. Escrevo primeiramente para me ajudar e quem sabe, talvez, ajudar outras pessoas. Escrevo aqui no Obvious e semanalmente no meu blog denisathanazio.wordpress.com.

Texto e imagem reproduzidos do site: obviousmag.org/denis_athanazio

Não existe russa como a modelo Irina Shayk




Fotos: David Roemer.

Publicado em: 14/07/2014 ˑ Categorias: Capas, Mulheres de Status 

IRINA SHAYK

Não existe russa como a modelo Irina Shayk, e aqui estamos nós e Cristiano Ronaldo, só nós, com o privilégio de testemunhar essa deliciosa verdade

Por Nirlando Beirão.

Irina Shayk, nascida Shaykhislamova, fez parte daquela revoada de beldades russas que, de uns dez anos para cá, não mais que isso, exibindo despudoradamente o estardalhaço apimentado de sua beleza, atropelaram as passarelas, invadiram os editoriais de moda, conquistaram as capas de revista e chacoalharam a fantasia mais devassa da rapaziada.

Do ponto de vista da imagem lasciva, vocês sabem, as russas são as brasileiras da Europa: lindas, diabolicamente sensuais, despidas de qualquer preconceito, capazes de se incendiar de libido ao primeiro toque, ao mais leve sussurro ao pé do ouvido. Não é exagero: desde que esqueceu a bomba atômica, ao final da Guerra Fria, a Rússia de Putin aderiu à Guerra Quente e se especializou em detonar pelo mundo afora torpedos eróticos capazes de devastações ainda maiores.

Vamos lá, vocês devem se lembrar: Natalia Vodianova, Sasha Pivovarova, Nathalia Poly, Valentina Zelyaeva, Vera Brezhneva, Ravshana Kurkova… (ei, o que você está fazendo aí que ainda não foi correndo para o Google Images?). Só que, muito além do baticundum das passarelas, as russas ainda faziam estrago em outros territórios. Estão aí as tenistas Anna Kournikova e Maria Sharapova que não nos deixam mentir. A Kournikova parece ter um demônio libertino dentro dela, enquanto a Sharapova, aquela lindeza toda, ainda sugere um distanciamento meio glacial, meio siberiano, ou então é porque sucumbiu àquele travo puritano de sua nova cidadania americana. Um dia, quem sabe, livre enfim de todas as amarras, a Sharapova há de ilustrar as páginas centrais desta nossa Status.


De todo modo, não existe russa como Irina Shayk, e aqui estamos nós, vocês, eu e o Cristiano Ronaldo, só nós, com o privilégio de testemunhar essa deliciosa verdade. Bem, a intimidade dela com o esporte vem desde 2007, quando ela ingressou naquele dream team da edição anual de praia da Sports Illustrated. Quando ganhou a capa da edição de 2011, já andava de namoro com o CR7. Por mais que o craque do Real Madrid tente pegar carona em suas fotos, como na recente Vogue España, Irina tem luz própria e carreira de sucesso.

Ser, por exemplo, exclusiva da provocativa grife de lingerie Intimissi só aconteceu porque ela não tem nada da loirice gelada de certas tops germânicas, e a gente facilmente adivinharia, em sua pele de azeitona, num contraste chocante com os olhos verdes de cristal, uma magnética italiana da Sicília, daquelas capazes de promover a paz – ou, ao contrário, acirrar os ânimos – entre coléricas facções mafiosas. E essa boca, gente? Isso não é uma boca, é um atentado ao pudor, um escândalo público. Aos 28 anos, Irina começa a abrir uma nova avenida para desfilar sua beleza de deusa grega. No cinema e, bem a propósito, contracenando com Dwayne The Rock Johnson, lenda viva do vale-tudo, numa alegoria mitológica de berros, monstros e músculos com o título de Hércules. Ela faz Mégara, a primeira mulher do herói.

Craques de futebol têm hoje o status de ídolos pop, assim como as tops das passarelas, identificando-se uns e outras com as glórias e as agruras de uma carreira meteórica, que exige tudo do corpo e que pode ter data certa para acabar. Estrela atrai estrela, é a lei da astronomia das celebrities. De tal forma que as divas da moda estão agora dispensadas de buscar o futuro estável junto a xeques de turbante e milionários colecionadores de arte – e de beldades. Irina é o jeito Status de ver a Copa. Irina, integralmente bela, esfuziantemente jovem, saborosamente nua. E sem o estorvo do papagaio de pirata.

Texto e imagens reproduzidos do site: revistastatus.com.br

Os quatro truques para melhorar a sua memória

Ilustração: Alba Prieto.

Publicado originalmente no site El País Brasil, em 19 SET 2017

Os quatro truques para melhorar a sua memória

Repita, associe, vincule emoções e brinque com a novidade

Por Pilar Jericó. 

Imagine que você pode memorizar as cartas de um baralho colocadas aleatoriamente em noventa segundos, ou uma sequência de mais de cem dígitos em menos de cinco minutos. Impossível? Não. Chester Santos foi capaz de fazer isso, o que fez com que, com outras provas, ele se transformasse no campeão de memória nos Estados Unidos há alguns anos. E o que tornou isso possível foi o treinamento, algo que todos em maior ou menor medida podemos fazer para lembrar melhor das coisas, segundo Wendy Suzuki, diretora do laboratório de pesquisa de Nova York. Vejamos como conseguir isso em quatro passos fáceis.

O primeiro passo simples para melhorar a memória é a repetição. É certo que você tem a experiência de lembrar facilmente um movimento de dança, de um esporte ou de direção quando o repetiu uma infinidade de vezes. O motivo é químico. Criamos um novo hábito, ou seja, um novo cabeamento neuronal, que atua inconscientemente. Por isso não é de estranhar que sem que você se dê conta tenha ido para o trabalho de carro quando realmente queria ir para outro lugar. Não é que você esteja obcecado, mas que a repetição provoca um novo sulco na memória que te arma pegadinhas. Por isso, se você quer aprender algo novo o primeiro ponto é repetir, repetir e ter muita paciência.

Outro passo para recordar coisas novas é a associação. Segundo a palestra TED de Chester Santos, este é seu truque quando memoriza uma lista de nomes como, por exemplo, macaco, pesos, casas... em vez de se fixar na palavra, crie uma história que ajude a lembrar dela, como "o macaco está levantando pesos em uma casa....". A associação pode ser usada no seu dia a dia de muitas outras maneiras, como na hora de se lembrar dos nomes de pessoas que você acaba de conhecer, algo que, aliás, costumamos esquecer com facilidade, segundo demonstrou a ciência (uma boa explicação para não nos sentirmos mal com nós mesmos). Por isso, o truque é associar cada nome a uma pessoa que você já conhece. Desse modo, quando for apresentado a Juan, por exemplo, evoque um amigo que também tenha esse nome. Se você aplicar esse pequeno truque, muito possivelmente será mais simples recordar o nome dele.

A ressonância emocional é outra das aderências da memória. É certo que você se lembrará do que estava fazendo quando soube do 11 de Setembro ou quando recebeu uma notícia surpreendente, ou um momento que foi muitíssimo prazeroso. O motivo é a amígdala, a zona emocional do cérebro que tem a qualidade de registrar sensações intensas. Por isso, tudo aquilo que você viveu com intensidade emocional será mais fácil de memorizar, como uma matéria de que você gostava muito na escola ou a visita feita a algum lugar que te fascinou. Assim, na medida em que algo te agrade, incluirás emoções e será mais fácil memorizar.

E, por fim, o quarto truque é a novidade. O novo atrai nosso cérebro e o faz recordar. Isto se deve também à ressonância emocional que nos desperta. Por isso, é mais fácil lembrar os nomes anteriores do exemplo do macaco, pesos, casas, etc, se a história que você construir for surpreendente ou sem pé nem cabeça. Um macaco levantando pesos não é muito comum, sem dúvida. Poderíamos dizer que nosso cérebro gosta de se divertir um pouco. Por isso, se você utiliza também a imaginação e a criatividade na hora de escrever as coisas que não quer que sejam esquecidas, será mais fácil para a sua memória. É mais fácil para a memória recordar palavras decoradas ou pintadas artisticamente do que recolhidas em um documento de Excel.

Definitivamente, a maior parte dos mortais deseja ter uma memória melhor. Como dizem os especialistas e os cientistas, ela pode ser treinada se formos capazes de repetir o que é novo, de associá-lo a conceitos que já conhecemos, de vinculá-la a emoções e de brincar com a novidade.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

terça-feira, 19 de setembro de 2017

“Existem apegos saudáveis ou insanos”

Diego Figueras, em Madri (Foto: Carlos Rosillo - El País).

Publicado originalmente no site do El País, em 13 SET 2017.

“Existem apegos saudáveis ou insanos”

O psiquiatra Diego Figuera acredita que o que somos é marcado pela forma como fomos criados na infância

Por Elvira Lindo.

O psiquiatra Diego Figuera sai do Hospital de Dia de Ponzano (Madri), cercado por pacientes e famílias. Há beijos, abraços, se respira camaradagem. Hoje é a primeira sessão interfamiliar depois do verão europeu. São encontros que Figuera criou para que seus pacientes pudessem aprender com o comportamento dos outros. E eles aprendem. Descarregam angústia. Se sentem menos sozinhos. Embora contestada por setores mais ortodoxos da psiquiatria, essa maneira comunitária e afetiva de entender a profissão funciona para Diego Figuera. No ano passado, a Prefeitura de Madri lhe concedeu a Medalha da Cidade em reconhecimento por um trabalho em que aplica o conhecimento científico inculcado pelo pai (o primeiro cirurgião a fazer um transplante de coração na Espanha) e uma atitude criativa que aprendeu com a mãe, pintora. Figuera entende que muito do que somos é marcado pela maneira como fomos criados, pelo apego, esse termo nem sempre usado da maneira mais sensata, mas que ele nos explica com a paixão e a clareza daqueles que apreciam diariamente sua profissão.

- Apego é um termo definido pelo psicanalista e psiquiatra John Bowlby, que analisou as carências das crianças órfãs da Segunda Guerra Mundial. Bowlby percebeu que necessitamos de algumas figuras que cuidam de nós, fundamentalmente, para termos segurança. Quando somos muito pequenos, precisamos de segurança física, algo que vem da evolução das espécies, porque os animais também têm apego. Nascemos inábeis, indefesos diante dos predadores. Bowlby afirmou que nossa necessidade de apego não é secundária à alimentação, como defenderam até agora os psicanalistas. Se estivermos inseguros durante o período de criação, não aprendemos bem porque sempre andamos com os sinais de alerta ativados. A relação de cuidados físicos, emocionais e mentais vai mudando nas fases do desenvolvimento. Um apego seguro geralmente é considerado terminado com um ano e meio de vida. É por isso que hoje uma licença maternidade e paternidade de no mínimo um ano é considerada muito importante.

- O apego é uma necessidade básica determinada pela espécie. Precisamos de carinho, apoio e comida. Dependendo de como sejam esses cuidados, saímos com resistência à adversidade ou com vulnerabilidade, que é um fator de risco muito importante para a possibilidade de sofrer doenças mentais a partir da adolescência.

- Existem apegos saudáveis ou insanos. O apego seguro é o que nos torna resilientes. Isso não significa que estejamos grudados na criança o dia todo. Pelo contrário, é necessário promover sua autonomia de acordo com as fases; em cada idade a criança precisa de um tipo de relação afetiva, cognitiva e comportamental diferente. Se nos consideremos muito espertos ou muito limitados, teremos apegos inseguros. Por exemplo, a superproteção dá um apego inseguro e com menos resistência à adversidade. É o mal da sociedade moderna.

"Se uma criança é criada em um apego seguro, a probabilidade de ter doenças mentais é baixa, em geral"

- Os transtornos de personalidade estão intimamente relacionados ao nosso modo de vida. O estilo de criação influencia enormemente. Se uma criança é criada em um apego seguro, a probabilidade de ter doenças mentais é baixa, em geral.

- Um apego saudável promove a autonomia pessoal. A cada momento temos que nos separar um pouco dos nossos filhos para que explorem, se relacionem com o mundo. O excesso de preocupação está relacionado ao transtorno de personalidade limítrofe. Em criações muito superprotegidas, as crianças fazem rupturas muito fortes com os pais na adolescência, elas os punem.

"Os terroristas não são loucos, não. Eles são provavelmente imaturos, inadaptados, mas não é loucura"

- Hoje em dia já não separamos o biológico do psicológico, estão inter-relacionados de maneira complexa. O biológico parece que tradicionalmente dava a nós, psiquiatras, nossa importância como médicos, mas hoje acreditamos que o psiquiatra deve ser alguém mais multifacetado, ter mais interesses pela filosofia, psicologia, etologia, pelas neurociências.

- O outro apego que favorece o transtorno mental é o apego inseguro, evasivo, que é exatamente o contrário, o de pais excessivamente desapegados. Isso aconteceu muito na educação britânica. A criança é separada desde uma idade muito pequena, e o importante é a retidão. É um apego que está relacionado com figuras paternas muito fortes. Tende mais a dar vulnerabilidade à psicose, porque te ensinam a confiar apenas em você mesmo, a pensar que vive em um mundo hostil, persecutório, que mostrar afetos é coisa de frouxos, e que se deve ser individualista, que se deve ser bem-sucedido. São distúrbios mais próximos do narcisismo.

- E o mais tóxico de tudo é a ausência das relações de apego. O que chamamos de apego desorganizado. Maus-tratos, abusos, violência física, orfanatos rígidos. Essas crianças mostram patologias desde muito pequenas. São crianças com tendência psicopata, que torturam o gato, que maltratam outras crianças. Se não houver apego, não há empatia.

"Nós lutamos para trabalhar em comunidade e colocar a medicação em segundo plano. Fazemos isso junto com os movimentos de desmedicalização dos próprios pacientes"

- Nunca recomendo a um paciente apenas a medicação. A medicação, é importante deixar isso claro, se baseia em sintomas, não no diagnóstico de uma doença. Temos remédios para sintomas, mas eles não curam. Isso causa muita confusão. A coisa mais perigosa para uma pessoa doente é parar de tomar uma medicação subitamente.

- A maioria dos nossos pacientes vem com a família, com os pais, os irmãos, todos juntos. A Espanha é muito gregária. Nos Estados Unidos, não, lá eles vão sozinhos. Aqui, a luta dos familiares é por vontade de participar, porque a psiquiatria espanhola lhes dá muito pouco espaço. No início, os pacientes querem ficar sozinhos na consulta, a partir daí negociamos e tentamos mudar ideias preconcebidas sobre o que é pior ou melhor. Você os convence de que é mais eficaz estudar seus problemas em relação ao ambiente familiar.

- Quando um paciente aceita participar de um grupo de terapia com mais famílias é porque ele quer aprender. Você vê as mudanças que eles experimentam. Na vida se aprende muito através do outro. Muitos participantes não falam, mas você sabe que estão se transformando. Então eles te dizem: isso me serve muito, mesmo que eu não me atreva a falar. É que o cérebro aprende por imitação.

"Há pacientes que afirmam que não estão doentes, mas apresentam sintomas, porque na vida o importante é a funcionalidade: se você funciona, você não é um doente"

- Acreditamos que os doentes mentais são potencialmente perigosos porque são imprevisíveis e nos fazem estar alerta. Mas estatisticamente sabemos que esses pacientes têm uma taxa de criminalidade muito menor do que a população em geral. Os terroristas não são loucos, não. Na verdade, eles geralmente não são aceitos em grupos sectários desse tipo porque não confiam neles. Eles são provavelmente imaturos, inadaptados, mas não é loucura.

- Nós lutamos para trabalhar em comunidade e colocar a medicação em segundo plano. Fazemos isso junto com os movimentos de desmedicalização dos próprios pacientes, que afirmam que não estão doentes, mas apresentam sintomas, porque na vida o importante é a funcionalidade: se você funciona, você não é um doente. Mas nos alerta o enorme aumento da psiquiatria cosmética, promovida pela indústria, pela impaciência, mais por seu efeito de droga da felicidade. Queremos evitar insônias, fobias, medos e vamos ao mais fácil, mas essas dificuldades são mais bem tratadas com terapia. A medicação é um grande mal do nosso tempo. Aceitamos uma sociedade medicalizada para alcançar o máximo do nosso rendimento e acabamos sendo escravos. Precisamos de drogas, sempre foram necessárias, mas agora tentamos apagar qualquer contratempo.   

- O que nossa equipe pretende é ser flexível e criativa: fazemos um amálgama de tratamentos, misturando aspectos da psicanálise com terapias cognitivas pontuais; estudamos as necessidades sociais ou econômicas ou buscamos miniresidências quando a vida nas casas é tóxica. O básico é a psiquiatria comunitária, de bairro, na qual envolvemos a sociedade o máximo possível. Queremos sair dos lugares psiquiátricos, preferimos os centros primários de saúde mental ao hospital; gostaríamos de ter acesso a bibliotecas, associações de bairro... para mostrar que nossos pacientes estão melhor do que parece. Instamos as famílias e os pacientes a serem donos do seu tratamento e fazemos sugestões. Na Espanha, estamos muito atrasados na participação ativa do usuário porque o modelo de psiquiatra foi o “você se cala e eu vou te dizer o que fazer”. Não mais, nosso trabalho é artesanal, cada história leva a nos adaptar à necessidade do paciente. E não tivemos pressão da administração, por quê? Porque demonstramos que somos eficazes. Tenho a obrigação de cumprir objetivos de gerenciamento clínico e quem nos supervisiona vê que por paciente e por ano reduzimos a oitenta por cento as internações, diminuímos o consumo de medicamentos outros oitenta por cento, as licenças médicas de trabalho são mínimas, constata-se que não houve agressões, que não há recaídas. No final, sai mais barato e é mais eficiente.

"Nos alerta o enorme aumento da psiquiatria cosmética, promovida pela indústria, pela impaciência, mais por seu efeito de droga da felicidade"

- A psicose sempre se manteve como a doença mental por excelência, oscila sempre entre 1 e 2 por cento. Mas foram aumentando os transtornos de personalidade e hoje em dia ocupam uma faixa entre 4 e 5 por cento. Penso que tem a ver com o fato de criarmos nossos filhos de maneira insegura, com muito mais permissividade para o consumo de tóxicos e em situações muito caóticas que são pouco eficientes para que as crianças sejam autônomas. Há uma mudança muito abrupta da superproteção a de repente pedir a uma criança que seja legal, porque “é o que você me deve considerando o que fiz por você”. E aí os jovens não aguentam.

- Eu costumo desenhar um copo para as famílias para explicar os fatores que influenciam na doença mental: na base está o biológico, essa porcentagem que vem de uma herança genética; depois, a criação, se for feita de forma segura reduz a probabilidade de uma herança biológica e é um fator de resistência à adversidade; depois, a adolescência, quando a personalidade é forjada; mais acima, o consumo de tóxicos, que altera a bioquímica do cérebro e a maneira com que nos relacionamos com o mundo; por cima disso, os aspectos sociais, a pobreza, por exemplo, que é um fator de risco para a psicose, e depois, o trauma. A capacidade de superar um trauma está intimamente relacionada ao apego que tivemos. Se você perde seu pai, mas tem relações seguras que permitem dissolver o trauma, vai viver isso melhor. Finalmente, existe a forma como lidamos com o estresse diário. Um menino ou menina que não tiver bem resolvidos vários desses fatores, que estão inter-relacionados, pode desabar com um fracasso amoroso.

"Queremos sair dos lugares psiquiátricos, preferimos os centros primários de saúde mental ao hospital; gostaríamos de ter acesso a bibliotecas, associações de bairro... para mostrar que nossos pacientes estão melhor do que parece"

-  Os países pobres têm menos incidência de doença mental e convivem com ela de uma forma mais adaptativa, no entanto, os pobres ou os imigrantes de um país desenvolvido estão sujeitos a exigências cotidianas muito fortes que os deixam, sem dúvida, mais vulneráveis. Na doença mental tudo conta.

A conversa acaba sendo curta, porque, inevitavelmente, ouvindo o doutor Figuera acreditamos vislumbrar muitas chaves da relação que tivemos com nossos pais ou que temos hoje com nossos filhos.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

Gays e crianças como moeda eleitoral

Cena de interior II, da artista Adriana Varejão: obra estava exposta na mostra
'Queer Museum – Cartografia da Diferença na Arte' em Porto Alegre.
 Imagem: Divulgação.

Publicado originalmente no site do El País, em 18 SET 2017

Gays e crianças como moeda eleitoral

As milícias em benefício próprio descobriram como barganhar com a vida dos brasileiros e ganhar adeptos manipulando o medo e o ódio

Por Eliane Brum. 

O fechamento da mostra Queer Museum – Cartografia da Diferença na Arte Brasileira aponta a crescente articulação entre setores da política tradicional e milícias como o Movimento Brasil Livre (MBL). Essa articulação está desenhando o Brasil deste momento – e poderá ter muita influência na eleição de 2018. Nesta coligação não formalizada, velhas táticas ganham aparência de novidade pelo uso das redes sociais, com enorme eficiência de comunicação. É velho e novo ao mesmo tempo. A vítima maior não é a arte ou a liberdade de expressão, mas os mesmos de sempre: os mais frágeis, os primeiros a morrer.

A exposição era exibida desde 15 de agosto, em Porto Alegre, no Santander Cultural. Contava com obras de artistas brasileiros de diversas gerações, como Cândido Portinari, Alfredo Volpi, Ligia Clark, Leonilson e Adriana Varejão. É justamente de Varejão uma das obras mais atacadas: “Cenas do interior 2” tem quatro imagens de atos sexuais, incluindo sexo com um animal. Outra obra demonizada foi a de Bia Leite, que expôs desenhos baseados em frases e imagens do Tumblr “Criança Viada”, que reúne fotos enviadas por internautas deles mesmos na infância. Liderados por milícias como o MBL, pessoas começaram a ofender o público da mostra e a acusar os artistas de promover a “pedofilia”, a “zoofilia” e a “sensualização precoce de crianças”. As milícias também promoveram um boicote ao banco. O Santander recuou, e a exposição, que deveria se estender até outubro, foi encerrada.

O MBL, uma das milícias que lideraram os ataques à exposição, foi um dos principais articuladores das manifestações contra o PT e pelo impeachment de Dilma Rousseff, que levaram às ruas milhões de brasileiros vestidos de amarelo. Na ocasião, sua bandeira era a luta contra a “corrupção”. E propagavam ideias “liberais”. Como bem apontou Pablo Ortellado, em sua coluna na Folha de S. Paulo, o MBL descobriu que “as chamadas ‘guerras culturais’ eram um ótimo instrumento de mobilização e que por meio do discurso punitivista e contrário aos movimentos feminista, negro e LGBTT podiam atrair conservadores morais para a causa liberal”. Passaram então a gritar contra as cotas raciais, o aumento do encarceramento (num país em que a maioria dos presos é composta por negros) e um projeto que espertamente foi batizado de “Escola Sem Partido”.

Mas qual é o contexto e o que o MBL e outras milícias semelhantes defendem? Se este tipo de grupo se formou erguendo a bandeira da “anticorrupção” e não promove nenhuma manifestação nas ruas contra um presidente denunciado duas vezes e um dos governos mais corruptos da história do Brasil, é possível levantar a hipótese bastante óbvia de que a “corrupção” nunca foi o alvo.

Quando são citados na imprensa, MBL e assemelhados são tachados de “conservadores” e “liberais”. Isso os coloca sempre num polo contra outro polo, o que é essencial para este tipo de milícia sobreviver, se replicar e agir em rede. E dá a estas milícias uma consistência que não condiz com a realidade de seu conteúdo. Liberais de fato jamais tentariam fechar uma mostra de arte, para ficar apenas num exemplo. Nem faz sentido dizer que são “conservadores” ou mesmo de “direita”. Eles são o que lhes for conveniente ser.

A dificuldade de nomear o que são, é importante perceber, os favorece. E acabam se beneficiando de rótulos aos quais lhes interessa estar associados num momento ou outro e que lhes emprestam um conteúdo que não possuem, mas do qual sempre podem escapar quando lhes convêm. Neste sentido, apesar de exibirem como imagem um corpo compacto, essas milícias são fluidas. Embora ajam sobre os corpos, não há corpo algum. Isso lhes facilita se moverem, por exemplo, da luta anticorrupção para as bandeiras morais, agora que não lhes interessa mais derrubar o presidente.

A força de milícias como MBL é sua capacidade de influenciar tanto eleitores quando odiadores, num momento histórico em que estas duas identidades se confundem

O que se pode afirmar sobre milícias como o MBL é que elas têm um projeto de poder – ou têm um poder que pode servir a determinados projetos de poder. O poder destas milícias está em mostrar que são capazes de se comunicar com as massas e, portanto, de influenciar tanto eleitores quando odiadores, num momento histórico em que estas duas identidades se confundem. E este é um enorme poder, que claramente tem sido colocado a serviço de políticos e de partidos tradicionais. Além e principalmente, claro, de a serviço de seu próprio benefício.

A descoberta de que temas “morais” são uma excelente moeda de barganha não é prerrogativa do MBL e de seus assemelhados. Esta moeda sempre esteve em circulação. Na Nova República, que se seguiu à ditadura civil-militar (1964-1985), ela esteve na primeira eleição presidencial da redemocratização, quando Fernando Collor de Mello, que depois se tornaria o primeiro presidente a sofrer impeachment, usou fartamente contra Lula o fato de que ele tinha uma filha de uma relação anterior ao seu casamento com Marisa Letícia e que teria sugerido um aborto à então namorada.

Mas o marco fundador do que vivemos hoje pode ser localizado bem mais tarde, na eleição de 2010. Naquele momento, ao perceber o potencial eleitoral do crescimento dos evangélicos no Brasil, em especial dos neopentecostais, alguns oportunistas perceberam que jogar o tema do aborto no palanque poderia ser conveniente. Tanto para conquistar o voto religioso quanto para derrubar opositores.

No final do primeiro turno de 2010, a internet e as ruas foram tomadas por uma campanha anônima, na qual se afirmava que Dilma Rousseff era “abortista” e “assassina de fetos”. Rousseff começou a perder votos entre os evangélicos e parte dos bispos e padres católicos exortou os fiéis a não votar nela. José Serra (PSDB) empenhou-se em tirar proveito do ataque vindo das catacumbas, determinando o rumo da campanha dali em diante. E Rousseff correu a buscar o apoio de religiosos, acabando por escrever uma carta declarando-se “pessoalmente contra o aborto”. Nela, comprometia-se, em caso de vencer a eleição, a não propor nenhuma medida para alterar a legislação sobre o tema.

Quem peregrinou por templos evangélicos defendendo Rousseff e garantindo que ela era contra o aborto foi justamente Eduardo Cunha (PMDB), que depois lideraria o processo de impeachment da presidente eleita e hoje está preso. Naquele momento, o debate político, que nas eleições anteriores tinha se mantido dentro de certos parâmetros éticos, foi rebaixado. E os oportunistas religiosos e não religiosos farejaram que estes eram o temas com que poderiam garantir vantagens para si mesmos e para seus grupos, traficando-os no balcão de negócios de Brasília. Quando os limites são superados, mesmo aqueles que promoveram a sua superação não são capazes de prever até onde isso pode chegar. Desde então, o corpo de mulheres e de gays, lésbicas, travestis e transexuais tornou-se uma das principais moedas de barganha eleitoral.

As milícias rapidamente compreenderam esse potencial. Seu trunfo é comprovar que podem levar as massas para onde quiserem, o que as torna valiosas para políticos com grandes ambições eleitorais e valiosas para seus líderes com ambições eleitorais. Mas só podem levá-las porque se comunicam com uma população que se sente cada vez mais insegura e desamparada e que é a primeira a sofrer com a crise econômica e a crescente dureza dos dias sem saúde, sem escola, sem serviços básicos, enquanto assiste a um noticiário que é quase todo ele sobre malas de dinheiro da corrupção. Uma população que há anos tem sido treinada por programas policialescos/sensacionalistas na TV que atribuem todas as dificuldades a facínoras à solta, adestrando-a a ver as mazelas da vida cotidiana como culpa de alguém que pode e deve ser eliminado – e não a uma estrutura mais complexa que a mantém cimentada no lugar dos explorados.

As milícias encontraram o canal de comunicação com o medo e com o ódio de uma população acuada e, assim, o inimigo pode ser mudado conforme a conveniência

As milícias compreendem o potencial desse medo e desse ódio. E sabem se comunicar com esse medo e esse ódio. Encontraram o canal, o ponto a ser tocado. Encontrado o canal, o inimigo pode ser mudado conforme a conveniência. Se agora não interessa derrubar o presidente denunciado por corrupção, há que se encontrar um outro alvo para canalizar esse ódio e esse medo e manter o número de seguidores cativos e, de preferência, crescendo, atingindo públicos mais amplos. E, principalmente, manter o valor de mercado das milícias em alta, em especial às vésperas de uma campanha eleitoral das mais imprevisíveis.

Assim, testemunhamos um fenômeno de ilusão na semana passada. O problema do Brasil já não era a desigualdade nem a pobreza que voltou a crescer. Nem mesmo o desemprego. Nem a crescente violência no campo e nas periferias promovidas em grande parte pelas próprias forças de segurança do Estado a serviço de grupos no poder. Nem o desinvestimento na saúde e na educação. Nem a destruição da floresta amazônica e o ataque aos povos indígenas e quilombolas pelos chamados “ruralistas”. Nem projetos que mexem em direitos conquistados na área trabalhista e da previdência sendo levados adiante sem debate por um governo corrupto. Não.

De repente, na semana passada, o problema do Brasil tornou-se, para milhões de brasileiros, a certeza de que o país é dominado por pedófilos e defensores do sexo com animais. Agora, são artistas que devem ser perseguidos, presos e até, como se viu em algumas manifestações nas redes sociais, mortos. E não só artistas, mas também quadros e peças de teatro. O problema do Brasil é que pedófilos querem corromper as crianças e transgêneros querem destruir as famílias.

Assim como pouco antes o problema do Brasil era o fato de os negros, maioria da população, passarem a ter o acesso à universidade ampliado por ações afirmativas. E o problema do Brasil seria uma suposta doutrinação partidária nas escolas – e não a falta de investimento em educação e o salário de fome dos professores e as escolas caindo aos pedaços. Com esse truque de ilusionismo coletivo se desvia da necessidade de mudar algo muito mais estrutural em um dos países mais desiguais do mundo.

O prejuízo causado pelo ataque à exposição é menos a questão da liberdade de expressão e mais o apagamento dos massacres reais

O prejuízo causado pelo ataque à exposição de arte é menos a questão da censura e do cerceamento da liberdade de expressão, como foi colocado por parte dos que reagiram contra o fechamento da mostra, e mais o apagamento que ataques como este ajudam a produzir e a perpetuar. Como o número assombroso de homossexuais assassinados e de estupros de mulheres no país. Para lembrar: segundo o Grupo Gay da Bahia, que documenta a violência produzida por homofobia, só neste ano 251 pessoas foram assassinadas por sua orientação sexual. No ano passado, ocorreram 343 assassinatos. Os crimes por homofobia vêm crescendo: entre 2005 e 2014 foram 2181 homicídios e, apenas entre 2015 e 2017, já são 3093. Em 2014, metade dos casos registrados de transfobia letal no mundo ocorreu no Brasil. Este massacre, este que é real, este que se dá sobre os corpos de pessoas, este não produz nenhum protesto ou comoção.

A cada hora, no Brasil, cinco mulheres são estupradas. Isso significa que, enquanto você lê este texto, pelo menos uma mulher já sofreu ou está sofrendo um estupro. E isso são apenas os casos documentados. A estimativa, segundo estudo do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), é de que apenas 10% dos estupros são registrados pela polícia. Assim, o número verdadeiro seria de mais de meio milhão de estupros por ano no Brasil. Este massacre, este que é real, este que se dá sobre os corpos de pessoas, este não produz comoção no país.

Ao denunciar a arte e os artistas como “pedófilos”, o que se produz é o apagamento de um fato bastante incômodo: o de que a maioria das crianças violadas é violada por familiares e conhecidos

Ao denunciar a arte e os artistas como “pedófilos”, o que se produz é o apagamento de um fato bastante incômodo: o de que a maioria das crianças violadas é violada por familiares e conhecidos. Pelo menos um quarto dos casos de violação de crianças tem como autor pais e padrastos. Ocorre, portanto, naquilo que a bancada da Bíblia tenta vender como a única família possível, formada por um homem e por uma mulher.

Essa mesma estratégia faz com que a guerra contra as cotas raciais torne ainda mais invisível o horror concreto: o genocídio da juventude negra e pobre. E o “Escola Sem Partido” desloca o problema real, o desinvestimento na escola pública, justamente a que abriga os mais pobres, para um falso problema, a suposta doutrinação política. E assim, com os males reais sendo invisibilizados e apagados, tudo continua como está. E aqueles que gritam seguem cimentados na mesma posição na pirâmide social.

Para que as milícias sigam arregimentando odiadores é preciso que a compreensão do mundo seja cada vez mais literalizada, por isso é tão importante atingir a cultura, aquela que amplia as subjetividades

O fato de que as mais recentes ofensivas sejam contra a cultura não é um dado qualquer. É também por movimentos culturais surgidos nas periferias do país e apoiados por programas públicos, especialmente nas gestões de Gilberto Gil e de Juca Ferreira, que uma juventude politizada fortaleceu sua atuação. É também nas artes e na literatura que se encontra a maior possibilidade de ampliação das subjetividades. E é a subjetividade que nos ajuda a compreender o mundo em que vivemos para além do que nos é dado para ver.

E isso também não é um detalhe: para as milícias seguirem arregimentando eleitores e odiadores é preciso que a compreensão do mundo siga literalizada – ou seja, sem a possibilidade de recursos como metáforas, ironias e invenções de linguagem. Nesse ritmo, daqui a pouco, quando alguém disser coisas como “boca da noite”, um outro vai rebater com a afirmação de que “noite não tem boca”. É também isso que aconteceu quando muitos olharam para a exposição e só literalizaram o que viram lá, bloqueados em qualquer outra possibilidade de entrar em contato com seus próprios sentidos e realidades inconscientes.

Se os programas policialescos/sensacionalistas colaboraram para a compreensão unidimensional do Brasil, as novas igrejas evangélicas cumpriram o papel de literalizar a linguagem de parte dos brasileiros

Se os programas policialescos/sensacionalistas de TV desempenharam e desempenham um papel fundamental para a compreensão simplista do Brasil e dos problemas do Brasil, ao eleger um “culpado” individualizado, sem tocar em questões de desigualdade racial e social e questões de acesso a direitos básicos como a própria justiça, as igrejas evangélicas neopentecostais cumpriram e cumprem o papel de literalizar a linguagem. Há gerações sendo formadas na interpretação literal da Bíblia, para muitos o único livro que leem. O que milícias como MBL perceberam é a possibilidade de manipular essa mesma matéria-prima, arregimentando massas já bem treinadas em enxergar inimigos e literalizar a linguagem.

Há um ponto nesse episódio que é revelador de onde milícias como MBL querem chegar. É o ponto de encaixe. As milícias sempre vociferaram contra os “vândalos” e “desordeiros” que quebravam fachadas de bancos em protestos contrários à sua bandeira de ocasião. Desta vez, aparentemente investiram contra o Santander, um dos maiores bancos do mundo, ao pregar um boicote. Mas não era contra o Santander, e sim contra o fato de uma exposição que afirmaram ser de “apologia à pedofilia e à zoofilia” ter sido financiada por dinheiro de renúncia fiscal via lei Rouanet. O verdadeiro alvo do ataque é o investimento de dinheiro público em cultura. Se a lei Rouanet tem problemas e pode ser aprimorada, ela significou um investimento importante numa área sempre relegada e que tem sofrido enormemente no atual governo.

Neste ponto, vale a pena perceber quais são os candidatos que apoiam e são apoiados por milícias como o MBL. Em São Paulo, João Doria Jr (PSDB), o político cuja política é se dizer não político. Volta e meia são postadas nos sites das milícias as fotos de Doria serelepando pelo Brasil em seu jatinho particular. Nestes posts, é enaltecido o fato de que ele não gasta dinheiro público para se locomover “a serviço de São Paulo”.

Os milhares que apertam a tecla de “curtir” esse tipo de mensagem podem não perceber que se propagam ali duas ideias que prejudicam a maioria da população: 1) que só ricos podem ser eleitos; 2) que o investimento de dinheiro público é ruim para o Brasil, quando justamente é fundamental para combater a desigualdade e garantir o acesso a direitos básicos que se invista em saúde, educação e transporte público, entre outros temas prioritários. A ideia de que todo investimento público é suspeito ou será desviado para a corrupção é bastante conveniente para políticos e candidatos da política tradicional a serviço do mercado. Quanto menos o Estado atuar e investir em áreas estratégicas para a vida cotidiana e a qualificação da população, há mais espaço para negócios que só crescem pela sua ausência.

Outro exemplo é o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Jr, também do PSDB, notório apoiador e apoiado pelo MBL. A nota do Santander Brasil foi publicada na página oficial do prefeito, com a afirmação de que “a exposição mostrava imagens de pedofilia e zoofilia”. Horas depois, foi apagada. A milícia desempenhou um papel importante em sua vitória na última eleição. E é para a eleição de 2018 que o MBL vem ensaiando lances cada vez mais ousados, como o da exposição, que pode ter levado alguns de seus apoiadores e apoiados a um afastamento temporário. Mas o que importa é e sempre será o poder das milícias de influenciar eleitores/odiadores.

Um grita: “Pedófilo!”. O outro responde: “Nazista!”. O que muda?

De nada adianta chamar as pessoas que se manifestaram contra a mostra de “ignorantes”, “fascistas” e “nazistas”. É também preciso escutá-los para além do óbvio. E para além do que é dado a ver. Do contrário, aqueles que “entendem a arte” se colocam no melhor lugar para as milícias, o de um polo oposto que iguala a todos no patamar do rebaixamento e produz o apagamento das diferenças. Um grita: “Pedófilo!”. O outro responde: “Nazista!”. O que muda? Se estes são “os que entendem”, há que usar esse entendimento para não fazer o jogo das milícias.

Também não adianta gritar que as pessoas não compreendem o que é arte. Se parte significativa da população não teve e não tem acesso à arte é também porque os privilégios se mantêm intactos neste país graças a muita gente que entende de arte. E nada, muito menos a arte, deve estar protegida do debate. O ataque é abusivo. O debate é necessário.

Há diferenças entre as milícias que lideram os ataques e aqueles que elas conseguem arregimentar para os ataques: é essencial compreender essas diferenças e aprender a dialogar com elas

Há diferenças entre as milícias que lideram os ataques e aqueles que elas conseguem arregimentar para os ataques. É importante compreender essas diferenças e aprender a dialogar com elas. Durante a semana passada, por exemplo, evangélicos replicaram mensagens enviadas por seus pastores contra a mostra e a “apologia à pedofilia”. Mas algumas destas pessoas, com quem conversei, estavam replicando a mensagem ao mesmo tempo que participavam ativamente de debates públicos sobre direitos humanos e maior investimento no SUS. Estas, por exemplo, são pessoas com quem é possível conversar. E este é apenas um exemplo. É um erro confundir os líderes das milícias com aqueles que ocasionalmente lideram. Assim como é um erro colocar o complexo mundo evangélico brasileiro no mesmo escaninho.

A crise, como não custa repetir, é também de palavra. Ou principalmente de palavra. E o esvaziamento das palavras é algo poderoso. Como o “livre” do Movimento Brasil Livre (MBL). Ou como “Escola Sem Partido”, um projeto que toma vários partidos. Mas as palavras que os confrontam já se esvaziaram. Como “fascista”, que já pouco ou nada diz. E agora também “nazista” já se desidrata. Para uma parte significativa da população, os conceitos de “direita” e “esquerda” pouco significam. E “pedófilo” agora pode ser alguém que pintou um quadro. Assim como as gentes na internet vão virando fantasmagorias, as palavras também.

A literalização da linguagem é apenas uma das faces da crise da palavra. Os brasileiros sempre tiveram uma linguagem riquíssima, complexa, de invenção, povoada por subjetividades. Guimarães Rosa, um dos maiores ícones da literatura brasileira, bebeu nesta fonte – e não o contrário. Alguns dos melhores momentos da música brasileira foram paridos por essa inventividade ousada. É o teatro quem tem melhor dado conta do atual momento do Brasil.

É nesta resistência que é preciso apostar. E para isso é preciso investir muito no fortalecimento dos movimentos culturais. E é preciso fazer a disputa também ou principalmente pela linguagem. Quando tantos gritam “pedófilo” é preciso escutar e responder de forma que o diálogo seja possível. Quem ganha com o esvaziamento das palavras já sabemos. Quem perde nem sempre percebe que perde.

Aqueles que investem no terror sabem apenas como começa. Mas como ignoram a história e apostam na desmemória, não aprenderam uma lição básica: quando se manipula medos e ódios, o controle é apenas uma ilusão. Nunca se sabe até onde pode chegar nem como acaba.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Amsterdam Tem Museu Dedicado ao Sexo

Publicado originalmente no site da revista Playboy, em 28/08/17

Com Imagens Históricas, Amsterdam tem Museu Dedicado ao Sexo. 

Amsterdam, na Holanda, é uma cidade conhecida por ser bastante liberal. Além da maconha ser legalizada, também é permitido a prostituição, tendo inclusive uma rua na cidade dedicada a isso: a Red Light.

Entre os lugares pouco tradicionais para visitar, há o Sex Museum, templo de Vênus em Amsterdam. O museu foi aberto em 1985 e, no começo, contava apenas com pequenos objetos eróticos do século XIX, porém, como os primeiros visitantes ficaram muito fascinados, foi preciso expandir a coleção.

Estátua da Mata Hari no Museu do Sexo em Amsterdam. 
A personagem é conhecida na história por ser uma espiã 
e principalmente por usar da sensualidade para seduzir os homens
Foto: Daise Alves.

 Universo Retrô) Peça íntima feminina utilizada antigamente.
Foto: Daise Alves | Universo Retrô.

O slogan do museu é “Sexo é a coisa mais natural do mundo” e, com isso, deseja mostrar que o sexo sempre teve um importante papel na história e nas artes, além de querer fortalecer que a arte de amar tem sido transmitida de diferentes jeitos e formas durante séculos no mundo.
No museu é possível encontrar pinturas, fotografias, estátuas, vídeos e todo tipo de objeto dedicado ao tema, desde os primórdios da humanidade até os tempos atuais, passando por detalhes de diversos séculos,  como: a era antiga, elementos de castidade entre 1500 e 1600, artigos europeus entre 1700 e 1800, o erotismo na China antiga e detalhes das décadas entre os séculos XX e XXI, como as danças eróticas dos anos 20, as pin-ups dos anos 40 e a nudez dos anos 70.

Cartas de baralho com ilustração de pin-ups, detalhe para capa da Playboy de 1960.
Foto: Daise.

Imagens de pin-ups no Museu do Sexo.
Foto: Daise Alves | Universo Retrô.

O museu é bem visitado em Amsterdam e recebe turistas de diversas partes do mundo. Há aqueles que valorizam o local pelo seu valor histórico e também os visitantes que acham tudo uma grande curtição.

O museu tem recebido mais de 500 mil visitas por ano, fazendo com que ele seja um dos melhores museus de sexo do mundo. Cidades como Paris, Berlim e Copenhage também possuem um museu do sexo, porém ainda não alcançaram as mesmas proporções.

 Estátua da Marilyn Monroe no Museu.
Foto: Daise Alves | Universo Retrô.

Imagens eróticas vintage, comprovando que sempre existiu pornografia.
Foto: Daise Alves | Universo Retrô.

Para quem gosta de fugir dos trechos mais tradicionais, Amsterdam ainda possui outros museus mais exóticos, como: Museu da Prostituição, Museu Erótico e o Museu da Marijuana.

SERVIÇO
SEX MUSEUM AMSTERDAM
LOCAL: Damrak 18
1012 LH  Amsterdam
Próximo à Estação Central de Amsterdam
ENTRADA: 4 Euros
ABERTO: das 9h30 até às 23h30
IDADE MÍNIMA: 16 anos

Texto e imagens reproduzidos do site: playboy.com.br

Caso Queermuseu - 'Quanto mais falarmos, melhor'


Publicado originalmente no site Página B em, 15/09/2017.

'Quanto mais falarmos, melhor'

O caso Santander acende sinal de alerta e nos traz um questionamento: qual tipo de sociedade queremos?

Por Maria Hirszman. 

Passados alguns dias do encerramento precipitado da exposição "Queermuseu: Cartografias da diferença na arte brasileira”, em Porto Alegre, torna-se necessário tirar algumas conclusões sobre esse traumático processo e aproveitar esse raro momento de indignação no meio cultural para iluminar problemas e fomentar o debate numa sociedade tão avessa ao diálogo como o Brasil atual. Dentre os diversos sintomas de mal-estar revelados por essa crise estão o divórcio entre público e o meio artístico, a falta de transparência na gestão cultural e a transformação de questões densas como a investigação poética acerca do universo queer em um mero efeito propagandístico.

Como já foi noticiado à exaustão, a mostra – que deveria ficar em cartaz até o próximo dia 8 de outubro – foi encerrada às pressas pelo Santander Cultural depois de uma forte e intempestiva pressão por parte de movimentos conservadores, liderados pelo MBL. Assédio contra funcionários e visitantes, pressão via mídias sociais e internet, ameaça de boicote ao banco e inclusive pichações em agência bancária nas proximidades do espaço cultural foram as armas usadas para conseguir rapidamente e sem contra-argumentação o encerramento imediato da exposição, acusada de promover a zoofilia, pedofilia e blasfêmia.

A análise fria das quase 270 obras, de mais de 80 autores diferentes, evidencia o exagero nas acusações. Uma dupla de promotores chegou a visitar a mostra em busca de indícios criminais e constatou apenas a presença de algumas poucas obras de cunho sexual e nenhuma contravenção legal. Da mesma maneira, dezenas de textos publicados por especialistas, na mídia ou veiculados nas redes sociais, mostram a falta de fundamento da ideia de "Queermuseu” como uma manifestação desrespeitosa. As obras em questão inserem-se na larga tradição de representação mais explícita da atividade sexual – presente desde sempre em diversas culturas. Os comentários – afora alguns conselhos cautelosos de uso de sinalização de faixa etária e eventual separação de obras mais polêmicas em recinto à parte – são unânimes em alertar para os riscos crescentes de uma política repressiva em relação às artes e a à cultura em geral.

Não chega a ser surpresa que um público mal informado – e mal formado – reaja intempestivamente contra aquilo que desconhece e que estranha. A leitura de imagens não pode ser feita de forma rasa ou literal e exige treino para perceber sutilezas ao invés de obviedades. Assim como não se pode considerar piromaníaco o artista que pinta um incêndio ou um defensor da prostituição quem retrata cenas de mulheres nos cabarés.

É indiscutível, por exemplo, que o incômodo causado pelas obras deriva de uma leitura superficial, preconceituosa e autoritária das imagens. Trabalhos como “Cruzando Jesus Cristo com Deusa Shiva”, de Fernando Basil, é na verdade uma fusão irônica entre as culturas católica e hindu, permeada por símbolos da cultura de massas – como que a reforçar o caráter idólatra, tanto do mercado como das religiões – ou até mesmo "Et Verbum”, de Antonio Obá (a mais agressiva das obras ao associar palavras como vulva e língua à hóstia) não podem ser considerados ofensivos num país que se diz laico.

"Travesti da Lambada e deusa das águas”, de Bia Leite, vista como uma apologia à pedofília, nada mais é do que uma forma de denunciar o sofrimento de crianças que não se encaixam no padrão dominante de sexualidade. E as cenas de sexo retratadas por Adriana Varejão em "cenas do Interior II” estão muito longe de ser uma "defesa” da zoofilia, como dizem seus detratores. Na verdade, ao parodiar, recontextualizar criticamente, referências diversas de um vasto repertório visual, que inclui desde a arte chinesa até elementos tirados da iconografia do período colonial, ela revela o que há de oculto e perverso nos sistemas de dominação de cor, raça ou gênero. Talvez seja exatamente aí, na denúncia de um sistema de opressão que se quer perpetuar, que resida o profundo incômodo que seu trabalho acabara por gerar. Por isso, como diz a própria artista, quanto mais falarmos sobre isso, melhor”.

No entanto, o mais espantoso nesta história é a virulência do movimento repressivo e sobretudo a rapidez com que a instituição responsável reagiu. Na tentativa de apagar o incêndio, jogaram mais lenha na fogueira. Julgando eliminar a fonte de conflito, ela no fundo referendou o processo repressivo, se alinhou a uma série de movimentos similares ocorridos no país e no exterior (como exemplos podemos citar a tentativa de criminalização de exposições como as de Robert Maplethorpe (EUA), a coletiva “Erótica" (outro tema sensível para mentes conservadoras) ou as mostras de Nelson Leirner e Nan Goldin (Brasil)).

Quanto mais fica evidente a necessidade de diálogo entre os diferentes atores do campo artístico, mais longínquo ele parece estar. Foram muitas as provas de uma incapacidade crescente de escuta entre os diversos atores. Talvez o aspecto mais evidente deste fenômeno tenha sido a falta de comunicação interna entre os diversos agentes, com farpas sendo lançadas de todos os lados. O curador Gaudêncio Fidelis deixou absolutamente público seu repúdio à atitude do Santander Cultural, disse que tinha sido informado do fechamento da exposição pelo Facebook, enquanto o empresário Justo Werlang – colecionador, membro da atual direção da Bienal de São Paulo e figura proeminente do sistema de artes gaúcho – acusou-o de estar aproveitando o escândalo para propagandear-se às custas da instituição. O conflito explicita que o problema não está nem nas obras nem na reação do público, mas sim numa profunda divergência entre os diversos atores sobre o tipo de sociedade que queremos.

Em meio a este tiroteio de declarações, paira uma questão essencial neste (não) debate: o modelo de financiamento do sistema de artes no Brasil. É mais do que urgente rever este modelo, mas não se pode atribuir a ele a responsabilidade plena por crises como a de “Queermuseu”, nem tampouco resolve a saída proposta pelo Santander de devolver os mais de R$ 800 mil que havia captado através do sistema de renúncia fiscal. Afinal, num sistema em que o critério de seleção é mercadológico e marcado pelo compadrio, o mecenato fica – como estamos vendo – sujeito à pressão de grupos, extremistas ou não, que mobilizam arbitrariamente a opinião pública.

Uma reflexão acerca de um problema candente como o da "diferença na arte brasileira", com ênfase sobre a questão de gênero, mas não de forma exclusiva, acabou sendo tratada de fora leviana. Em exposições de tamanho alcance, a crítica é mais do que bem-vinda. E foram raríssimas as exceções que seguiram este caminho, como a reflexão de Francisco Hurtz acerca da arte queer e dos equívocos da mostra que empresta este nome. Que falta faz uma resenha da exposição, uma análise das intenções e alcances do projeto por parte dos poucos que tiveram a oportunidade de visitá-la antes que suas portas fossem fechadas. Aparentemente, em todo esse debate, o caráter propriamente reflexivo e poético da exposição não foi levado em conta e nem tampouco a contribuição das obras selecionadas para alimentar a reflexão conjunta.

Texto e imagem reproduzidos do site: paginab.com.br

"A Lolita do romance é vítima do abuso cometido por seu padrasto"

Em 'Lolita', de Vladimir Nabokov, Dolores ("Lo", "Lolita") 
sofre um abuso de seu padrasto.
Foto: Divulgação.

Publicado originalmente no site da revista GALILEU, em 10/06/2016.

"A Lolita do romance é vítima do abuso cometido por seu padrasto"

Pesquisadora explica como livro de Vladimir Nabokov contribuiu para espalhar mitos sobre a sexualidade de meninas

Por Isabela Moreira* 

Lolita, ninfeta, novinha. Você provavelmente já ouviu uma dessas palavras sendo utilizadas para descrever meninas jovens. Segundo o dicionário, a ninfeta é uma "menina jovem ou adolescente cujo comportamento e pensamento estão direcionados para o sexo; menina que incita o desejo sexual".

De acordo com a pesquisadora americana Meenakshi Gigi Durham, da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, a crença descrita acima é apenas uma das várias que são espalhadas a respeito da sexualidade de meninas e adolescentes. No livro The Lolita Effect: The Media Sexualization of Young Girls and What We Can Do About It (Efeito Lolita: A Sexualização de Jovens Garotas e o que Podemos Fazer Sobre Isso, em tradução livre), publicado em 2008, Durham abordou tais mitos e como eles afetam as meninas.

Conversamos com a pesquisadora sobre a sexualização precoce, o Efeito Lolita e suas consequências, veja abaixo:

O que é o Efeito Lolita?

O Efeito Lolita se refere a uma série de mitos sobre a sexualidade das meninas que circula na mídia e na nossa cultura. A “Lolita” do título é uma referência clara ao romance famoso de Vladimir Nabokov em que uma menina de 12 anos se torna sexualmente envolvida com seu padrasto. No livro a menina é vista pelos olhos do predador como uma sedutora que está disposta a participar de atos sexuais, que é como predadores sempre vêem as vítimas infantis, e, claro, é um mito sobre o qual eles sonham a ponto de usá-lo para justificar suas ações. Mas claro que a criança nunca é a culpada. A Lolita no romance é, na verdade, a vítima do abuso cometido por seu padrasto. Existe muita conversa sobre garotas que usam roupas sensuais e se engajam em atividades sexuais desde muito novas, e o discurso tende a culpar as meninas por tudo isso. Mas elas simplesmente estão reagindo a um marketing e uma mídia agressivos que empurram na direção delas mitos de sexualização motivados em vez de ajudá-las a entender os próprios corpos e sexualidade em desenvolvimento de formas apropriadas e corretas.

Como podemos criar representações mais complexas de meninas na mídia?
Honestamente, é bem difícil, porque existem indústrias que dependem das aspirações das meninas a modelos nada realistas de beleza e desejabilidade para que elas gastem bastante dinheiro em produtos de beleza, dietas e por ai vai. A publicidade voltada para meninas novas é uma indústria multibilionária que entraria em colapso se as meninas tivessem uma imagem forte delas mesmas. Podemos tentar apoiar os tipos de mídias que oferecem uma gama de imagens e opções relacionadas a gênero e sexualidade. Mas é difícil encontrá-las.

Seu livro foi publicado há oito anos. O que mudou desde então?

Não muito, na minha opinião. Na verdade, a sexualização de garotas tornou-se algo visto como normal. E não estamos observando muito progresso no que diz respeito à saúde e segurança sexual. O número de crianças e adolescentes com distúrbios alimentares está aumentando, pelo menos nos Estados Unidos. Garotas adolescentes correm mais risco de sofrerem violência sexual do que qualquer outro grupo. Adolescentes registram altos índices de doenças sexualmente transmissíveis. Apesar de os índices de gravidez estarem caindo ao redor do mundo, nos Estados Unidos os índices são bem altos quando comparado a outros países industrializados. Não posso afirmar que estamos progredindo muito. Por outro lado, acredito que há mais conscientização em torno da agressão sexual e a necessidade de desafiarmos os padrões de gênero.

Você vê o feminismo como uma ferramenta importante na luta contra a sexualização precoce de meninas?

Eu sou feminista, então minha resposta é sim. O foco feminista em impedir que casos de violência sexual e doméstica, em desafiar os padrões tradicionais de gênero, na busca pela igualdade, em reconhecer as intersecções de raça, classe, gênero e orientação sexual… Esse tipo de ativismo coletivo é ótimo e está fazendo muito diferença. Claro, também é importante ressaltar que existem vários feminismos na sociedade contemporânea, e nem todos se alinham à forma que abordo essas questões. Mas é bom trabalhar nas nossas diferenças e alcançar clareza sobre como melhor apoiar e empoderar mulheres e meninas.

Leia mais sobre o assunto na edição de junho (#299) da GALILEU.

*Com edição de Cristine Kist

Texto e imagem reproduzidos do site: revistagalileu.globo.com