sexta-feira, 21 de julho de 2017

A ativista e jornalista Patrícia Galvão, a Pagu

A ativista e jornalista Patrícia Galvão, a Pagu

As marcas e o legado do “furacão jornalístico” que foi Patrícia Galvão, a lendária Pagu

Por Vanessa Gonçalves.
     
Fama de porra louca, tudo bem!", o verso da música “Pagu, de Rita Lee, provavelmente representa o quanto a jornalista Patrícia Galvão não dava importância para os comentários sobre seu pioneirismo em diversas atividades: política, jornalismo, escritora, crítica literária, feminismo entre tantas outras.

Porém, isso não apaga o fato de que, no início do século XX, Pagu ousou deixar o espaço privado, local reservado ao público feminino, para mostrar que a rua também pertencia às mulheres.

Com apenas 15 anos passou a colaborar com o Brás Jornal, um veículo do bairro onde morava. No entanto, Patrícia passou a ter destaque no cenário cultural brasileiro três anos depois, em 1928, “quando conhece o poeta Raul Bopp, que a apresenta a Oswald de Andrade e aos intelectuais do Modernismo”, afirma Lúcia Maria Teixeira, biógrafa da jornalista.

Segundo a escritora, “Patrícia se destacava pela ousadia, exuberância e beleza, participando do Movimento Antropofágico, do qual até se tornou musa e colaboradora”.

  

Com uma vida recheada de “escândalos” para a época, Patrícia Galvão deu de ombros às críticas, assumiu o romance com o escritor modernista Oswald de Andrade e mergulhou fundo na luta política, tornando a primeira mulher presa política no Brasil. Como destaca a professora Maria Lygia Quartim, “Pagu foi uma figura ímpar, corajosa. Pagou um preço muito alto pela coragem de ter sido comunista sob a ditadura de Getúlio Vargas. E, principalmente por ser uma transgressora”.

Mergulho político e jornalístico.

A carreira jornalística de Pagu ganhou força após sua união a Oswald, quando juntos lançam o jornal "O Homem do Povo", que após oito números acabou fechado pela polícia e empastelado por estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Lúcia Maria Teixeira destaca que neste veículo Pagu “já questionava a atuação das mulheres na sociedade, por meio das histórias em quadrinhos e na coluna ‘Mulher do Povo’”.

Também é neste período que Patrícia publica seu primeiro livro. Em “Parque industrial”, lançado em 1933, ela passa a ser alvo de críticas, pois a obra considerada como panfletária, é carregada de um texto inovador, quase “cinematográfico”.

De acordo com Maria Lygia, “coerente com suas heroínas proletárias”, Pagu se filia ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e passa a atuar na imprensa ligada ao “Partidão”, chegando inclusive a morar numa vila operária.

Embora tivesse um filho pequeno, fruto de seu casamento com Oswald de Andrande, Patrícia Galvão se joga de cabeça na militância política e sai viajando pelo mundo como correspondente de jornais do Rio e de São Paulo.

Nessas viagens visita China, União Soviética e França. Ao chegar em Paris, ingressa no Partido Comunista Francês e passa a militar sob a identidade de Leonnie. Acabou sendo presa e repatriada para o Brasil.

O contato com o jornalismo produzido no exterior influenciou bastante Pagu em sua produção para a imprensa brasileira. Segundo Lúcia Maria, “vários textos refletem essa riqueza de experiências de uma mulher que deu a volta ao mundo sozinha, fato pouco comum na época”.
Crédito:Reprodução

Patrícia Galvão, a Pagu

“Durante sua volta ao mundo, Patrícia registrou as experiências, embora o partido não permitisse sua atividade”, diz a biógrafa. Entretanto, a personalidade pronta para derrubar tabus não deixou por menos, peitou o Partidão e colocou o bloquinho para funcionar. “Em Hollywood, ela entrevistou diversas personalidades, como os atores Mirian Hopinks e George Hafl, e em uma viagem de navio para China, até Sigmund Freud foi um de seus entrevistados”, revela a escritora.

Já separada do escritor modernista, participou ativamente do Levante Comunista de 1935 e acaba sendo detida, torturada e condenada a dois anos de prisão. Como primeira presa política no Brasil, “amargou no cárcere o status de inimiga pública do presidente Getúlio Vargas”, garante sua biógrafa.

No entanto, o período no presídio ofereceu elementos que fortaleceram o trabalho de Pagu como jornalista posteriormente. “Essa foi a primeira de suas 23 prisões. Essa e outras experiências a marcaram profundamente e se refletiram em suas obras”, afirma  Lúcia Maria Teixeira.

Pioneirismo ao estilo Pagu

Multifacetada, Patrícia Galvão é figurinha carimbada de importantes momentos políticos, culturais e sociais do Brasil entre 1910 a 1962. É inegável sua busca pela vanguarda em todos os setores onde atuou, especialmente no jornalismo e na literatura.

Num período em que jornalistas não precisavam ser especializados em tudo, Pagu já abordava em suas colunas questões da área cultural, política e da narrativa de fatos do cotidiano, passando por esses temas como grande desenvoltura. “Grande parte da obra de Pagu exige do pesquisador uma leitura dedicada e ampla, além, é claro, da atemporalidade dos textos. Como sempre esteve à frente de seu tempo, Pagu é moderna e pós-moderna nas suas críticas e expressões sobre o cotidiano social e no que trouxe ao público brasileiro de autores estrangeiros de literatura e teatro, através de suas colunas”, ressalta sua biógrafa.

Como crítica literária espantava por falar com propriedade sobre autores desconhecidos no Brasil e até no restante no mundo, sem contar seu papel como incentivadora cultural, apoiando o teatro amador.

Para as estudiosas sobre a vida e a obra de Patrícia Galvão, “Pagu foi hostilizada e teve de suportar a solidao daquelas que estao muito à frente de seu tempo”. “Ela abriu caminho em várias áreas, inclusive no jornalismo. Se fosse viva, é claro que lutaria pelos direitos das jornalistas”, acredita Maria Lygia.

Lúcia Maria Teixeira conclui analisando o papel e a importância de Patrícia Galvão para o jornalismo brasileiro. “No jornalismo cultural, trouxe autores ligados à inovação e ruptura, incentivou o surgimento de talentos na literatura, no teatro, na arte. Em todos os momentos, foi jornalista, na acepção da palavra, procurando registrar a atmosfera de sua época, antecipar e trazer para o Brasil as tendências e discussões ligadas à aventura do existir”.

Texto e imagens reproduzidos do site: portalimprensa.com.br

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Linda Brasil e a militância transfeminista




Fotos: Jéssica Dias.

Publicado originalmente no site VIP Comunica Conecta, em 9 de março de 2017.

Linda Brasil e a militância transfeminista.
Por José Rivaldo Soares, da equipe Vip.

Na sequência de mulheres inspiradoras no mês de março, o portal Vip traz a história de Linda Brasil.

Ela é uma mulher trans, tem 43 anos de idade e está concluindo o curso de Letras pela Universidade Federal de Sergipe.  Além disso, Linda dedica parte do seu tempo ao ativismo LGBT e transfeminista.

Linda relembra que a sua militância começou quando ingressou na Universidade Federal de Sergipe, em 2013. Foi lá que ela despertou para a necessidade de se mobilizar e fazer algo a favor dos direitos das pessoas trans. No primeiro dia de aula, Linda teve o seu direito a ser chamada pelo nome social negado por um professor. Naquele momento, percebeu que, se no ambiente acadêmico o preconceito ainda era tão forte, algo necessitava ser feito. Ela foi a primeira aluna a requerer o uso do nome social na instituição.

A entrada na UFS foi um divisor de águas em sua vida. “Por tanta invisibilidade, por tanta marginalização, por tanto estereótipo, para mim, a entrada na universidade foi o que me deu conscientização da importância da luta a favor das pessoas trans. Foi lá que eu comecei a ter acesso a certos dados e estatísticas”, relembra.

Com o empoderamento feminino, Linda iniciou a luta para o respeito da dignidade das pessoas transexuais. “São muitas formas de opressão em relação às pessoas trans: 90% estão, compulsoriamente, na prostituição, a expectativa de vida é de 35 anos. Somos o país que mais mata pessoas LGBT. Todos esses fatores fez com que eu entrasse de cabeça nessa luta”, pontua.

Segundo Linda, aqui no nordeste, devido ao machismo, a transfobia é mais potencializada. Mas o movimento conta com uma ferramenta importante nas mãos: a internet. “As redes sociais estão contribuindo muito para a interação com outras pessoas que estão na luta. Isso acaba reduzindo essa diferença de conhecimentos e de marginalização, porque acaba tendo acesso a informação. Isso fortalece a nossa luta”, argumenta.

Linda analisa que nos últimos tempos vive-se uma dualidade entre o aumento da violência contra as pessoas transexuais e o aumento das oportunidades e espaços ocupados por elas.  “As formas de violência contra as pessoas trans estão aumentando, mas em contrapartida algumas pessoas trans estão tendo oportunidade de entrar na universidade, algumas estão assumindo sua identidade trans pelo fato de terem conhecimento melhor sobre a identidade trans, que sempre foi marginalizada”, enumera.

Linda diz ainda que o sentimento é dúbio. “Fico triste porque poucas pessoas trans estão ocupando espaços e feliz porque, aos poucos, estamos conseguindo reverter esse cenário”, finaliza.

Texto e imagens reproduzidos do site: comunicacaovip.com.br

terça-feira, 18 de julho de 2017

Avanço da tecnologia traz novas possibilidades para relações sexuais

Sexo com robôs é cada vez mais debatido entre cientistas.
Crédito: ShutterStock.

Publicado originalmente no site da revista ISTOÉ, em 18.07.17.

Avanço da tecnologia traz novas possibilidades para relações sexuais.

Depois dos aplicativos de relacionamento, novos produtos sexuais como robôs e “brinquedinhos” por controle remoto e até vibradores líquidos chegaram para transformar a forma como as pessoas se relacionam sexualmente

Por Alan Rodrigues

Passados 60 anos da invenção da pílula anticoncepcional, o mundo passa por uma nova fase no campo da sexualidade. E, entre outros fatores, esta fase está diretamente ligada à maior igualdade entre homens e mulheres. “Quando falamos de sexualidade, agora, falamos de prazer, de orgasmo”, avalia a jornalista e sexóloga Nathália Ziemkiewicz. “O poder deixa de estar nas mãos dos homens e passa a ser compartilhado”, argumenta.

Criadora do “Pimentaria”, um site que trata de sexualidade de uma forma descontraída, Nathália defende que o orgasmo existe não somente como função reprodutiva, mas como uma maneira de o corpo regular a tensão e atingir a liberação emocional.

Contudo, a sexóloga adverte que, ainda hoje, apesar dos avanços sociais e da ciência, falar sobre relacionamento sexual é tabu. “O tema ainda está muito ligado à procriação, à intimidade dos lares e dos esposos”, diz. Para ela, o diálogo muitas vezes tenso de pais com filhos sobre sexualidade será atropelado pelo apelo público sobre o assunto, e pelo consumo em massa de conteúdos relacionados a sexo disponíveis na internet.

Sexo com robôs

Na mesma direção de evolução da sexualidade mencionada por Nathália, alguns cientistas sociais avaliam que, até 2050, as pessoas estarão fazendo mais sexo com robôs do que com seres humanos. O futurologista Ian Pearson acredita que teremos aplicativos e ‘sex toys’ ligados diretamente ao sistema nervoso. “Você poderá conectar suas sensações sexuais a outras pessoas e estimular orgasmos diretamente pelo toque de um ícone”, avalia Pearson.

“Parece tão absurdo quanto nos dissessem, em 1980, que um dia conversaríamos por um telefone de bolso e sem fio olhando o rosto de quem está do outro lado. Hoje temos aplicativos como Skype, Facetime e WhatsApp no celular. A realidade de se transar com robô não tem volta”, aposta Nathália Ziemkiewicz.

Bonecas hiperrealistas já estão à venda há alguns anos, mas Nathália acredita que essas novas máquinas projetadas para o prazer serão muito mais comuns, acessíveis, customizadas, interativas e incrivelmente sofisticadas. Atualmente há até bonecas sexuais que falam na hora do sexo.

Alguns futurólogos apostam ainda que, daqui a vinte anos, a maioria dos casais vai usar a realidade virtual para experimentar opções sexuais diferentes e até mudar a aparência do parceiro. “Sexo e prazer sempre foram fundamentais para a raça humana e não vão deixar de existir”, diz Pearson em seu site. Para o cientista, “a realidade virtual e a inteligência artificial podem transformar oportunidades e explorar desejos”, afirma.

Estudos mapeiam vida sexual do brasileiro

Enquanto os “sexbots”, como foram batizados os robôs feitos para serem parceiros sexuais dos humanos, não chegam ao Brasil, especialistas sobre o tema andam preocupados com a sexualidade dos seres de carne e osso. Pesquisa realizada pelo Durex Global Sex Survey, há três anos, a pedido da marca de preservativos Durex, mostra que 79% da população sexualmente ativa do País está insatisfeita com o cotidiano sexual.

A sensual coach Fátima Moura, uma das primeiras em sua área no Brasil e autora de vários livros ligados à sedução, concorda com o estudo. “A vida dos brasileiros na cama tá muito meia-boca”, avalia. Os números, aliás, mostram que esse descontentamento atinge igualmente homens e mulheres. O levantamento mostra, por exemplo, que 62% dos homens relatam dificuldades em manter a ereção e apenas 1% das mulheres conseguem chegar ao orgasmo sempre que tem relações sexuais.

Um raio-x da pesquisa da Durex mostra que o problema principal da vida sexual dos brasileiros é a falta de comunicação entre os parceiros. “Situações que poderiam ser facilmente resolvidas acabam se tornando uma batalha”, afirma Fátima. “As pessoas têm que considerar que sexo não é apenas uma necessidade orgânica, mas também emocional”, avalia. Fátima também dá uma dica: “Antes de pensar em algo novo, conversem sobre fantasias sexuais, aprofunde-se em conhecer o que querem”.

Outro estudo, realizado pelo Instituto do Casal, organização paulistana dedicada a estudos no campo da sexualidade, constatou que 56% dos brasileiros casados estão insatisfeitos com as transas. “As relações, com o tempo, perdem o tempero e ficam chatas”, avalia Fátima. “No entanto, não faça a louca e vá aparecer toda fantasiada de mulher gato, de uma hora para a outra. É impossível não rir”, aconselha.

Mulheres têm medo de serem julgadas

Estudiosa do tema, a empresária do ramo de sexo erótico Lenir Pereira, pós graduada em sexualidade, alerta para um dos fatos que atrapalham e reprimem a liberdade feminina entre quatro paredes. “Percebemos que as mulheres consideram os parceiros ‘quadrados’ ou ‘moralistas’, inibindo as parceiras de falarem sobre seus desejos e de realizarem seus fetiches”, aponta.

A empresária Paula Aguiar, presidente da Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual (Abeme), faz coro com Lenir e complementa que “mesmo numa relação estável e duradoura, as mulheres ainda sentem medo de serem julgadas pelos parceiros”. A verdade é uma só, destaca Paula: “Enquanto 52% dos homens disseram que sempre atingem o orgasmo em suas relações sexuais, somente 22% delas deram a mesma resposta”, observa.

Sexo faz parte de relação saudável

Uma relação sexual saudável,  de acordo com todas as entrevistadas, nada mais é do que a troca mútua de carinho. “Não se nasce sabendo como fazer um bom sexo, aprende-se: falando, mostrando, tocando-se e principalmente buscando ou trocando informações”, afirma Lenir. “As pessoas devem estimular o nosso maior órgão sexual, que é a imaginação!”, brinca.

Lenir foi casada por 28 anos, tem dois filhos e era infeliz no relacionamento. “Tinha uma grande dificuldade de ter orgasmo”, recorda-se. Sem clima em casa, ela começou a conversar com as amigas sobre a sexualidade. “Identifiquei que muitas mulheres tinham os mesmos problemas que o meu, tinham vergonha de conversar e de até procurar uma ajuda externa”, diz. “Foi isso que me inspirou a ganhar dinheiro com produtos eróticos”, recorda Lenir.

Sacoleiras do sexo

O ambiente na casa de Lenir não melhorou, ela se separou e hoje faz parte de um grupo de 80 mil consultores sexuais que vendem produtos eróticos de porta em porta. “Estima-se que daqui a dez anos, as sacoleiras do sexo cheguem a 400 mil pessoas”, afirma Paula Aguiar, da Abeme.

Lenir comemora a nova fonte de renda. “Deu muito certo. Estou ajudando muitos casamentos”. Ela circula pelas ruas da capital paulista com uma mala escrita “Vendedora de felicidades”.

“As sacoleiras do sexo estão ajudando muitos casais a sairem da crise”, afirma Mirna Zelioli, gerente da Lovetoys, uma sexy shop na capital paulista.

Para ela, a importância das consultoras – que trabalham como revendedoras da Avon, mas vendem produtos eróticos – está sendo em mudar os pensamentos dos homens sobre o assunto.

A terceira onda erótica

“Como qualquer exercício físico nosso corpo depois de certo tempo se acostuma com aquele basiquinho de sempre e nos deixa com vontade zero na maior parte dos dias do mês”, comenta Paula Aguiar, que vai além: “Aí, entram os novos apetrechos para apimentar as relações”.

A presidenta da Abeme afirma que o Brasil está vivendo “a terceira onda erótica”. Explica-se: na década de 1980, o sucesso eram as cabines de masturbação para homens, depois ganhou força a expansão das franquias de sex-shop, somando mais de 12 mil lojas em todo território nacional. Hoje os brasileiros estão na onda dos sex toys, os brinquedos eróticos, comprados via internet.

Essas transformações, de acordo com Paula, podem ser medidas pelo crescimento do setor na economia nacional. “Em plena crise, crescemos 18,5% em 2016, contra 8,5% há três anos”, afirma Paula. 68% dos consumidores são mulheres. Hoje são mais de 50 grandes empresas fabricantes de produtos eróticos no País, que geram mais de 125 mil empregos. A maior fábrica do Brasil, a Hot Flowers, produz cerca de 3,5 milhões de itens por mês.

Clubes sensuais ganham popularidade

A mudança de comportamento tem muito a ver com as transformações radicais dos produtos eróticos, das arrojadas decorações das lojas e em novas formas de comercialização dos produtos. Além da venda de porta em porta, uma inovação no mercado são os clubes de assinatura sensuais. Seguindo a tendência do mercado de vinhos e produtos de beleza, as empresas do mercado erótico estão apostando nessa área para atrair os casais.

Todo mês, os inscritos nos Clubes Sensuais recebem pelo correio kits com brinquedos, acessórios, cosméticos e outros itens picantes. “É muito sigiloso. Tudo vem em uma caixa discreta e não entrega o conteúdo da encomenda”, afirma a sexóloga Nathália. “Tem um atendimento exclusivo pelo perfil do cliente, como os evangélicos”, diz ela, que garante. “Se você é tímida ou simplesmente não sabe o que levar de uma sex-shop ou até de entrar nas lojas, conta agora com essa alternativa para esquentar o clima a dois”, diz.

Paula Aguiar, da Abeme, afirma que, além da comodidade e da discrição, o serviço tem a vantagem de entregar produtos selecionados por um preço mais em conta e em todo Brasil. “Os assinantes também ficam na expectativa de descobrir o que virá no kit – e de, regularmente, contar com novidades para testar no sexo. Como nos Clubes de Vinho”, conta Paula.

Texto e imagem reproduzidos do site: istoe.com.br

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Nada é capaz de provocar mais inveja do que a felicidade


Nada é capaz de provocar mais inveja do que a felicidade.

Por Marcel Camargo.

Muitas pessoas querem que você esteja bem, mas nunca melhor do que elas...

O ser humano tem certas peculiaridades que ninguém explica direito, sendo uma delas o gostinho de inveja que não poucos sentem, mesmo que bem lá no fundo, quando veem o sucesso de alguém. Por mais que neguemos, não costuma ser tranquilo assistir às pessoas galgando degraus e mais degraus; é algo que poucos conseguem controlar esse sabor amargo que sobe à boca quando se olha a felicidade alheia.

Talvez a gente se sinta meio que injustiçado, comparando onde estamos com os lugares aonde os outros já chegaram. Quantos de nós já não nos esforçamos muito no trabalho, mas vimos o colega ser promovido? Quantas vezes estudamos com afinco para um concurso no qual é aprovado alguém que parece nem se esforçar? Quantas pessoas nos preteriram, em favor de um outro que lhes oferecia bem menos do que estávamos dispostos a ofertar?

Na verdade, muitas vezes, acabamos por exagerar na visão que temos do que fazemos e do que nos acontece, pois evitamos naturalmente uma auto análise nua e crua de nós mesmos. E, quando as pessoas se dispõem a se enxergarem de fato, então percebem que poderiam, muitas vezes, ter agido de outra maneira, que deveriam ter dito ou feito diferente, que não se esforçaram tanto assim. A gente acaba recebendo de acordo com o que ofereceu.

No entanto, também teremos que presenciar muita gente ocupando cargos por apadrinhamento, aproveitando ou desdenhando de oportunidades que sua situação financeira lhe permite, sendo escolhidos pelo sobrenome que carregam. Mesmo assim, muitas dessas pessoas farão o melhor que puderem a partir do que lhes chegar facilmente. O que não podemos é desistir, pois há exemplos vários de indivíduos que venceram, saindo de uma total ausência de perspectivas.

Fato é que será muito mais fácil ter alguém compadecido de nossas tristezas do que encontrar quem realmente comemore conosco as nossas vitórias. Chegar junto à miséria alheia parece ser muito mais fácil do que aplaudir o sucesso do outro. De tanto que se valoriza o sucesso material, é exatamente esse aspecto que será alvo mais contundente de inveja.

Como se vê, bem poucos suportarão nos ver felizes, com sinceridade transparente, mas serão esses poucos aqueles com quem sempre poderemos contar, sem medo de rasteiras e decepções dolorosas.

Texto e imagem reproduzidos do site: obviousmag.org

O Corpo da Mulher, por Drauzio Varella


Publicado originalmente no site Drauzio Varella, em 13/06/2017.

O Corpo da Mulher.
Por Drauzio Varella.

Coisa mais difícil é ser mulher. Não bastassem as surpresas que a fisiologia lhes impõe, as sociedades criam regras para cercear-lhes a liberdade de ir e vir e padrões rígidos de comportamento e moralidade, que não se aplicam aos homens.

De todas as imposições sociais, a mais odiosa é a apropriação indébita do corpo feminino.

Não é por outra razão que cidadãos de mais de 20 países se dão o direito de mutilar os genitais de suas filhas na mais tenra idade. São cirurgias cruentas, sem anestésicos nem assepsia, a que o mundo assiste em silêncio acovardado, em nome do respeito às “tradições culturais”.

Nós, que nos intitulamos “civilizados”, não chegamos a esse nível de barbárie, no entanto, repreendemos a menina de dois anos, quando leva a mão ao sexo ou senta com as pernas abertas. Na piscina de um condomínio de classe média alta, em Cleveland, nos Estados Unidos, minha filha foi admoestada pela encarregada da segurança, por deixar minha neta sem a parte de cima do biquíni. O argumento? Provocar os homens presentes. Uma criança de 5 anos?

Na puberdade, com o cérebro inundado pela testosterona, jamais alguém ousou sugerir que minha iniciação sexual levasse em conta o amor, sentimento que mães e pais, que se consideram avançados, exigem das adolescentes. Sexo casual exalta a condição masculina, enquanto mancha a reputação da mulher. Não é preciso graduação em filosofia pura para expor o paradoxo.

Veja também: A maternidade não é obrigação

Aos 12 ou 13 anos, idades em que o corpo ensaia com graça os primeiros passos em direção da mulher adulta, os interesses da indústria e da publicidade sexualizam com mini-shorts e camisetas decotadas, o modo de vestir das meninas. Quando saem às ruas com as roupas da moda exibida na TV e nas revistas, elas são acusadas de provocadoras, portanto sujeitas às grosserias e ao risco de se tornarem vítimas dos instintos masculinos mais bestiais.

Ao ficarem adultas, são forçadas a atender a um padrão estético que privilegia a magreza doentia das top models. Sem levar em conta os caprichos da genética, a mulher moderna deve ser magra, sobretudo. A exigência de exibir a ossatura acaba por lhes distorcer a autoimagem. Passam a implicar com o pequeno acúmulo de gordura, com rugas insignificantes e com celulites só visíveis em posições acrobáticas sob o foco de luz.

No passado, demonstrar interesse por uma mulher era elogiar-lhe a beleza; hoje, dizer que está mais magra é meio caminho andado.

Nós, homens, somos complacentes com a autoimagem. O sujeito com vinte quilos a mais sai do banho enrolado na toalha, para na frente do espelho, bate no abdômen avantajado e se vangloria: “tô simpático, tô bonitão”. Está para nascer mulher com tamanha autoconfiança.

Mas, é na gravidez que fica demonstrada a superioridade fisiológica do organismo feminino. Produzem apenas um óvulo, enquanto nos obrigam a ejacular 300 milhões de espermatozoides, para que se deem ao luxo de escolher o mais apto. Daí em diante, por conta própria, constroem uma criança de três quilos, sem qualquer participação masculina.

Na gravidez, nosso papel é tão desprezível, que precisamos fazer exame de DNA para comprovar a paternidade. Apesar da irrelevância, no entanto, nós é que aprovamos as leis que as consideram criminosas em caso de abortamento provocado. O sofrimento e as mortes das jovens submetidas a procedimentos realizados nas condições mais desumanas, que possamos imaginar, não nos sensibiliza.

Depois de passar décadas espremidas em trajes incômodos e de andar mal equilibradas em saltos de um palmo de altura, só lhes restam duas saídas: a cirurgia plástica ou o suicídio, providências nem sempre excludentes. Antes operar o rosto, aspirar a gordura abdominal ou partir deste mundo, do que envelhecer.

Às que ficam mais velhas não sobram alternativas: se deixam os cabelos embranquecer são rotuladas de velhas, se decidem pintá-los de preto ficam com cara de senhoras, se os tingem de loiro são xingadas de exibidas. Se vestem roupas em tons discretos são antiquadas, se acompanham a moda das mais jovens, são ridículas, sem noção.

As leitoras que me perdoem, mas, na próxima encarnação, prefiro nascer homem, outra vez.

Texto e imagem reproduzidos do site: drauziovarella.com.br

Artigo de Carol Teixeira, na revista VIP

Nossa colunista garante: toda muilher gosta de algum tipo de sacanagem.
Vitor Pickersgill/Revista VIP.

Luis Crispino/VIP.

Publicado originalmente no site da revista VIP, em 7 de julho de 2017.

Carol Teixeira: “putaria, mas com carinho”

Já passou da hora de os homens entenderem o quanto uma mulher curte esse clima

Por Carol Teixeira 

Em uma das últimas colunas, falei sobre o sexo como eu gostava e mencionei que, para mim, o ideal era “putaria com carinho”. Durante uma transa, dia desses, que era uma representação muito exata disso, senti que devia explicar melhor para vocês o conceito – pois acho que mais homens deveriam entender o quanto uma mulher curte esse clima.

E porque, para a filósofa aqui, sexo é objeto totalmente digno de pensamento conceitual.

A putaria

Toda mulher gosta de putaria, até a mais pudica, believe me. É só entender qual é o tipo de sacanagem que ela curte.

Para algumas, receber durante uma reunião uma mensagem com um nude ou palavras eróticas pode ser loucamente excitante. Para outras, pode ser agressivo e ter o efeito oposto. Para entender qual a vibe dela, traga o assunto antes numa mesa de bar entre um drinque e outro, vá sondando e vendo qual é seu estilo, como fala sobre sexo.

O tipo de mensagem que ela curte receber já diz muito sobre o estilo de putaria preferido na cama. Se gosta de uma sacanagem virtual ou fala livremente sobre isso num papo, provavelmente vai gostar de que você se expresse bastante na cama, que gema para ela (poucos homens gemem e mulher ama quem faz isso. Fica a dica), que fale umas putarias no ouvido.

Eu arrisco dizer que, quando muito excitada, toda mulher gosta de ouvir você falando na hora do sexo. É uma delícia ver um homem se descontrolando de tesão por nós, falando o que tem vontade, tirando a racionalidade do momento e se jogando na sensação.

A boa putaria começa na fala, na exteriorização. O resto – a ação – é consequência do início bem conduzido. O desafio é ser sincero em sua putaria, fazer/falar o que sentir mesmo, sem constrangimento e nunca de forma fake.

O carinho

Uma das coisas mais excitantes é transar olhando bem nos olhos do outro. É a maior forma de carinho. Não importa se você ama, se você quer casar e ter filhos com a pessoa, não se trata disso: sexo é conexão, ponto.

Não há conexão maior do que o olhar. Isso leva o tesão a um outro nível, o coloca num lugar de vulnerabilidade e entrega que, para mim, são essenciais para o sexo bom. Outra forma de carinho que é uma delícia é o elogio. Todo mundo gosta.

Elogios sinceros fazem a mulher sentir-se admirada, amada (no sentido amplo da palavra) e tais coisas geram um relaxamento, uma abertura, uma entrega que com certeza você quer ver. Se achá-la linda, fale. Se gostar do cheiro, do gosto dela, se estiver pensando em como ela é gostosa, expresse – não faz sentido guardar para você tais pensamentos. Não tenha medo de ser carinhoso.

Para entender melhor ainda, basta ver algumas das minhas narrativas eróticas preferidas: o diário da escritora Anaïs Nin contando o caso dela com Henry Miller (Henry & June), as cartas de James Joyce para sua mulher, Nora (Cartas a Nora), e tantos outros relatos loucos de afeto e putaria. Não tem coisa melhor.

Carol Teixeira é filósofa, escritora e autora do livro Bitch (Record). 

Texto e imagens reproduzidos do site: vip.abril.com.br/sexo/carol-teixeira

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Seu Alcides (Carlos Zéfiro), autor dos livretos eróticos anos 50/70

 Desenhista. Alcides Caminha, o Carlos Zéfiro, 
entre duas coelhinhas da Playboy: revista masculina revelou
 identidade do autor de quadrinhos eróticos.
Foto: Monique Cabral 14/11/1991.

Publicado originalmente no site do jornal O Globo, em 03/07/17.

‘Catecismos’ de Carlos Zéfiro driblaram repressão sexual dos anos 50 aos 70.

Carioca Alcides Caminha, autor dos livretos porno-eróticos que marcaram gerações, foi um funcionário público que só teve a identidade revelada pouco antes de morrer, há 25 anos.

Fabio Ponso*

Seu Alcides, como era conhecido pelos vizinhos, era um funcionário público de pequeno escalão, morador de uma casa simples de dois quartos no subúrbio do Rio. Por mais de quatro décadas, quase ninguém pôde suspeitar que na história não revelada deste cidadão comum, de vida pacata, habitava, em silêncio, o mito Carlos Zéfiro, tido por muitos como o “pai da pornografia brasileira”. Desenhista dos quadrinhos eróticos conhecidos como “catecismos”, uma febre entre os adolescentes das décadas de 50 a 70, Alcides Aguiar Caminha se valeu do pseudônimo para esconder a obra do grande público —, revelada somente a alguns poucos familiares e amigos, que guardavam o segredo. Curiosamente, não fosse o fato de outro quadrinista ter declarado ser Carlos Zéfiro, estimulando o artista a finalmente sair do anonimato, um ano antes de sua morte, em 1992, sua identidade teria continuado envolvida para sempre numa aura de mistério.

Nascido em 26 de setembro de 1921, em São Cristóvão, no Rio, aos 25 anos Alcides casou-se com Serat, com quem teve cinco filhos. Funcionário público da Divisão de Imigração do Ministério do Trabalho, concluiu o ensino médio somente quando tinha 58 anos. Mas no desenho se iniciou muito antes: após se formar em um curso técnico, começou a reproduzir fotos de nus femininos, a pedido de amigos, logo percebendo que poderia ganhar dinheiro criando histórias eróticas, como noticiado pelo GLOBO em 15 de novembro de 1991. A primeira delas, intitulada “Sara”, foi criada em 1949.

No entanto, ele sempre escondeu sua atividade paralela para não prejudicar sua carreira, já que a Lei 1.711, de 1952, previa a demissão de servidores por “incontinência pública escandalosa”. Sua precaução era tanta que tratava de destruir os originais de suas obras após a venda. Mesmo depois de se aposentar, continuou se resguardando, com receio de perder a renda com que sustentava a família, que morava numa casa simples em Anchieta.

Seus desenhos, em preto e branco, compunham histórias reunidas em pequenos livretos em formato de bolso, com no máximo 32 páginas. De acordo com a Enciclopédia Itaú Cultural, o artista teria produzido 862 histórias. Por seu conteúdo pornoerótico, que, de forma pioneira, “educou” sexualmente gerações acostumadas com a repressão sexual e a censura, os livretos receberam do público o bem-humorado apelido de “catecismos”. Com tiragem média de cinco mil exemplares — chegando, em alguns casos, a cerca de 30 mil —, eram impressos em gráficas de diversos estados, distribuídos e vendidos clandestinamente em bancas de jornais, por iniciativa de Hélio Brandão, amigo do artista e dono de um sebo na Praça Tiradentes.

Segundo pesquisadores, a obra do artista teria sido influenciada por quadrinhos românticos mexicanos e fotonovelas suecas de teor pornográfico. O nome Carlos Zéfiro, por sua vez, teria sido inspirado num autor mexicano de fotonovelas. As histórias, de cunho eminentemente machista, eram um retrato da cultura sexual da época, e não se furtavam a abordar tabus e temas polêmicos, como o homossexualismo e o incesto, sob verniz nu e cru, levando alguns especialistas a considerarem Zéfiro como “o Nelson Rodrigues dos quadrinhos”.

Em 1970, no auge da repressão da ditadura militar, uma investigação foi aberta em Brasília para se descobrir o autor das "obras pornográficas". O editor Hélio Brandão chegou a ser preso, e Caminha foi procurado e revistado pela polícia, mas a investigação terminou inconclusa. Ainda no início da década de 70, a chegada ao Brasil de revistas eróticas estrangeiras, em cores, fez com que as “revistinhas de sacanagem” nacionais perdessem prestígio e Zéfiro, principal autor do gênero, decidisse parar de publicar suas histórias.

No entanto, o artista continuou desenhando e seu nome se manteve vivo, até que, nos anos 80, com o enfraquecimento e o fim da censura, seus quadrinhos passaram a ser reimpressos por editoras do mercado brasileiro, como a Record e a Cena Muda. Em 1983, foram publicados dois estudos sobre sua obra: “O quadrinho erótico de Carlos Zéfiro”, de Otacílio d’Assunção, e “A arte sacana de Carlos Zéfiro”, com artigos de pesquisadores como o antropólogo Roberto Da Matta e o jornalista Sérgio Augusto.

Além dos trabalhos como quadrinista, Alcides Caminha foi compositor, inscrito na Ordem dos Músicos do Brasil. A paixão pela música o conduziu a uma vida boêmia, e em suas andanças, entre shows e serestas, conheceu os sambistas Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Com a famosa dupla — que, segundo Caminha, também sabia que ele era o desenhista Carlos Zéfiro —, compôs alguns sambas, entre eles o clássico “A flor e o espinho”, gravado por importantes nomes da MPB.

Caminha revelou sua identidade somente em novembro de 1991, nas páginas da revista “Playboy”, após tomar conhecimento que o artista baiano Eduardo Barbosa — também autor de alguns folhetos eróticos — se apresentou à imprensa como sendo Carlos Zéfiro. Na ocasião, ganhou uma exposição de seus desenhos e participou como uma das principais atrações da I Bienal Internacional de Quadrinhos, na Fundição Progresso, no Rio, sendo assediado por jornalistas e fãs.

Em 3 de julho de 1992, o quadrinista foi o principal homenageado do Troféu HQ Mix, no Rio, recebendo o seu primeiro prêmio, na categoria de artista veterano, pelo conjunto de sua obra. Caminha, no entanto, pouco pôde desfrutar de sua glória tardia, pois apenas dois dias depois, após voltar de uma festa, sentiu-se mal e faleceu em virtude de um derrame cerebral, aos 70 anos de idade.

Em 1996, Zéfiro foi homenageado pela cantora Marisa Monte, que utilizou os traços do artista na capa e no encarte do CD “Barulhinho bom”. Em 1999, a cantora também participou de outra homenagem póstuma, inaugurando a Lona Cultural Carlos Zéfiro, em Anchieta, com um show ao lado da Velha Guarda da Portela. Marisa e o jornalista Juca Kfouri, autor da reportagem que revelou a verdadeira identidade de Carlos Zéfiro na “Playboy”, são os padrinhos do espaço cultural, fundado e dirigido por artistas locais. Dois anos depois, o cineasta Sílvio Tendler iniciou o projeto de produção de um documentário sobre Zéfiro. Em 2011, o diretor e autor Paulo Biscaia Filho levou aos palcos a peça “Os catecismos segundo Carlos Zéfiro”, escrita com Clara Serejo. No mesmo ano, seus trabalhos foram expostos no Museu do Sexo, em Nova York, ao lado de obras de quadrinistas eróticos do mundo inteiro.

* com edição de Matilde Silveira

Texto reproduzido do site:  acervo.oglobo.globo.com

terça-feira, 20 de junho de 2017

Ignorância te faz feliz, mas custa caro!


Ignorância te faz feliz, mas custa caro!
Por Mario Feitosa.

Onde as mecânicas neurais de seleção de conteúdo irão nos levar?!
Passo a passo, caminhamos para o prazer da ignorância, a troco da paz do não ver, não ouvir, não saber…

Ouso afirmar que para últimas gerações, essas que governarão o mundo assim que estivermos velhos demais para tal, a fonte de informação é a Internet. Não TV, que não lhes faz sentido – afinal o padrão é de exibição da escolha dos produtores -, nem revistas, que pesam, ocupam espaço, vêm repletas de assuntos desinteressantes, muito menos o falecido rádio, mas a Internet.

Ela é o paraíso do “quero”. Quero, vejo. Não quero, ignoro.

Sabendo disso, as redes sociais vêm aprendendo a fazerem-se interessantes.

Facebook, a que o faz de forma mais escrachada, abusando do fato de ser elo entre faixas etárias, é a que melhor tem feito.

Já reparou como e quanto seus maiores interesses ficam destacados em seu Feed? Como e quanto suas buscas em lojas virtuais viram os banners de propaganda na rede?

Já percebeu que outros canais agora ficam concentrados lá, como se o serviço fosse a Internet 

Absoluta?

Tem uma marca? Faça uma fanpage.

Tem um blog? Publique os artigos lá.

Músico? Venda seu trabalho nela.

Vlogger? Embede o vídeo, para ganhar views.

É, de modo inegável, um concentrador. Basicamente, um monopólio (embora não formalmente, já que cada canal possui seu público e espaço definidos. Apenas de modo material).

Princípios de competitividade e a necessidade de relevância, próprios de nossos tempos, não são de todo demoníacos, afinal esses são caracteres quase inatos na própria existência animal.

No entanto, será que os pesos das consequências são, verdadeiramente, levados a sério?

Em Tecnologia, costumamos chamar esse aprendizado do sistema pelo comportamento do usuário de “neural” (fazendo analogia ao aprendizado intelectual humano, por sinapses de seus neurônios). O sistema vai, utilizando captação de variáveis, desenhando um padrão e, à medida que “se sente” confortável para tal, utiliza o “aprendido” para prever próximos passos.

De uma maneira mais sólida, os sistemas neurais foram, de imediato, implementados para modelos de segurança corporativa. Tais sistemas “aprendiam”, durante dias, o comportamento dos colaboradores de uma empresa e, com o mapa “em mãos”, tornavam-se capazes de, sozinhos, definir riscos para a rede privada, poupando, assim, a organização de manter uma inteligência humana filtrando o Firewall.

Obviamente, não demorou muito e empreendedores captaram o potencial de venda da solução. Dessa forma, o modus foi replicado para fins comerciais.

Hoje, num algoritmo assustador, o Facebook (aplicação que utiliza o sistema neural de forma mais expressiva, ao meu ver) é capaz de te sugerir amizades baseando-se em localização comum, em troca de contatos por outras redes geridas pela empresa; por amizades em comum, check-ins; por assuntos comuns.

Não é difícil, nesses dias, receber uma sugestão de amizade após uma botecada com um grupo de amigos.

Explicar, de forma claríssima, o tal algoritmo dependeria da experiência pessoal trabalhando com esse e, provavelmente, incorreria em falta de ética do profissional, uma vez que exporia, com isso, uma arma virtual poderosíssima de competição. Não sendo esse meu caso, me sinto livre para falar, olhando de fora.

Analisando, assim, friamente a brilhante ideia de trabalhar com tais sistemas em redes sociais, sou obrigado a levantar questões problemáticas de longo prazo, como, por exemplo, a alienação do usuário em nome de sua “paz virtual”.

Imagine, você, um perfil de Facebook com cerca de quinhentos amigos, cada um compartilhando de dois a dez assuntos por dia.

Imagine o flood, numa timeline, que tal nível de interações geraria. Como seria possível acompanhar e dar “atenção” a tudo isso? Simples: não seria.

Dessa forma, a rede monitora seu comportamento e, entendendo seu padrão, passa a ocultar o que entende “irrelevante” para você e exibir o “relevante”. Trata-se de uma bolha de informação. Bolhas de informação, necessariamente, geram alienação.

Passamos, então, a cada vez mais nos ver mergulhados no nosso próprio oceaninho mental, ignorando a realidade, que, no fundo, deveria estar refletida nas redes.

Pense comigo: quanto mais política você consumir, mais política te será apresentada. Você chegará, em um determinado momento, a apenas ter fontes de informação baseadas em sua orientação e ideologia política, tornando-se um alienado em relação à verdadeira natureza dessa ciência.

Do mesmo modo, se você apenas consumir bobagens, vai tornar-se um bobagento!

Vê a gravidade dessa alienação?

Em linhas gerais, toda alienação é um problema.

Alienação, querendo ou não, é uma forma de doutrina e fanatismo. Aquilo vira sua realidade e, com essa viseira, você se torna incapaz de captar a fluidez do degradê da realidade que te cerca.

Ao promover isso, a rede te transforma, por decisão indireta, – já que nunca te foi consultado, claramente, se era essa sua intenção, – num ignorante. Um ignorante inconscientemente voluntário.

Numa situação assim, a única maneira de abrir novamente o leque do conhecimento, que deve ir de oito a oitenta, para ter resultados adequados, é buscar por vontade própria o que não te é oferecido sem esforço.

No entanto, quem busca esforçar-se num ambiente que, ainda, em nossas cabeças, é de diversão e relaxamento?

De certa forma, tal nível de pensamento já é ignorância nossa. Embora tenhamos nascido em período de transição, a Internet já faz parte de nossas vidas por tempo suficiente para termos nos dado conta de quanto é apenas uma extensão da vida real, vida-vida mesmo. Internet, há algum tempo, já não é mais aquele ambiente que “entrávamos”, usando nossos modens. Ela é parte integral de nossa comunicação.

Acontece, infelizmente, que gostamos mesmo da ignorância. E sabe por quê? Ignorância te faz feliz! E não sou eu que digo não! Erasmo de Roterdã já o fazia há milênio! Porém, é uma felicidade oca, inconsequente. Essa boia custa muito caro!

O preço da alienação e ignorância é a cadeia! Sim, uma cadeia virtual, em sentido mais filosófico do que tecnológico, mas uma cadeia! Ela afana sua liberdade em nome de não ser incomodado pelo que verdadeiramente acontece. Ela esgota seu senso crítico te tornando num burrinho de viseira, puxando a carrocinha dos dedinhos, em joia, apontados para cima. Ela te torna incapaz de aprofundar pensamentos e desenhar ideias sólidas e coerentes sobre o que está em sua volta. Ela te deixa morrendo de fome na praia enquanto, na ilha, há milhares de árvores frutíferas para proveito!

Sim! A praia é linda! Mas a praia não é a ilha!

Há, sim, perigos na ilha, que te gerarão incontáveis frustrações e, quiçá, sofrimento. Porém, nos intervalos desses obstáculos, estarão prazeres indescritíveis!

Eu, que não sei nada ainda, já posso afirmar: saber dói. Mas não dói pelo simples saber. Dói por ser, hoje, uma raridade. Mesmo não sabendo nada ainda, é acordar sozinho num mundo devastado…

No entanto, ouso aqui relembrar o que, em 1947, George Orwell nos avisou que seria ferramenta de manipulação: nos venderão (aliás, estão há muito tempo vendendo) que escravidão é a verdadeira liberdade, usando do prazer fake da ignorância como argumento, sendo o oposto absoluto disso a verdade… Liberdade é, sim, escravidão, mas a escravidão da coerência, que, sinceramente, é o único remédio para esse mundo doente.

Para concluir, um pedido sincero: ponha meios verdadeiros, práticos e efetivos de driblar essa moção alienante. Faça esforço diário, remando contra a maré do conforto.

Eu garanto: vai te cansar, e pode doer. Mas a dor que acompanha a liberdade é muito mais prazerosa que a “paz” de mentira, promovida pela prisão da ignorância.

Texto e imagem reproduzidos do site: obviousmag.org

Tecnologia e seres humanos artificiais.


Tecnologia e seres humanos artificiais. 
Por Guilherme Mariano.

Nossa sociedade está cada vez mais evoluída, isso é um fato, graças a inteligência humana, as tecnologias vem sendo aprimoradas, tudo para tornar o nosso dia-a-dia mais simples, rápido e fácil. Vivemos em uma geração de inteligência artificial, mas será que tanta praticidade e rapidez não tem suas consequências?

Notebooks, Iphones, celulares, televisoes smart, os gadgets conquistaram o seu lugar no coração da humanidade, que faz questão de manter-se atualizado com tudo o que há de novo e mais moderno em tecnologia nos países de primeiro mundo. Gadget vem do inglês geringonça, dispositivo. São equipamentos com função prática e útil ao cotidiano, porém, além da lógica da finalidade, para muitas pessoas eles têm outra função. Status e superioridade.

Esses dispositivos vieram sim trazer muitos avanços positivos, não dá para negar. Mas ninguém pode fazer vista grossa quanto aos problemas econômicos, políticos, sociais e mesmo culturais, que esse avanço implantou na sociedade em geral. Considerando-se somente o problema do status, certamente você deve achar que isso está distante de você. Mas todos nós somos escravos dele, todos não, mas vamos dizer que a maioria. Muitas pessoas não teriam coragem atender normalmente na fila do banco, um aparelho celular fabricado há 10 anos? Quando ele começasse a tocar todas as pessoas estariam olhando para você julgando por não ter um celular Touch Screen com uma tela do tamanho de uma TV de plasma. No momento em que você tivesse que levantar a antena em busca de sinal, elas já estariam comentando a cena com o próximo da fila e rindo de você.

Você se considera escravo da tecnologia?

Apesar de parecer meio contraditório, eu aqui escrevendo no meu notebook e no lado meu celular carregando, considero importantes tais avanços, apoio e faço uso. No entanto, precisamos abrir os olhos para não nos tornarmos escravos desses gadgets que visam facilitar demais as coisas. Na minha opinião, acho que o pior é que sabemos de tal dependência, quando ficamos sem internet ou sem celular, parece que nos arranca algo do nosso corpo, não nos sentimos normais, precisamos saber sobre o que o grupo do Whatsapp está conversado, o que está acontecendo no Facebook, o que eu estou perdendo, parece loucura, mas é algo totalmente real. A internet é como um martelo, você pode construir coisas, consertar, mas também pode matar, depende de quem utiliza.

Por isso, cabe a nós fazer bom uso desse arsenal que temos à nossa disposição, seja como usuário comum ou como profissional. Pois tudo em exagero pode ser prejudicial. Então, não se preocupe: se desligar um pouco não é o fim do mundo. Pelo contrário, é necessário. Lembre-se: tais ferramentas são um facilitador e não um substituto absoluto do que acontece fora da internet. É de total importância conversar pessoalmente com pessoas, mas também é muito prático conversar com pessoas distantes instantaneamente, devemos fazer um elo entre os dois meios, mantendo sempre um equilíbrio.

Outro dia estava em uma roda de amigos na faculdade e entre um papo e outro percebi que alguns assuntos ficavam no ar, sem resposta. Foi quando notei que vários dos presentes checavam seus celulares em conversas sem fim ou procurando a mais nova foto dos amigos da balada da noite anterior. Percebi então que a comunicação pessoal perdeu totalmente a importância, não é mais possível deixar o mundo conectado para alguns momentos depois. Apesar de alguns conversas na roda, todos conversaram e conseguimos passar algumas horas conversando, com certo esforço, mas conseguimos.

Essa pequena cena mostra o que tem acontecido com frequência em reuniões familiares e de trabalho, em cinemas e teatros, nos ônibus e metrôs, nos elevadores e filas de supermercados, em quase todos os lugares. Estamos constantemente sendo chamados a participar das redes sociais, aplicativos de troca de mensagens e outros afins, sempre com pressa para ler e responder, a participar de tudo ali na hora, tem que ser “instantâneo”, mas será realmente preciso? Será que precisamos estar tão conectados assim, a todo momento, a ponto de ignorar o outro indivíduo? Evoluzione-uomo-computer-copia. Essa troca de mensagens instantâneas, o acesso às redes sociais ou os e-mails particulares em qualquer lugar e qualquer hora chamam a nossa atenção, e eles são tantos que ficamos numa espécie de distração, levando algum tempo para retornarmos ao que estávamos fazendo. No ambiente de trabalho, roda de amigos se isso ocorrer inúmeras vezes ao dia, com certeza vai diminuir a aproximação estre as pessoas ali presentes. Essa ansiedade nos faz buscar mais e mais, nos sentimos como carentes de informações e precisamos consumi-las, precisamos nos atualizar toda hora.

A confusão se estabelece a ponto de a Associação de Psiquiatria Americana estar disposta a incluir a “ansiedade digital” na lista de doenças psiquiátricas existentes, tratando-a como um vício sem limite, similar a comprar ou jogar. Realmente uma dependência, é algo a ser tratado. Tente se condicionar a acessar as redes sociais poucas vezes ao dia, como duas vezes apenas, que tal? O importante é não fazer checagens a todo instante, tente controlar a ansiedade de querer saber tudo o tempo todo. Evite estar conectado às redes sociais o tempo todo, principalmente em determinados horários do seu dia, pois o fato de estar conectado te leva a querer navegar a todo instante. O que acontecerá se você se desconectar do mundo por algumas horas? Tente e veja o que acontece. Deixe de lado o celular por alguns momentos do dia, aproveite um bate-papo informal, converse com seus amigos pessoalmente, não converse somente com a foto dele no Whatsapp, veja como isso é gostoso e faz bem. Reserve um tempo para estar com as pessoas, escute, fale também, de sua opinião sobre algum assunto, isso faz muito bem para nós, tanto pra quem ouve, quanto pra quem fala, tudo no seu tempo.

Bom, agora que meu celular terminou de carregar irei ver quantas notificações tenho.

Texto e imagem reproduzidos do site:  obviousmag.org

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Como a sua empresa enxerga a diversidade?


Publicado originalmente no site da revista Época Negócios, Junho/2017.

Comportamento.

COMO A SUA EMPRESA ENXERGA A DIVERSIDADE?

GAYS E TRANSGÊNEROS – ALÉM DE MULHERES E NEGROS – GANHAM MAIS ESPAÇO NAS CORPORAÇÕES. E A ASCENSÃO DESSA MINORIA TEM CADA VEZ MENOS A VER COM O “POLITICAMENTE CORRETO”: É UMA QUESTÃO DE PRODUTIVIDADE E INOVAÇÃO

DUBES SÔNEGO E RAQUEL GRISOTTO. FOTOS ROGÉRIO ALBUQUERQUE.

A atriz Carolina Ferraz não é o que se pode considerar um alvo típico de ataques preconceituosos. Ícone de beleza e elegância, ela preenche bem a série de quesitos que, no imaginário brasileiro, formam o estereótipo da pessoa admirável e bem-sucedida: é branca, magra, talentosa – e heterossexual, casada, com duas filhas lindas. Talvez por isso tenha causado tanto mal-­estar a muitos empresários quando, tempos atrás, decidiu bater à porta de alguns deles, pedindo dinheiro para seu mais recente projeto: A Glória e a Graça, filme no qual interpreta uma travesti.

Em seu périplo por financiamento ouviu de diferentes executivos frases do tipo: “Você é uma mulher tão bonita, com uma reputação tão boa. Para que fazer um negócio desses?”. Ou: “Isso vai acabar com a sua imagem”. Mesmo acostumada a dificuldades na hora de levantar recursos para montar projetos culturais no Brasil, Carolina, nessa experiência, espantou-se. “Foi horrível ouvir que fazer uma travesti iria prejudicar minha carreira. Eu já interpretei uma dondoca horrorosa, que assassinava pessoas para conseguir o que queria. Por que isso não foi ruim?”, questiona Carolina, referindo-se a Norma Gusmão, personagem de 2008, que terminou a novela gritando “Eu sou rica”, tornando clássico o bordão. O conceito de integridade, pelo visto, anda um pouco distorcido no país. “Parece que, no geral, a sociedade não está preparada para abraçar as diferenças”, afirma Carolina.

A situação vivida pela atriz retrata uma realidade do mundo corporativo que, no Brasil, costuma ganhar cores dramáticas: a rejeição de parte do empresariado a tudo que é considerado minoria ou diferente. A dificuldade em aceitar lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBTs) é apenas a parte mais evidente de um dilema que envolve ainda mulheres, negros e pessoas com deficiência (PcDs).

É comum ouvir por aqui que não existe preconceito contra negros e que as mulheres têm as mesmas oportunidades de ascensão na carreira. Ainda assim, as empresas estão longe de representar adequadamente o perfil demográfico do país em seus quadros. Principalmente, quando se sobe na escala hierárquica. Em 2016, o Instituto Ethos e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) publicaram um estudo baseado em dados das 500 maiores empresas brasileiras e descobriram que as mulheres, apesar de representarem mais da metade da população do país, ocupam somente 13,6% dos cargos de primeiro escalão. Ainda segundo a pesquisa, apenas 6,3% dos gerentes e 4,7% dos executivos de alto escalão são negros. Não há dados sobre homossexuais em cargos de comando – uma vez que até há bem pouco tempo a orientação sexual sequer estava nas estatísticas das equipes de recursos humanos.

A boa notícia é que o cenário, ainda que lentamente, está mudando. LGBTs, mulheres e negros começam a ganhar cada vez mais espaço nas corporações – e a lutar com bem menos receio por igualdade de condições e respeito no mercado de trabalho. Se você ainda considera todo esse papo “mimimi de grupos vitimistas”, cuidado. Está na hora de rever seus conceitos – e não com o propósito de dar uma justificativa à sociedade ou parecer moderninho. Se a óbvia constatação de que o mundo mudou não lhe parece convincente, então atente para o seguinte: a diversidade é produtiva e, em muitos casos, indutora da inovação. É uma equação tão simples quanto efetiva: culturas diferentes + trajetórias diferentes + visões de mundo diferentes em uma equipe resultam em uma probabilidade maior de encontrar soluções diversas e criativas para a empresa, como veremos adiante. Captou?

Questão de talento.

Não por acaso discutir diversidade e inclusão de minorias é hoje um tema prioritário para um número crescente de grandes corporações – e os motivos têm pouquíssima relação com o “politicamente correto”. Um estudo da consultoria McKinsey revela que há uma conexão significativa entre diversidade e performance financeira das empresas. Depois de avaliar 366 companhias, nos Estados Unidos, na Inglaterra e em países da América Latina, a conclusão é que aquelas que possuem o maior número de profissionais considerados diversos dentro do quadro geral de funcionários são capazes de entregar desempenho até 35% superior à média da indústria como um todo. “Não podemos afirmar que a relação é de simples causa e consequência”, diz Heloisa Callegaro, líder para ações de diversidade da consultoria para a América Latina. “Mas dá para dizer que as companhias mais avançadas na questão de gênero e etnia são também aquelas que têm um desempenho melhor.”

A Monsanto descobriu há pouco essa relação, na prática. Na tentativa de aumentar a satisfação de PcDs, mulheres e negros em seus quadros, a empresa criou um “indexador de diversidade” para identificar as lideranças mais engajadas com o tema dentro da organização. Acabou percebendo que as equipes com maior diversidade e com os gestores mais empenhados em promover inclusão eram as que tinham os melhores resultados. “Em uma escala de zero a dez, a performance dos times com diversidade chegou a 9, ante a média de 6 dos demais”, diz Aline Cintra, líder de aquisição de talentos da Monsanto.

Por que as empresas que respeitam a diversidade têm um desempenho melhor do que a média? Uma das explicações encontradas por especialistas é esta: porque priorizam o talento, independentemente de qualquer outra característica do profissional. Ao respeitar as diferenças elas conseguem, além disso, extrair o melhor de cada um de seus funcionários.

Respeitar a diversidade é cada vez mais importante para atrair e fazer render uma nova geração de talentos, que já não suporta viver em empresas com políticas de RH tradicionais e engessadas. Dell Almeyda, de 31 anos, é um exemplo dessa geração – que coloca a liberdade de se expressar como um dos grandes atributos de uma companhia. Nascido Delvani, ele se diz andrógeno – identifica-se tanto com o gênero masculino como com o feminino. E manifesta essa orientação na forma de vestir. “Adoro um salto”, diz. Um dos responsáveis pelos treinamentos na Atento, empresa de call center, ele recebeu carta branca para usar as roupas e os acessórios que quiser.

Dell costuma ter reuniões com clientes externos. É comum que apareça nesses encontros com colares, maquiagem discreta e salto alto. Quase nunca enfrentou problemas. Em uma ocasião, no entanto, o cliente chiou. “Ele mandou um e-mail para a minha chefe, reclamando. Foi educado, mas deixou claro que não havia gostado nada dos meus sapatos”, diz Dell. A líder foi firme e disse a Dell para continuar atendendo o cliente – e de salto, se quisesse. Para evitar atritos, porém, Dell preferiu ir na reunião seguinte no estilo “homenzinho”. Chegou, fez a apresentação e quando voltou, ficou sabendo de um outro e-mail do cliente: “Por favor, diga ao Dell que ele pode voltar sempre, e vestido da forma que quiser. Com salto, ou não, ele continua fazendo um ótimo trabalho”. “Para mim, aquilo foi a glória”, diz Dell. “Não preciso fazer com que minha orientação sexual e minha preferência por roupas femininas desçam goela abaixo das pessoas. Eu prefiro o respeito. E foi o que consegui.” Na farmacêutica onde trabalhava antes, Dell conta que não tinha liberdade para se expressar da mesma forma. Na Atento, com respaldo da chefia, seu rendimento aumentou e ele foi promovido duas vezes.

A força dos fatos

Os argumentos a favor da diversidade são poderosos. O mais óbvio é que ela é simplesmente um fato do mundo contemporâneo. Ignorá-la pode ser o mesmo que ignorar grupos inteiros de potenciais consumidores. As agências de publicidade sabem dessa relação de causa e efeito e do descuido ou desconhecimento de seus clientes sobre o assunto. Talvez por isso tenham sido as primeiras a colocar a diversidade na mesa. Na década de 80, a grife italiana Benetton inovou ao abordar temas controversos em suas campanhas, mostrando, por exemplo, imagens de casais formados por negros e brancos ou pessoas seminuas identificadas como portadores de HIV. Hoje, são campanhas protagonizadas por homossexuais as que causam mais discussão. Este ano, durante o Superbowl, o jogo final da principal liga do futebol americano – um esporte tradicionalmente associado à virilidade –, foram exibidos filmes publicitários com beijo gay, no minuto mais caro da TV americana. Sinal dos tempos...

Uma pesquisa realizada pela YouGov e pelo site BabyCenter (do grupo Johnson & Johnson), chamada “Diversidade familiar é a norma”, indicou que 80% dos pais de famílias americanas gostam de ver a diversidade refletida nas famílias mostradas em campanhas publicitárias. O levantamento mostrou ainda que 66% dos entrevistados disseram que o respeito das marcas por famílias de todos os tipos é um fator importante para suas decisões de compra. Além disso, 57% afirmaram que, uma vez que encontram uma marca ou produto assim, contam aos amigos sobre ele. Resumindo: há um efeito multiplicador no reconhecimento de empresas que respeitam a diversidade.

No Brasil, marcas como a Skol, da Ambev, e a fabricante de cosméticos Natura também seguem a tendência em suas campanhas. O que se verificou com mais força, no entanto, foi a inclusão de mulheres e negros como protagonistas de vários filmes. Isso responde a uma das transformações mais evidentes da sociedade na última década – a inclusão de 40 milhões de pessoas no mercado consumidor, um grupo formado majoritariamente por negros e de famílias lideradas por mulheres.

No Carrefour, a percepção sobre essas mudanças na sociedade refletiu-se na política de recursos humanos. A rede varejista começou seu programa de diversidade por volta de 2010 e colocou como uma de suas prioridades o aumento de mulheres em cargos de liderança. A estratégia se consolidou, avançou para outros grupos e alcançou o universo LGBT. “Temos de agir de forma correta, internamente, se quisermos fazer com que esse público seja bem tratado e abordado de maneira adequada em nossas lojas”, diz Paulo Pianez, diretor de sustentabilidade do Carrefour. E a forma de garantir a eficácia do programa é verticalizar o conceito, ou seja, garantir que pessoas com esse perfil estejam em vários níveis hierárquicos, sobretudo em cargos de liderança.

Chances iguais

A relação existente entre diversidade e capacidade de inovação e solução de problemas também é conhecida. Para ilustrá-la, vale a analogia com a formação de grandes cidades. Foi o conglomerado de gente originária de lugares variados, com hábitos e histórias diferentes, que fez de Londres e Nova York as metrópoles vibrantes que são hoje, afirma o professor Edward Glaeser, da Universidade Harvard, um dos maiores especialistas em economia urbana da atualidade. Assim como acontece com as cidades, a concentração de talentos diversos dentro de empresas, em condições favoráveis, facilita a troca de informações e tende a ser terreno fértil para o surgimento de ideias, mais do que quando se têm núcleos homogêneos.

Mesmo profissionais aparentemente menos capacitados podem trazer vantagens competitivas importantes. Um candidato que tire nota baixa em um processo de seleção, por exemplo, não é necessariamente o menos adequado para a empresa. As poucas questões que acertou podem ser justamente as mesmas que a maioria dos outros candidatos com notas melhores errou. As habilidades, no caso, seriam complementares. “Se eu quero ser uma empresa que gera conteúdo diferente, eu preciso ter diversidade em meus quadros”, diz Alessandra Del Debbio, vice-presidente jurídica e de assuntos corporativos da Microsoft.

Para tentar garantir mais diversidade em seus quadros, a empresa ampliou o processo de garimpagem de profissionais. No último deles, por exemplo, foram considerados currículos de candidatos de 69 cursos de 329 faculdades brasileiras. Muitos dos selecionados vieram de escolas que não estão no topo dos rankings universitários – como a Zumbi dos Palmares, na Zona Norte de São Paulo. “Não estamos falando em priorizar um outro grupo de pessoas”, diz Alessandra. “Mas em considerar todos eles, sem preconceitos.” Na Microsoft, o exemplo faz a diferença. A empresa é comandada no Brasil por Paula Bellizia – uma das únicas mulheres à frente de gigantes de tecnologia –, e o CEO mundial é um indiano, Satya Nadella. Há ainda negros e gays em cargos de médio e alto escalão mundo afora. “Inclusão é uma jornada sem volta”, diz Alessandra. “Felizmente, estamos avançando.”

Poder de fogo

Desde 1995, o Brasil tem uma lei (a de nº 9029) que prevê punições às empresas em casos de discriminação por sexo, origem, raça, estado civil, situação familiar, deficiência, reabilitação profissional e idade, tanto na contratação como na dispensa. Em caso de condenação, as indenizações podem chegar à casa dos milhões de reais. O valor previsto, geralmente, corresponde ao dobro do salário por mês, do período do desligamento até a decisão da Justiça. “A lei tem um papel pedagógico na inclusão, e essas indenizações mais ainda”, diz Nelson Mannrich, professor da Faculdade de Direito da USP e sócio do escritório MSV Advogados, especializado em Direito do Trabalho. Há ainda a Lei de Cotas, criada há 25 anos, que determina que empresas com mais de mil funcionários tenham uma parcela de pelo menos 5% de funcionários PcDs (com deficiência física e intelectual). Ambas as leis são instrumentos importantes, que podem até ajudar, mas estão longe de estimular as empresas a voluntariamente adotar as práticas de inclusão. 

Para se fazer ouvir, quem se sente discriminado tem muito mais poder de fogo nas redes sociais. Hoje, basta um post para chegar a milhões de pessoas, que podem aderir à causa e compartilhar textos, vídeos, áudios e memes com um simples clique. Pode ser o suficiente para elevar ou acabar com a reputação de uma empresa. A italiana Barilla, fabricante de massas, aprendeu a lição do jeito mais duro. Em 2013, o presidente do grupo, Guido Barilla, declarou em entrevista a uma rádio italiana que jamais faria uma campanha publicitária com uma família homossexual. E que os gays que achassem ruim poderiam consumir produtos de outras marcas. Pouco depois, diante de críticas massivas e de um boicote em nível mundial, Guido Barilla teve de pedir desculpas publicamente não uma, mas duas vezes. O arranhão na imagem também levou a companhia a mudar radicalmente sua política de diversidade. Semanas depois do tropeço, a Barilla contratou um diretor de diversidade e fez uma campanha sobre a importância da inclusão LGBT.

“A discussão sobre diversidade ganhou força, velocidade e amplitude com as redes sociais”, diz Fabio Mariano, professor da ESPM e doutor em sociologia do consumo. Com vários relatos circulando por aí, as empresas têm de se preocupar de fato em conciliar discurso e prática. “Se elas dizem que abraçam a igualdade de oportunidades e a meritocracia precisam mostrar isso em ações, porque os grupos excluídos vão estar atentos”, diz Mariano.

Questão antiga

Em países da Europa e nos Estados Unidos, a discussão sobre inclusão é antiga. Começou a ser forjada ainda nos anos 60, por pressão de movimentos feministas e de direitos civis dos negros – que, mais tarde, passaram a reivindicar também espaço para homossexuais, trans, portadores de deficiência e outros grupos vítimas de discriminação. No Brasil, as mudanças econômicas na última década e a ascensão de um grande grupo de pessoas às universidades permitiram que a discussão sobre diversidade ganhasse corpo. “Apesar da crise atual, os avanços de muitas camadas sociais no período recente são inegáveis”, diz Judith Morrison, assessora da divisão de gênero e diversidade do BID. “Isso deu voz a pessoas antes completamente marginalizadas e colocou o debate sobre diversidade em um nível muito mais sofisticado no país.” Por ora, são as multinacionais que puxam esse movimento no Brasil, como Microsoft, IBM, White Martins, Unilever, Coca-Cola e GE. Cada uma à sua maneira, elas vêm desenvolvendo uma série de ações para incorporar a diversidade no dia a dia da operação – começando por desmontar muitos preconceitos da própria equipe e de gestores. Juntas, elas discutem as iniciativas por meio de fóruns para entender como avançar no tema. Hoje, há dois grupos bem fortalecidos no Brasil para congregar essas companhias – Coalizão Empresarial para Equidade Racial e de Gênero, do Instituto Ethos e do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) e o Fórum de Empresas e Direitos LGBT. “Quando começamos o programa, em 2013, eram poucos os CEOS que se envolviam na discussão”, diz Reinaldo Bulgarelli, secretário executivo do Fórum. “Hoje, são eles que tomam as principais iniciativas e cobram de seus diretores proatividade no assunto.” Atualmente, 39 empresas compõem o time liderado por Bulgarelli.

Apesar do cenário mais promissor, mudar a postura das empresas no Brasil exige muito mais do que boas intenções. “O primeiro esforço deve começar no recrutamento e seleção”, diz Flávia Gonçalves, gerente da área de engajamento da consultoria Korn Ferry Hay Group. Gestores com baixa diversidade em suas equipes costumam justificar a falha com o argumento de que “até procuraram profissionais em classes de minoria, mas não encontram gente suficientemente qualificada para a vaga”. “É desculpa”, diz Flávia. Nos últimos dez anos, o percentual de jovens negros e pardos que chegaram ao ensino superior mais que dobrou no Brasil – e hoje eles ocupam quase metade das vagas nas universidades federais. As mulheres, em 20 anos, atingiram nível de escolaridade maior que o dos homens e graduaram-se com notas mais altas. “E todos eles estão ávidos para ingressar no mercado de trabalho”, diz Flávia. Alguns recrutadores devem estar procurando no lugar errado, só pode ser isso.

Ironias à parte, o que explica a baixa participação de mulheres e negros no mercado de trabalho – e a quase ausência deles em cargos de chefia – é simples: preconceito. Ele é manifestado nas corporações das formas mais sutis. É o que os especialistas classificam como viés inconsciente do líder ou empregador. “As pessoas dizem que não têm preconceito e, conscientemente, talvez se esforcem para não ter mesmo”, diz Flávia. “Mas em várias situações acabam preterindo profissionais por considerar clichês como verdades.” Alguns exemplos: achar que os negros têm baixa escolaridade, que as mulheres estão mais preocupadas em casar e cuidar dos filhos do que em fazer carreira, que não servem para liderar e que é muito natural que ganhem menos que os homens. Há ainda uma tendência dos líderes em contratar seus iguais – simplesmente porque dá bem menos trabalho comandar pessoas cujas características lhes são familiares. Se a maior parte dos cargos de gestão é ocupada por homens, brancos e que se dizem héteros, é esse perfil de profissional que eles vão contratar e promover com mais facilidade.

Para driblar barreiras como essas, as empresas insistem bastante num ponto: a necessidade de buscar esclarecimento. “Oferecemos cartilhas e palestras para falar de equidade de gênero e direitos de minorias”, diz Cristina Fernandes, diretora da White Martins. “É quase uma aula de cidadania.” Desde que as ações começaram a ser implementadas, em 2010, a participação das mulheres em cargos de supervisão aumentou 79% e mais que dobrou nas diretorias. A meta agora é aumentar a promoção de negros e a aceitação de gays na companhia. “Eles já trabalham aqui, mas queremos que tenham liberdade para assumir a orientação sexual, se assim preferirem”, diz Cristina.

Fazer com que o profissional LGBT sinta-se à vontade para assumir sua orientação sexual ou identidade de gênero dentro da empresa ainda é uma tarefa árdua para muitas equipes de recursos humanos. Para avançar nesse campo, a IBM criou uma espécie de mentoria reversa, que coloca profissionais LGBT ou de quaisquer outros grupos de minoria para conversas particulares com líderes. “São discutidas questões relacionadas à rotina do negócio, mas é também uma sessão franca na qual o funcionário conta um pouco de sua história e do que enfrentou ao longo da vida por ser gay ou trans”, diz Adriana Ferreira, líder de diversidade da IBM. “Isso ajuda a criar empatia entre equipe e líderes.”

Os casos de transexuais são particularmente delicados. Muitos sofrem um preconceito tão severo da sociedade – e, com frequência, dos próprios familiares – que acabam tendo menos condições de se preparar para o mercado de trabalho. “São vários os casos de quem é expulsa de casa desde muito cedo”, diz Majo Martinez, diretora de RH da Atento. “Sem amparo econômico e emocional, muitas param de estudar, não têm como buscar qualificação e acabam sendo jogadas na marginalidade.” Felizmente, há cada vez mais exceções. Para esta reportagem, foram ouvidos alguns casos que fogem à regra – como o de Márcia Rocha, a primeira advogada brasileira a ter direito de usar seu nome social no registro da OAB (leia depoimentos no fim da reportagem).

O líder inclusivo

Na busca por uma empresa mais inclusiva, poucas coisas são tão fundamentais como o real interesse das lideranças pelo tema. Serão esses profissionais os responsáveis por chancelar as ações institucionais internas de valorização da diversidade e de explicar os motivos por trás das mudanças, de forma clara e concreta, gerando motivação nas equipes. “Os CEOs têm de se engajar na causa. Do contrário, a gente não vai conseguir avançar”, diz Theo van der Loo, presidente do Grupo Bayer do Brasil. Recentemente, Van der Loo foi a público nas redes sociais para denunciar o caso sofrido por um colega negro. De acordo com o relato, o amigo teria ouvido durante um processo de seleção para um cargo executivo na área de TI de uma grande companhia de tecnologia a seguinte frase, de um dos recrutadores: “Eu não entrevisto negros”.

A postura de Van der Loo está em alta no mercado. Levantamento da Korn Ferry Hay Group baseado em dados de 20 milhões de profissionais, de 25 mil organizações, em 110 países, indicou que o perfil do líder do século 21 é o de um profissional muito mais aberto e acostumado a lidar com diferenças.

Apoio dos CEOs

Trazer diversidade à empresa requer trabalho duro – muito mais do que boas intenções. É que os resultados, frequentemente, demoram a aparecer – e, por vezes, sequer aparecem. Em seu livro Driven By Difference – How Great Companies Fuel Innovation through Diverisity (“Guiado pela diferença – como as grandes empresas promovem a inovação por meio da diversidade”, em tradução livre), David Livermore, um dos maiores especialistas em inteligência cultural, aponta motivos para o fracasso de algumas políticas de inclusão das companhias. A principal razão, ele argumenta, é justamente a falta de compreensão sobre a necessidade de maturação dos programas. Para que as equipes consigam alcançar um alto grau de criatividade, elas precisam permanecer juntas por algum tempo até que todos os “diferentes” consigam confiar uns nos outros. O segundo motivo de fracasso é de responsabilidade exclusiva das companhias – elas abrem as portas da empresa para a diversidade, mas não se preparam de forma adequada para aceitar e receber o diferente.

Ainda há um longo caminho a ser percorrido. De acordo com o estudo do Instituto Ethos e do BID, a maior parte das 500 maiores empresas brasileiras não tem ações afirmativas para incentivar a presença de mulheres e negros em seus quadros. Quando têm, na maioria dos casos, as ações costumam ser isoladas, sem uma política perene, incorporada à estratégia da companhia. A boa notícia é que, ainda que seja longo, o caminho da diversidade parece ser irreversível. Depois de ganharem as ruas e convencerem a sociedade da legitimidade de suas demandas, mulheres, negros, LGBTs e outras minorias começam agora a contar com novos e poderosos aliados à frente de grandes companhias. CEOs como Theo van der Loo, da Bayer, Paula Bellizia, da Microsoft, e Fabian Gil, da Dow, não perdem a oportunidade de falar sobre o tema e, em alguns casos, levar a questão a encontros com representantes dos poderes Legislativo e Executivo. Entre os pleitos, a aprovação de projetos de lei como o que criminaliza a homofobia. “Não adianta a pessoa ter segurança na empresa se, quando sai, é espancada no ponto de ônibus, ou maltratada dentro da própria casa”, diz Bulgarelli, do Fórum de Empresas e Direitos LGBTs. Em uma era de recrudescimento da xenofobia e de manifestações explícitas de intolerância, a percepção das empresas de que têm muito a ganhar com a diversidade é, sem dúvida, algo a comemorar.


"Sou a primeira trans com nome social na OAB"
Márcia Rocha, 52 anos l Advogada e empresária

Desde pequena, sentia ser feminina, mas comecei a minha hormonização definitiva somente aos 39 anos. Além da pressão do meu pai, que ficava tentando me convencer de que eu era homem, havia ainda outra coisa confusa: o fato de eu gostar de mulheres, apesar de me sentir mulher também. Só resolvi minhas questões depois de estudar muito sobre sexualidade e conversar com especialistas. Felizmente, consegui ter uma boa formação. Sou trilíngue, advogada e dona de quatro empresas. Mas essa não é a realidade da maioria das trans. Por isso, achava que precisava fazer mais pelo movimento. Sou a primeira trans a ter meu nome social na certidão da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). É uma conquista importante. Tenho um assento na World Association For Sexual Health, sou da Comissão de Diversidade Sexual e Combate à Homofobia da OAB. Recentemente, juntei-me à cartunista Laerte Coutinho e mais duas profissionais para fundar a Associação Brasileira dos Transgêneros (Abrat). Além de realizada profissionalmente, tenho uma família muito interessante. Somos duas lésbicas, sendo uma travesti, mais a minha filha de um casamento anterior. Isso me faz acreditar que tudo é possível.


“Queriam tirar o demônio de mim”
Dell Almeyda, 31 anos l Técnico de treinamento – Atento

Sei que sou gay desde os 9 anos. No início, pensava: “não sou veado, não quero ser veado”. Demorou para eu entender que a orientação sexual não é uma escolha. Minha família toda – e eu também – somos muito religiosos. Na primeira igreja que frequentei, o pastor me submeteu até a uma sessão de exorcismo para espantar “o demônio” que ele dizia existir em mim. Eu sabia que não tinha demônio algum, mas aceitava. Me esforcei para parecer “homenzinho” e namorei mulher. Mas, no fundo, sabia que não era essa a minha natureza. Isso tudo gerava muito conflito. Continuo acreditando em Deus, mas hoje frequento um grupo de Teologia da Libertação, que não associa a homossexualidade a algo ruim. Sou cristão, evangélico, gay e tenho uma identidade de gênero andrógena ou queer. Sinto-me à vontade como homem ou mulher porque sei que as coisas vão muito além dessa questão binária. Ter um emprego onde eu posso expressar tudo isso, sem fingimentos, é maravilhoso. Ajudou até mesmo na aceitação dos outros em relação à minha identidade. Aqui na Atento, posso usar meu nome social no crachá, maquiagem e, claro, meus saltos, que adoro tanto. E se aparecer de terno e gravata no dia seguinte ninguém vai estranhar.


“Não encontrava emprego. Pensei em me matar”
Luana Azevedo, 21 anos l Operadora de caixa – Carrefour

Nunca me identifiquei com meu órgão sexual e o modo como eu era tratada. Quando criança, as pessoas me obrigavam a fazer coisas de menino. Eu ainda não sabia a diferença entre homem e mulher. Algumas amigas diziam que eu era travesti. Mas eu não me identificava. Aí, fui pesquisar no Google para tentar entender um pouco mais sobre pessoas trans. Comecei o tratamento hormonal somente aos 18 anos. Antes, minha mãe não deixava. Quando terminei a escola, iniciei a minha busca por emprego. Queria estudar mais, me qualificar e, para isso, precisava de um trabalho. Eu deixava currículo em vários lugares, só que a imagem que viam não condizia com o nome no papel. Quando percebi que podia não estar encontrando emprego por causa do preconceito, tive vontade de me matar. Não o fiz por pena da minha mãe. Então, uma amiga dela me indicou o Carrefour. Quando cheguei para a seleção e a entrevistadora me pediu desculpas por ter me chamado pelo nome do currículo e não por meu nome social, eu nem acreditei. Agora, a meta é juntar dinheiro para fazer faculdade de psicologia, estudar inglês e, quem sabe, morar um tempo no exterior. Está difícil. Mas, sem meu emprego, eu nem poderia sonhar com essas coisas.


“Na IBM, posso ser quem eu realmente sou”
Gustavo Gonzalez Prates, 26 anos l Gerente de contratos - IBM

Já na infância eu notava que me sentia melhor quando estava com os meninos. Eu não me via como menina. Gostava de jogar bola e usar as roupas que eles usavam. Aos 9 anos, quando minha mãe morreu e passei a ser cuidado pela minha irmã, entrei para uma escola particular. Por incentivo dela, ia às aulas de cabelo escovado ou rabo de cavalo, brinco na orelha, para parecer mais feminina. Mas chegando lá desmanchava tudo. Nos anos seguintes, passei por várias escolas, não dava certo em nenhuma. Até que aos 14 anos entendi que gostava de meninas – eu era homossexual. Os anos seguintes foram de libertação. Cortei o cabelo, passei a comprar roupas na seção masculina e a me sentir bem. Assim fui crescendo, me achando homossexual. Entrei para a IBM aos 23 anos. No ano passado, uma colega de equipe me perguntou: “você já parou para pensar que pode ser transgênero?”. Eu nem sabia o que significava isso. Pesquisei, busquei ajuda psicológica, conheci transgêneros e comecei a compreender a mim mesmo. Só aí fui entender que eu poderia mudar de nome e mudar, com tratamentos, as coisas que eu não gosto em mim, como a voz. Fui recebido de braços abertos na empresa. Na IBM, percebi que eu poderia ser quem eu realmente era.


“Inspirei outras trans a buscar emprego”
Uni Corrêa, 30 anos l Modelo e consultora de estilo

Já senti muita vergonha – não de ser eu, mas da imagem que as pessoas têm do que é ser trans. Tinha necessidade de ficar provando para todo mundo, o tempo todo, que minha identidade de gênero não tinha nada a ver com querer trabalhar com sexo. Desde criança eu tentei parecer menina. Lembro que, aos 12 anos, no meu primeiro dia de aula em uma escola nova, a professora me chamou pelo nome de batismo (que ela não revela) e todos da classe riram. Eles achavam que eu era uma garota. Aquilo me encheu de alegria. Sou do interior do Rio Grande do Sul, cheguei em São Paulo em 2004, aos 19 anos e, mesmo aqui, não havia muitas opções de trabalho para as trans. Muitas meninas acabavam vendo a prostituição como único caminho. Hoje, tenho um trabalho legal ligado a moda, com passagens por várias grandes marcas, como Reinaldo Lourenço, Heloisa Faria e Coven. Estou feliz. Mas a batalha é dura. Se durante minha adolescência eu tivesse exemplos de trans bem-sucedidas em várias profissões, talvez tivesse me tornado médica ou advogada. Quando eu trabalhava na Reinaldo Lourenço, soube que uma trans deixou currículo na loja por minha causa.  Aquilo me tocou. De alguma maneira, eu fui essa referência.


“Não, eu não preciso de um computador da Nasa"
Erivaldo Paz, 33 anos l Analista de processos – Monsanto

Aos 13 anos, sofri uma descarga elétrica empinando pipa e tive os dois braços amputados. Desde então, faço tudo com os pés. Comecei a treinar essa habilidade jogando videogame. No início, foi difícil. Tinha câimbras, sentia muita dor. Mas, aos 14 anos, já podia escrever e fazer várias outras coisas sozinho. Quando comecei a procurar emprego, a lei de cotas já existia, mas as empresas não estavam preparadas para receber pessoas com limitação. Como digito com os pés, eles pensavam que iam ter de gastar dinheiro para comprar um computador da Nasa, sei lá. Mas eu uso teclado e mouse comuns. Gente como eu precisa primeiro provar que pode fazer, somente depois mostrar que sabe. No meu primeiro emprego, ouvi: “Isso aqui não é instituição de caridade. Ou você entrega ou está fora”. Foi duro. Mas achei ótimo ser tratado de “igual para igual”. Fiz administração, estudo inglês e trabalho na Monsanto há nove meses. Com os pés, crio relatórios sobre a safra que iremos vender em 2020. Sinto-me desafiado. A contratação precisa ser boa para os dois lados. Se a empresa quiser somente cumprir a lei, vai fazer mal para a pessoa com limitação. É melhor falar um não para que ela possa buscar oportunidade em outro lugar.


“Você tem mesmo de usar esse véu?”
Renata Nached Serhal,  37 anos l Coordenadora regional – Drogaria Carrefour

Minha família é de origem libanesa e brasileira. Sou muçulmana sunita e uso hijab [o véu sobre a cabeça]. Meu marido também é muçulmano. Quando saí do colégio, não sabia bem o que fazer. Fiz faculdade de administração e pós-graduação em comércio exterior. Mas meu sonho sempre foi estudar farmácia, que, na época, era um curso em tempo integral – inviável , pois eu precisava trabalhar. Depois de alguns anos, surgiram opções de manhã e à tarde. Cursei. No segundo semestre, comecei a procurar emprego na área. Quando eu mandava meu currículo sem foto, as empresas me chamavam. Chegava lá, usando o hijab, e os recrutadores perguntavam: “Mas você tem de usar isso?”. Antes, eu já tinha trabalhado no Bradesco e na BCP, que depois virou Claro, sem o hijab. Mas agora já tinha um currículo melhor e dizia que não gostaria de tirá-lo para trabalhar. Passei meses sem conseguir emprego. Então, resolvi mandar o currículo só para multinacionais com operações em países árabes. No Carrefour, me chamaram. Estou aqui há nove anos e já fui promovida cinco vezes. Com o tempo, ganhei projeção e recebi propostas salariais melhores, de empresas que antes me recusaram. Dispensei. Porque aqui me aceitaram quando ninguém me quis.


“No Brasil, convivo com o fato de ser sempre exceção”
Mauricio Rodrigues, de 42 anos l CFO América do Sul – Monsanto

Venho de uma família de classe média. Mas nunca foi fácil. Estudei no Colégio Bandeirantes, em uma época em que devia ser o único negro por lá. Existia um preconceito, que surge por razões que hoje são óbvias para mim. Se as pessoas não são expostas ao que é diferente, elas não têm condições de estar abertas ao novo. Minha família me instruiu a conquistar meu espaço por meio do esforço. Então eu sentia que tinha de estudar mais e me destacar, para não reforçar o pensamento de que negro tem menos capacidade. Foi assim na Poli e no IBMEC (atual Insper), fiquei sempre entre os melhores da classe. Senti a diferença quando fui para Atlanta, nos EUA, que tem uma população negra grande. Lembro que cheguei a dizer ao meu pai: “Hoje vi negros andando de Porsche, de Ferrari”. Aquilo me deixou muito feliz. Eu pensei: “É isso que eu sonho para o meu país”. Só que quando voltei, fiquei muito crítico. Aqui você tem de conviver com o fato de ser sempre a exceção. Em grandes eventos, já aconteceu de me perguntarem: “Vem cá, onde eu deixo o carro?”. Você tem de estar preparado e bem consigo mesmo. Como gestor, não me importo com a cor ou orientação sexual. Estou interessado na capacidade de entrega.

Colaboraram nesta reportagem: Anaís Motta, Barbara Bigarelli, Daniela Frabasile, Edson Caldas, Nayara Fraga e Soraia Yoshida

Texto e imagens reproduzidos do site: epocanegocios.globo.com