sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Dia da Não Violência: O que aprendemos com Mahatma Gandhi


Dia da Não Violência: O que aprendemos com Mahatma Gandhi

As suas ideias continuam poderosas.

By Ana Beatriz Rosa

Gandhi morreu há 70 anos, mas suas ideias permanecem poderosas.

O dia 30 de janeiro é conhecido como o Dia da Não Violência. Criada pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 2007, a data é uma homenagem ao líder pacifista Mahatma Gandhi. Ele foi assassinado neste mesmo dia, em 1948.

Mohandas K. Gandhi nasceu em Porbandar, no interior da Índia, em 1869. Ainda em vida, ele recebeu o título de Mahatma de seus seguidores, que significa "grande alma". Gandhi foi o responsável pelo movimento de emancipação do país e da luta em defesa dos direitos humanos. A sua estratégia era conhecida pela resistência pacífica e a não cooperação com as autoridades.

Por meio da desobediência civil das leis consideradas injustas, Gandhi ficou conhecido ao redor do mundo na defesa da não violência em lutas sociais. Ele também era adepto do jejum como forma de protesto e a sua figura influenciou as comunidades muçulmanas e hindus da Índia.

Porém, foi justamente por tentar atenuar a tensão entre as comunidades religiosas que Gandhi foi assassinado por um hindu radical em Nova Déli. As disputas entre os dois grupos persistem e resultaram no Estado do Paquistão.

Em homenagem aos 70 anos da morte do pacifista, listamos dez ideias de Gandhi que continuam extremamente poderosas:


"Violência é criada por desigualdade, 
a não violência pela igualdade".


"A prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua;
 existem homens presos na rua e livres na prisão. 
É uma questão de consciência".


"Não há caminho para a paz. A paz é o caminho".


"Há riqueza bastante no mundo para as necessidades do homem, mas não para a sua ambição".


"Assim como uma gota de veneno compromete um balde inteiro, 
também a mentira, por menor que seja, 
estraga toda a nossa vida".​​​​


"Você não deve perder a fé na humanidade. 
A humanidade é um oceano. 
Se algumas gotas do oceano estão sujas,
 o oceano não se torna sujo".


"Temos de nos tornar a mudança que queremos ver".


"O amor nos ensina a ter, para a fé dos demais, o mesmo respeito que se tem pela própria".


"O fraco nunca perdoa. O perdão é a característica do forte".


A felicidade existe quando o que você diz, 
pensa e faz estão em completa harmonia.

Texto e imagens reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Sérgio Buarque de Holanda: A democracia é difícil


Sérgio Buarque de Holanda: A democracia é difícil

Sérgio Buarque de Holanda: A democracia é difícil, entrevista concedida a João Marcos Coelho|Revista Veja, em 28 de janeiro de 1976.

A caminho dos 74 anos, que completará em julho (1976), Sérgio Buarque de Holanda é, ao mesmo tempo, um impecável historiador e um fascinante contador de histórias. Grande viajante, entremeia reflexões sobre o exercício da História com finas observações do tipo: "Me diverti muito quando estive na Grécia. Lá, os carregadores de bagagens são chamados metaphoras, e os que esperam na fila do ônibus estão em ekstasis. É agradável, mas também chocante, você se deparar de repente com as palavras sendo utilizadas em seu sentido rigoroso, não é?

Seu primeiro livro, "Raízes do Brasil" (1936), forma, junto com "Casa-Grande & Senzala", de Gilberto Freyre, e "Formação do Brasil Contemporâneo", de Caio Prado Jr., o grande tripé básico da cultura brasileira no século XX. Começou a lecionar na Universidade do Distrito Federal, transferindo-se em 1938 para o Instituto Nacional do Livro. Dez anos depois passou a ocupar a cadeira de História Econômica do Brasil na Escola de Sociologia e Política de São Paulo. A partir de 1956, assumiu o posto de catedrático de História da Civilização na Universidade de São Paulo. Pronunciou conferências e deu cursos nos Estados Unidos, França, Itália, Suíça e Chile. Entre as universidades americanas, lecionou em Colúmbia, Harvard, Califórnia, Indiana, Yale e na New York State University.

Desde 1960 dirige a "História Geral da Civilização Brasileira", já em seu sétimo volume publicado: "Do Império à República". Embora negue predileção pelo período do Segundo Reinado, Sérgio diz que "basicamente a coleção é um trabalho de equipe, mas este volume é apenas meu. Eu ia fazer apenas uma resenha do aspecto político do Império, mas ela acabou virando um livro, publicado como último tomo do século XIX. Um pouco cansado com o trabalho de coordenar uma coleção desse porte, pedi um sucessor para a parte da República. E Bóris Fausto foi o escolhido". Contudo, ainda este ano Sérgio pretende publicar uma nova versão de "Do Império à República", consideravelmente ampliada.

Confortavelmente sentado em uma poltrona, numa das salas - todas literalmente atulhadas de livros - de sua casa normanda no bairro do Pacaembu, em São Paulo, Sérgio (ou o "pai do Chico Buarque", como adora ser chamado) falou sobre a História. E também contou muitas outras.

JOÃO MARCOS COELHO - O que o senhor modificaria, hoje, em seu livro "Raízes do Brasil", escrito na década de 30?

SÉRGIO BUARQUE - Muita coisa. Eu escrevi dois de seus capítulos na Alemanha, quando lá morei, entre 1928 e 1931. A idéia básica era a de que nunca houve democracia no Brasil, e de que necessitávamos de uma revolução vertical, que realmente implicasse a participação das camadas populares. Nunca uma revolução de superfície, como foram todas na História do Brasil, mas uma que mexesse mesmo com toda a estrutura social e política vigente.

JOÃO MARCOS COELHO - E a ideologia brasileira do homem cordial, que vem da passagem do século e o senhor de certa forma adota, ainda valeria?

SÉRGIO BUARQUE - Critica-se muito, mas poucos entenderam o verdadeiro sentido da expressão homem cordial. Quando falo cordial, não é no sentido de "cordiais saudações", como Cassiano Ricardo o fez. A cordialidade com que caracterizei o brasileiro pode ocorrer mesmo em situações de confronto, fatos comuns em nossa história. Nesse sentido, ela tem sido incruenta. Tem havido muita discussão, recentemente, a respeito da História do Brasil, se ela é cruenta ou incruenta. Considero esse debate bizantino. É inegável, porém, que a independência, a proclamação da República e mesmo as revoluções de 1930 e 1964 se fizeram sem derramamento de sangue. Portanto, a cordialidade continua valendo para a nossa História.

JOÃO MARCOS COELHO - O que o levou a tentar explicar globalmente o caráter nacional brasileiro?

SÉRGIO BUARQUE - Hoje, eu não me aventuraria mais a tentar uma empreitada dessa espécie. Simplesmente porque os tempos são outros. Eu estava muito influenciado pelo sociólogo alemão Max Weber. Aliás, foi naquela mesma década de 30 que surgiram outras obras brasileiras cuja característica também era a de tentar a grande síntese: "Casa Grande & Senzala", "Formação do Brasil Contemporâneo". Há pouco tempo uma editora francesa, a Gallimard, me propôs a tradução de "Raízes do Brasil". Pediram-me também um ensaio, que seria publicado na edição francesa, atualizando minhas idéias. Tentei, mas acabei desistindo. O livro está superado e plenamente datado. Minhas preocupações eram outras. Não tem sentido reescrever eternamente uma mesma obra.

JOÃO MARCOS COELHO - Quando o senhor afirma que no Brasil nunca houve democracia, isso talvez signifique que, num certo sentido, as massas populares jamais participaram do jogo político nacional?

SÉRGIO BUARQUE - Claro. No Brasil, sempre foi uma camada miúda e muito exígua que decidiu. O povo sempre está inteiramente fora disso. As lutas, ou mudanças, são executadas por essa elite e em benefício dela, é óbvio. A grande massa navega adormecida, num estado letárgico, mas em certos momentos, de repente, pode irromper brutalmente.

JOÃO MARCOS COELHO - Em quais momentos esse despertar teria ocorrido?
SÉRGIO BUARQUE - Até agora, todas as revoluções dentro da História do Brasil foram de elites, civis ou militares, mas sempre elites. E, quando a questão se restringe a querelas elitistas, o processo caminha como numa briga de família: aparece um primo, um tio, ou um amigo da família com bom relacionamento com ambas as partes capaz de contornar diplomaticamente o confronto direto. E é exatamente no conchavo que pode surgir a figura do homem cordial. Por isso a democracia, que nasceu aqui num mal-entendido, percorreu em nossa História um caminho inusitado. Ou seja, foi murchando aos poucos.

JOÃO MARCOS COELHO - Como se deu esse esvaziamento?

SÉRGIO BUARQUE - Pela Constituição de 1824, somente os escravos (porque dependiam do senhor), os religiosos em regime claustral, as mulheres e os menores não votavam. Ela permitia o voto dos analfabetos, dos libertos. O censo pecuniário (mínimo de renda mensal para poder votar) era de 100 mil-réis - esta quantia, só os indigentes não conseguiam obter. Era uma Constituição relativamente democrática. Em 1846, houve uma reforma, mas só para aumentar a renda mínima, devido à desvalorização da moeda, de 100 para 200 mil-réis. Havia duas espécies de participantes do processo eleitoral: os votantes, que tinham o direito de escolher os eleitores; e estes, que, por sua vez, elegiam os deputados e senadores. Os primeiros constituíam toda a massa ativa da população, mal ou bem participando realmente do jogo político. Na década de 70, em pleno Segundo Reinado, os partidos Liberal e Conservador se uniram para lutar por eleições totalmente diretas. Com a passagem dos votantes, grande maioria da população, para a condição de eleitores, entretanto, a democracia sofreu um golpe, pois a renda mínima foi muito aumentada (400 mil-réis, sujeitos a comprovação), que por sua vez era discutível. Isso alijou os antigos votantes e restringiu o número de eleitores de 1,5 milhão para pouco menos de 300 000. Tanto é que um estudo, coordenado por Santana Nery, publicado em Paris, em 1889, afirmava: "O Brasil é o país que tem menor número de votantes: apenas 1,5% da população tem esse direito". Computando-se as habituais abstenções, não se chegava a 1 %. Somente em 1930, quando a massa popular votava, subiu-se para 5%. Então, veio o freio da revolução, que sustou o processo eleitoral por algum tempo.

JOÃO MARCOS COELHO - Seria correto afirmar que no Brasil sempre se confundiram as palavras democracia e liberalismo?

SÉRGIO BUARQUE - Evidente. O liberalismo pode perfeitamente sobreviver sem a prática da democracia, e isso é o que sempre aconteceu no Brasil. O substantivo liberal surgiu nas Cortes de Madrid, entendido como oposto ao servil, ou iliberal. Dicionarizado em 1803, no Brasil ainda significava pessoa generosa, dadivosa. Em toda a História do Brasil, porém, a palavra é freqüentemente usada como sinônimo de concessão por parte das elites dominantes. O próprio dom Pedro I, quando dissolveu a Assembléia Constituinte de 1823, afirmou que a Constituição que outorgaria era duplicadamente mais liberal do que a elaborada pelos constituintes. "Quero uma Constituição para o povo, não pelo povo", chegou a dizer, deixando claro que apenas com sua permissão se podia praticar a liberdade. Isso pairou idealmente em todo o Segundo Reinado, embora jamais tenha existido na prática.

JOÃO MARCOS COELHO - Quer dizer que a democracia sobreviveu no Brasil apenas quando era bom o humor das elites dominantes?

SÉRGIO BUARQUE - Sim. E alguns políticos mais lúcidos perceberam isso já no século passado. Nabuco de Araújo, em 1869, dizia que nós tínhamos liberdade, ou liberalismo, mas só nas capitais. No interior, quem resolvia era o capanga, o prefeito ou o chefe de polícia. Em um discurso particularmente inflamado, chegou a afirmar que "a liberdade existe para nós, homens de gravata lavada, e não para o povo". Na época, usava-se uma gravata de seda ou linho, com colarinho alto, com um nó triplo bastante saliente, colorindo o peito e forçando a pessoa a uma posição sempre altiva. E a cor, obrigatoriamente branca. Com o calor do Rio de Janeiro e sua situação urbanística (para chegar ao Senado, na antiga rua do Areal, era preciso passar pelo Campo de Santana, onde haviam capim, brejos e burro soltos), o consumo de gravatas diárias chegava a cinco ou seis. E naturalmente era preciso ter dinheiro para manter esse enorme estoque. Outro político contemporâneo de Nabuco de Araújo, Teófilo Otôni, cognominado o "Tribuno Liberal", numa circular para seus eleitores mineiros, usou expressão semelhante: "O que eu quero é a democracia de classe média, a democracia de gravata lavada".

JOÃO MARCOS COELHO - Ao que parece, eles só pensavam numa democracia higienicamente asseptizada.

SÉRGIO BUARQUE - Na verdade, a palavra democracia era mal vista pelos liberais brasileiros no começo do Império. Talvez devido a uma identificação com os ideais de Robespierre, o que, os levava a associar democracia com anarquia. Quando ganhou status, em meados do Império, a palavra já tinha perdido seu sentido original. E passou a significar liberalismo. Aliás, outro bom exemplo é o de frei Caneca, que em um de seus escritos afirmou: "É impossível viver com esta gentalha composta de mulatos e mestiços", deixando entrever um nítido desprezo pelas classes populares.

JOÃO MARCOS COELHO - E a partir da República? Continuou o processo de esvaziamento da democracia?

SÉRGIO BUARQUE - Sim. O período republicano se iniciou entre nós com uma vitória de Rui Barbosa: o chamado censo literário, com que, finalmente, se barrou o acesso dos analfabetos ao voto. Um dos argumentos constantes do grupo vitorioso era o de que uma parte da população ainda não estava preparada para participar do jogo democrático. Era preciso esperar o progresso, que naturalmente elevaria a massa à condição de 'alfabetizada e, portanto, apta a votar. Esta, no fundo, é uma idéia reacionária: não é preciso lutar, o progresso há de vir, independentemente de nossa vontade. Mais de oitenta anos se passaram e nem com o Mobral o problema foi resolvido. Aliás, José Bonifácio, "o Moço", que adotou posição contrária à de Rui Barbosa (um seu ex-aluno a quem muito respeitava) usava argumentos bastante convincentes: "Por que os analfabetos não podem votar? Amanhã vão dizer que os surdos também não podem, depois os mudos, e depois ainda só votarão as pessoas formadas em universidades: depois os epilépticos, conhecidos ou desconhecidos". Em seguida, dirigiu-se ao governo: "Eu sou a Democracia... fostes para as alturas e eu fiquei. Não vos acuso.., neste país há lugar para todos. Pois bem, deixai também lugar para mim".

JOÃO MARCOS COELHO - Como encarar a história brasileira, de 1930 em diante?

SÉRGIO BUARQUE - Certamente como uma nova versão, modernizada, da democracia de gravata lavada. Falar em democracia, hoje, todo o mundo fala. Inclusive os países comunistas. Até durante o nazismo mais de 90% da população alemã votava. Claro que pressionada e num jogo de cartas marcadas. Mas votava. A fachada da democracia sempre está presente, inclusive nos regimes autoritários e totalitários.

JOÃO MARCOS COELHO - Parecem coexistir hoje dois grandes grupos de historiadores preocupados com o Brasil. De um lado, os brasileiros, que, numa posição extremamente critica, procuram, grosso modo, reconstituir o que chamam de história da dependência. E, de outro, os chamados brazilianists, estrangeiros que têm dado preferência a certos temas da nossa História, como por exemplo, a escravidão, o Estado Novo e os governos da Revolução de 1964. Eles se completam, de alguma maneira?

SÉRGIO BUARQUE - Primeiro, é preciso esclarecer que o interesse pelo Brasil não é novo. Na década de 40, quando o presidente Roosevelt pôs em prática o que chamou de política de boa vizinhança, houve muitas teses sobre o Brasil. Até eu fui convidado a visitar os Estados Unidos para participar de um congresso sobre estudos brasileiros, durante três meses. Em 1965, em nova ida aos EUA para dar cursos, vivi como um nababo: me hospedei no Waldorf Astoria, um carro do ano com motorista à disposição, tudo por conta do governo americano. Agora, porém, essa nova vaga parece ter raízes mais profundas e duradouras. Os historiadores Richard Morse, Thomas Skidmore (autor de "De Getúlio a Castello"), Stanley Stein e Richard Graham me parecem os melhores. A explicação para a escolha de determinados temas é relativamente fácil: a escravidão, por exemplo, é um dos temas americanos permanentes. Quando ouviram comentários de que tinha havido no Brasil o bom senhor, e escravos unidos - graças a um livro de Frank Tannembaum, "Slave and Citizen", e a edição inglesa de "Casa Grande & Senzala", de Gilberto Freyre -, rapidamente o assunto virou moda. Já quanto aos temas contemporâneos, de Getúlio para cá, tive uma boa resposta quando, na Universidade de Berkeley, Califórnia, fiz esta pergunta a um brazilianist. Sua resposta: "Cuba". A posição do Brasil como país estratégico, política e militarmente, tem se reforçado cada vez mais nos últimos tempos e por isso é preciso, do ponto de vista americano, conhecê-lo muito bem.

JOÃO MARCOS COELHO - Em que consistiu a contribuição dos brazilianists para a historiografia brasileira?

SÉRGIO BUARQUE - Existe um preconceito com relação aos historiadores americanos de que são ingênuos e pouco teóricos. Isso não é muito correto mas tem um fundo de verdade. Um amigo me contou que um dia encontrou um rapaz numa biblioteca americana preparando uma tese sobre o Renascimento. Perguntou-lhe se ele já tinha lido o celebérrimo livro de Jacob Burckhardt a respeito e obteve esta resposta: "Ainda não cheguei lá. Estou nos autores cujos nomes começam por A". Isso ilustra a capacidade de coleta de material deles, espantosa em seu rigor e meticulosidade.

JOÃO MARCOS COELHO - Uma das críticas que se fazem, não somente ao historiador mas ao intelectual brasileiro em geral, é a de que ele tem a obsessão de ultrapassar rapidamente a realidade empírica e partir para a ensaística, ou interpretação teórica, sem bases sólidas.

SÉRGIO BUARQUE - Concordo integralmente, e é por isso que eu jamais escreveria de novo "Raízes do Brasil". Principalmente porque o livro ficou no nível do ensaio. Não sou contra a ensaística ou a interpretação, mesmo hoje. Mas a pesquisa deve ser rigorosa e exaustiva. Se não, o resultado são apenas elucubrações, às vezes brilhantes, mas desvinculadas da realidade.

JOÃO MARCOS COELHO - De qualquer modo, não há jeito de escapar da ideologia?

SÉRGIO BUARQUE - Não. E é engraçado observar como diversas vezes, na História do Brasil, pessoas mascararam suas verdadeiras posições em função do momento político. Quando Dom Pedro I abdicou, devido a inúmeras pressões, no período imediatamente seguinte - a Regência - os grupos dirigentes permaneceram unidos, porque tinham pavor da volta dele ao poder. Somente depois de 1834, quando dom Pedro morreu, é que se revelaram as verdadeiras posições. Tanto que os conservadores fundaram seu partido em 1837, opondo-se aos moderados. O próprio Gilberto Freyre, quando surgiu, era tido como altamente revolucionário apenas porque usava palavrão, falava da vida sexual e era contra os jesuítas e a maçonaria. Grande parte do clero se voltou, decididamente, contra ele e contribuiu para forjar dele uma falsa imagem revolucionária.

JOÃO MARCOS COELHO - Os historiadores brasileiros têm tentado detectar as ideologias que determinam os fatos de nossa história e fazer uma revisão de tudo o que já foi dito?

SÉRGIO BUARQUE - A revisão da História não tem que ser absolutamente um momento privilegiado. Ela tem que ser feita a todo instante. A história não é prisão ao passado. Ela é mudança, é movimento, é transformação. E por isso estamos irremediavelmente presos a ideologias que na maioria das vezes são exóticas, pois não nasceram aqui. A atual geração de historiadores considera que a ideologia representa um pensamento falso. Mas eu pergunto: será possível assumir uma ideia que seja válida? Cada um de nós tem, no fundo, uma certa ideologia, um certo conceito de tempo. Para transcender isso, somente um gênio. E não devemos ficar eternamente de braços cruzados à espera desse ser excepcional, devorador de ideologias, que assumiria o ponto de vista da eternidade.

JOÃO MARCOS COELHO - Então, fazer história é reescrevê-la perpetuamente?

SÉRGIO BUARQUE - Eu diria, junto com Benedetto Croce, que toda história é história contemporânea. Ou seja, nós sempre privilegiamos um aspecto em função de nossa realidade. Por exemplo, quando Bismarck governava todo-poderoso a Alemanha, a Escola Prussiana de História, ao estudar a Grécia antiga, privilegiou muito as qualidades de Alexandre Magno, o homem forte que dominou toda aquela região por um bom tempo. Tudo isso em função de Bismarck. Nós contamos a história a partir da vivência cotidiana de nossos problemas, de nossa realidade. Os historiadores sempre foram e serão presa fácil de seu tempo.
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Fonte: Sérgio Buarque de Holanda: A democracia é difícil. [Entrevista concedida a João Marcos Coelho]. Publicada originalmente na Revista Veja, em 28 de janeiro de 1976.

Texto e imagem reproduzidos do site: elfikurten.com.br

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Filosofia, Cultura e Literatura – Uma entrevista com Waldir Pedro




Publicado originalmente no site da revista Literatura, em 26 de setembro de 2017

Filosofia, Cultura e Literatura – Uma entrevista com Waldir Pedro

As faculdades de Filosofia formam poucos profissionais e muitos não se formam com a intenção de trabalhar em sala de aula. Professores de outras disciplinas estão ministrando as aulas de Filosofia no Ensino Médio.

Por Ana Lucia Bomfim* | Foto: Arquivo pessoal | Adaptação web Caroline Svitras

Em seu livro “Dinâmicas para aulas de Filosofia”, você defende uma forma leve e literária para o aprendizado da Filosofia. Por outro lado, a Filosofia carrega o estigma de ser uma matéria exclusivamente teórica. Como conciliar a complexidade da disciplina com a necessidade de tornar esse conhecimento prático?

O livro foi pensado para alunos do Ensino Médio, embora esteja recebendo muitos retornos de outros segmentos, inclusive da Educação de Adultos. Quando comecei a trabalhar nos textos, meu objetivo era sensibilizar os jovens para a importância da Filosofia.

Estamos falando de uma matéria que dificilmente reprova e, para o senso comum, tem o estigma de não servir para nada. Então, como despertar o gosto para que o jovem se sinta atraído pelo pensamento filosófico?

O professor de qualquer disciplina tem de ter a noção de quando passar para a próxima etapa. Se você ensina violão, por exemplo, sabe quando o seu aluno pode passar para outro ritmo e a hora de aprofundar o estudo.

O professor de Filosofia por ficar muito na pesquisa, às vezes tem dificuldade de passar o conhecimento filosófico, achando que está descendo o nível da pesquisa. Precisamos entender que o aluno do Ensino Médio não pediu aulas de Filosofia. Nós lutamos para introduzir no currículo essa disciplina e, agora, temos a obrigação de dizer a eles por que as aulas de Filosofia têm importância. O primeiro passo é deixá-los encantados com as possibilidades que o pensamento crítico traz para suas vidas.

Quando o aluno estiver encantado, fica mais fácil o mestre ir conduzindo aos textos ditos mais densos, mas isso deve se dar passo a passo, e o professor deve analisar o momento certo.

Dado o deficit educacional e cultural que assistimos sistematicamente durante os anos, como seria a forma ideal de inserir a Filosofia na vida dos alunos, já que afirma que ela voltou de forma tímida após a ditadura?

Esse déficit educacional faz com que o professor de Filosofia trabalhe mais a interdisciplinaridade para o êxito de suas aulas. A começar por trabalhar com o professor de Português para despertar no jovem o gosto pela leitura. Junto a isso, o professor de Filosofia tem a obrigação de fazer com os alunos a crítica ao próprio sistema de ensino e mostrar a eles a quem interessa um nível tão baixo da educação e que eles são os principais prejudicados por essa situação.

Quando digo que ela voltou de forma tímida, não é uma crítica aos atuais professores, apenas para pensarmos juntos os motivos que lutamos tanto para a volta da Filosofia aos bancos escolares. Com certeza, não foi para passar a teoria, mas para dar ao ensino brasileiro um espaço para o pensar. O que proponho, com isso, não seria ensinar Filosofia, mas dar um espaço para filosofar. Fazer o aluno parar e ter um momento interno para reflexão.

Como você vê o ensino da Filosofia nas escolas atualmente?

As faculdades de Filosofia formam poucos profissionais e muitos não se formam com a intenção de trabalhar em sala de aula. Professores de outras disciplinas estão ministrando as aulas de Filosofia no Ensino Médio. Quando isso acontece, a tendência é trabalhar mais a história da Filosofia e alguns conceitos do que propriamente dar elementos aos estudantes para formação do espírito crítico. Por enquanto, não consigo ler nenhuma matéria nos jornais de escola afastando professores de Filosofia ou tentando tirar a disciplina do currículo. Deve ser porque ela ainda não está incomodando ninguém. A Filosofia tem de transgredir, precisa tocar a ferida em tudo que acontece na nossa sociedade. A reflexão dos pensadores se materializa quando participamos do nosso momento histórico. O professor de Filosofia deve fomentar esse lado transgressor do jovem. Temas atuais como o chamado “kit gay”, mensalão, corrupção, coisa pública, papel do jovem, drogas são temas que podem acompanhar facilmente com o pensamento filosófico. O jornal pode ser o melhor livro didático em sala de aula.

A sua proposta sobre o uso da Filosofia prática nem sempre coincide com a visão acadêmica de grandes universidades. A formação dos filósofos e professores, aqueles que vão ministrar a disciplina, a seu ver, é condizente com o que propõe para o ensino da Filosofia?

Não proponho uma Filosofia prática, mas sim práticas para filosofar. Em meu novo livro “Dinâmicas para aulas de Filosofia”, faço algumas sugestões de atividades para que o professor comece a entrar no tema. Quando estamos no dia a dia da sala de aula, a prática exige que nos afastemos um pouco do modo acadêmico de pensar as aulas, pois meu público é outro. Não estou ministrando aulas para pessoas que estão interessadas no assunto e tem a disposição de entrar nesse mundo das ideias. Meu público é outro. A visão acadêmica fica bem dentro da academia. Quando se está diante de uma sala de aula com 40 jovens à sua frente, a melhor referência é o apresentador Chacrinha que nos ensina que, para transmitir algo, precisamos primeiro saber como se comunicar.

Você analisa as diferenças entre o que é ser erudito, intelectual e sábio. Poderia destacá-las?

Não precisa de muita definição para brincarmos com esses conceitos, basta olharmos ao nosso redor que tudo fica muito evidenciado. Grandes ditadores estão sempre acompanhados por pessoas eruditas, tem o poder judiciário em suas mãos. Muitos assassinatos na humanidade foram respaldados por grandes intelectuais. A inteligência não é garantia nenhuma para um caminho seguro. Grandes partidos políticos fazem atrocidades e têm ao seu redor um leque vastíssimo de intelectuais. A sapiência é um dom maior. O mestre sabe apurar as informações e transformá-las em vivência, tem o dom da sensatez.

Você diz também que a Filosofia pode servir de guia para a transformação interior e sugere que o “conhece-te a ti mesmo”, proferido a Sócrates, é uma síntese da existência da Filosofia. De que forma esse conhecimento pode, efetivamente, ajudar na busca por uma vida menos angustiada?

Vou citar um exemplo usado por alguns existencialistas. No deserto, para espantar os lobos, os homens batem panelas. Na vida, para afastar o encontro pessoal, costumamos bater panelas também. O filósofo Julián Marías nos falava que o homem vive à procura do que fazer. Esse que fazer dá o sentido a vida, que concretiza a nossa existência à medida que vamos nos fazendo. Quando não trabalhamos bem nosso interior, somos um alvo fácil às artimanhas do mundo exterior.

Note as angústias das pessoas que se embrenharam no mundo das celebridades sem um mínimo de conteúdo ou as pessoas que montam sua vida em cima de um belo corpo ou na beleza fútil. Quando a fama passa ou o tempo leva algo conseguido de modo fácil, muitas celebridades não não têm estrutura para suportar. Trabalhar o interior não elimina muitas das angústias do homem moderno, mas ajuda a perceber que, para se chegar a um local, não existe apenas um ou dois caminhos, mas uma infinidade de possibilidades.

Qual a importância de se ensinar Filosofia para crianças? Há uma necessidade de tornar a matéria mais simples para que os alunos aprendam naturalmente? Como a Filosofia pode interferir mais na formação da criança?

Existe um projeto de Filosofia com crianças. Creio que podemos aproveitar as diversas fases da pessoa e tirar das características de cada idade como melhor fazermos a reflexão filosófica. A criança tem o que a Filosofia mais precisa: o espírito da curiosidade, saber os porquês da vida. Assim, mais que ensinar Filosofia para criança é prolongar esse espírito crítico que vai se apagando com o tempo. Já com os jovens, podemos agregar o mesmo espírito transgressor que existe na juventude e que é uma característica também da Filosofia.

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 66

Adaptado do texto “Filosofia, Cultura e Literatura – Uma entrevista com Waldir Pedro”

Texto e imagens reproduzidos do site: literatura.uol.com.br

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

“Essa é uma geração que quer desconstruir“

Formada em psicanálise, marketing e moda, Paula Limena Cury é diretora de projetos na Archetype Discoveries Worldwide, nos Estados Unidos, companhia que tem como clientes 
mais de 50 das empresas do ranking Fortune 100, entre outras 
Foto: Arquivo pessoal

“Essa é uma geração que quer desconstruir“

A passagem do mundo analógico para o digital criou um abismo inédito entre a forma de pensar das gerações. A “geração do milênio” não é responsável por tudo o que é ruim, alerta a autora do livro The Millenial Mind

Revista Planera - Edição: 535 - Texto: Renata Valério de Mesquita - 19/10/2017

Individualistas, hiperconectados, desfocados, preguiçosos e perturbadores do sistema. Essas são as características mais repetidas para definir a “geração Y” ou “geração do milênio” – pessoas nascidas entre 1980 e meados de 1990. Mas a brasileira Paula Limena Cury não concorda com nada disso. Usando da sua formação em psicanálise e marketing, a especialista em projetos de branding, inovação e estratégia desconstrói esses rótulos em seu livro The Millennial Mind (“A Mente Millennial”, em tradução livre), lançado em março pela XLibris nos Estados Unidos, onde Paula mora atualmente, e ainda sem data prevista para a versão em português. A autora chama à responsabilidade todas as gerações que convivem atualmente no planeta, principalmente as gerações anteriores, que parecem não entender seu papel na nova dinâmica do mundo digital.

PLANETA – Quem se enquadra na “mente millennial” – baby boomers (pós-Segunda Guerra Mundial), geração X (anos 60 e 70), Y (80 e metade de 90), Z (parte de 90 e 2000) e alfa (após 2010)?
PAULA – A mente millennial é mais importante que o grupo geracional na forma como sempre fizemos, estabelecendo grupos por idade ou determinada época. Mas aglutina mais as gerações Y e Z. O que marca quem são os millennials é como se passou pelo bug do milênio, ou seja, como se passou do analógico para o digital. Foi quando a internet passou de um meio para um fim. Os que lidam até hoje com uma certa resistência frente ao pensamento digital não são millennials. A grande limitação de um grupo analógico é achar que a verdade é o que está escrito num livro e ponto. Se não se tem essa resistência, já se tem uma mente millennial. Os millennials podem encontrar informações em diferentes lugares e, dentro de um caleidoscópio de ideias, fazer um filtro e construir um pensamento. Ter milhões de informações conflitantes não dói em quem tem a mente millennial. E há mais: a mente pode ser muito anterior ao bug do milênio. Para mim, Walt Disney é uma das maiores mentes millennial.

PLANETA – Uma das maiores críticas em relação aos millennials é a falta de empatia deles. O que dizer a respeito disso?
PAULA – Quando você conversa com jovens de 15 a 30 anos, vê que a capacidade de sensibilização em relação ao outro é muito maior do que na minha geração, a X. Pesquisei a enorme quantidade de novas ONGs e crowdfundings para ajudar pessoas e apoiar causas por meio das redes sociais. Isso não existia antes, a gente não tinha esse meio. A pesquisa que me fez escrever o livro foi justamente fazer um comparativo: este é um momento tão ou mais frutífero que o Iluminismo, no qual certos intelectuais e pensadores conseguiram de alguma forma construir um novo pensamento, uma nova perspectiva. Mas as maneiras de divulgar isso na época eram muito limitadas. Agora, qualquer um pode falar o que quer na hora em que quer. Essa é uma geração que quer desconstruir. Esse é o código cultural dos millennials. Eles querem destruir todo e qualquer conceito construído até então por gerações e gerações que pensaram de uma forma só. Isso em relação tanto a processos ligados a educação e hierarquia de trabalho quanto a questões que normatizam a vida em sociedade.

PLANETA – Mas eles estão construindo alguma coisa ou são destrutivos em série?
PAULA – Temos uma visão muito maniqueísta de mundo. Construir é bom e destruir é ruim. Parece que destruir é uma coisa negativa, é tirar alguma coisa e deixar um vazio no meio. Mas, se pararmos para pensar, destruir significa preparar para uma reconstrução, de alguma forma. É uma nova perspectiva.

PLANETA – Qual é a característica mais forte dos millennials que encontrou na sua pesquisa?
PAULA – A visão crítica do millennial é uma das coisas mais legais desse grupo. Isso é maravilhoso, porque por muito tempo as gerações foram educadas a não criticar o sistema. O que a minha geração X aprendeu foi: “Concorde ou não, faça o que seu chefe quiser, porque você quer ter uma carreira, certo?” A gente aprendeu tanto a se frustrar que se frustra e não fala nada. Mas se você trabalha com um millennial e ele não o critica, é porque ele está ignorando você, e isso nunca é bom. É porque está pensando: “Não tem nem o que mudar na cabeça dessa pessoa. Não dá nem para conversar”. O que eles mais pedem no ambiente de trabalho é uma liderança. Não um chefe limando suas iniciativas e ideias por medo de perder seu valor dentro da empresa. Os millennials são confrontadores, questionam porque trazem naturalmente a questão dentro de si, mas não sabem bem como questionar. É responsabilidade da minha geração – a geração X –, como grupo geracional, como pais, como liderança em ambiente de trabalho e dentro das escolas, moldar no millennial como fazer isso de forma respeitosa, como analisar, como construir evidências e construir um pensamento.

PLANETA – As gerações anteriores têm muita dificuldade de dialogar com os millennials e reclamam muito da falta de foco desses jovens.
PAULA – Mais uma vez, isso não é uma questão dos millennials. Os pais reclamam: “Ele não consegue se focar numa coisa só”. O cara está acostumado a assistir à TV, jogar o joguinho e falar ao telefone, e faz tudo isso bem. Clinicando como psicanalista, vi que em mais da metade das vezes isso é uma questão de protocolo de comunicação. Quem tem o transtorno somos nós, que não conseguimos fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo. Os pais não conseguem entender, aceitar e acompanhar o ritmo dos filhos. E querem o dispositivo mágico para resolver isso: um remédio. O millennial acaba tendo de tomar Ritalina para acalmar, para manter o foco no “A maiúsculo, a minúsculo” que a professora explica como há 100 anos. E nós – os pais – não os preparamos para as frustrações da vida. No que isso resulta? Num adulto frustrado, sem poder se frustrar, porque senão é um “perdedor”, e que não consegue se entender como uma pessoa dentro da normalidade porque tomou remédio a vida inteira. Será que eles não são só uma geração e somos nós que instauramos uma dinâmica de relacionamento em que eles sempre têm de ser diferentes e problemáticos, adolescentes sem causa?

PLANETA – Você se considera uma defensora dos millennials?
PAULA – Não é que eu defenda os millennials. Quando comecei a pesquisar a mente desses jovens, percebi que a maior parte dos textos sobre eles foi escrita por não millennials. Muito do que entendemos como verdade são pesquisas – ou seja, a incidência de algo dentro de um dado período. Mas os indicadores de pesquisa foram criados por quem? Pelos boomers ou gerações anteriores. Por exemplo, uma pesquisa quis medir até que ponto o millennial é patriota. Patriotismo é algo definido há muitos séculos. Hoje se fala de cidadania planetária, de um mundo sem barreiras. Muda o significado e o simbólico disso. E isso não é questionado no indicador.

PLANETA – Mas não foi sempre assim? As gerações novas são analisadas pelas anteriores.
PAULA – Sim, a lente sempre é das gerações anteriores. Mas nesse meio-tempo houve uma ruptura enorme na percepção de tempo e espaço. Acho injusto atribuir aos millennials a responsabilidade por tudo o que é ruim, assim como o futuro ou fracasso de um modelo social. Nossa responsabilidade é moldar o senso crítico deles. A responsabilidade de construir algo que de fato mova a sociedade rumo a uma evolução cultural e histórica não é de uma, mas de todas as gerações que estão simultaneamente neste planeta. E há outra questão: vamos viver cada vez mais, e seremos mais grupos geracionais ao mesmo tempo no planeta. Longevidade não quer dizer só custos para o governo. São dez anos a mais na vida de uma pessoa e ela não vai aprender mais nada? Só vai criar embates? É uma questão ética: por que manter uma perspectiva de rotular grupos geracionais, se a ideia é fazer convergir o pensamento

Texto e imagem reproduzidos do site: revistaplaneta.com.br

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

A surfista Alana Pacelli



Fotos: João Arraes

Publicado originalmente no site da revista GQ, em 03/02/2018

"Às vezes percebo que tem um me olhando, mas nada de tomar uma atitude", diz a surfista Alana Pacelli

Ela tem a confiança de uma garota de 20 e poucos anos capaz de dropar – entre marmanjos nativos – ondas gigantes com habilidade

Vamos direto ao ponto: se você viu as fotos deste ensaio e decidiu tentar encontrar Alana Pacelli na praia neste verão, precisará voar até o Havaí. “Aqui no Brasil, essa época é de crowd e mar flat, enquanto no Havaí o bicho começa a pegar; é temporada de altas ondas”, explica, no dialeto típico da turma pé na areia, a freesurfer (que não disputa o circuito mundial) paulistana, criada entre as ondas do Guarujá e de Maresias.

 “Durante cinco anos, passei meus verões lá. Nos últimos dois, por falta de patrocínio, fiquei por aqui. Foi um sofrimento ver todos os meus amigos surfando e eu aqui tomando sol. Este ano estou com novo patrocinador, e já está tudo certo para a viagem.”

O trabalho – que tem cara de diversão – é duro, ela garante. “Tem que treinar muito e surfar bem de verdade.” Se os voos para a meca do surfe já estiverem esgotados, você pode ver Alana pelo Canal Off, no programa Família Pacelli, protagonizado por ela, seus irmãos, Nicole e Keoki, e o pai, Jorge – todos surfistas, não precisamos dizer. Mas sejamos otimistas: caso você dê a sorte de trombar com ela pelas areias de Pipeline ou North Shore, é bom estar com a autoestima em dia.

Ela tem a confiança de uma garota de 20 e poucos anos capaz de dropar – entre marmanjos nativos – ondas gigantes com habilidade. “Acho que isso pode assustar os caras que são de fora do surfe. Agora que estou solteira, às vezes percebo que tem um me olhando, mas nada de tomar uma atitude. Já fico irritada, pensando 'E aí, vai ficar parado?!'”.

Texto e imagens reproduzidos do site: gq.globo.com

Nunca houve uma mulher como Hilda Hilst

 Retrato inédito de Hilda Hilst, feito por Fernando Lemos, em 1954, 
que ficou 60 anos guardado e foi gentilmente cedido à reportagem de
Brasileiros pelo fotógrafo português, amigo da escritora.


Nos 28 anos em que viveu na Casa do Sol, em Campinas, Hilda (a única mulher em pé)
 recebia amigos que ali ficavam por longas temporadas, como Caio Fernando Abreu 
e a inseparável Lygia Fagundes Telles [caption]

Publicado originalmente no site Página B, em 02/01/2018 

Nunca houve uma mulher como Hilda Hilst

Escritora será homenageada na edição 2018 da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, e também é tema de curso no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc

Por Gonçalo Junior  

Em dezembro último, Mauro Munhoz, diretor geral da Flip, a Festa Literária de Paraty, antecipou, em comunicado à imprensa, que a escritora Hilda Hilst (1930 - 2004) será a grande homenageada da edição 2018 do evento literário. Em 2017, ano de estreia da atual curadora, Josélia Aguiar, a Flip teve recorde de escritoras e autores negros, fato aprovado pelo grande público em uma das mais celebradas edições recentes.

Ao anunciar a escolha de Hilst como sucessora de Lima Barreto no panteão de homenageados, Munhoz enalteceu o caráter provocativo e inspirador da autora: "Assim como outros poetas brasileiros (Hilda), leu Brummond, Bandeira e Cabral, mas leu também Fernando Pessoa, o francês Saint-John Perse e o alemão Rainer Maria Rilke. O resutlado e´uma literatura inovadora do ponto de vista da linguagem que exerce, por exemplo, forte influência na cena da dramaturgia brasileira de hoje", afirmou.

Para aqueles que desejam aprofundar seus conhecimentos sobre a obra e a vida de Hilda Hilst, desnecessário, no entanto, aguardar até o final de julho (a Flip 2018 está programada para acontecer entre os dias 25 e 29): entre os dias 9 e 30 deste mês de janeiro, o Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, sediado em São Paulo, realiza o curso Hilda Hilst: presente (saiba mais).

Com encontros semanais às terças-feiras, o curso será ministrado pelo jornalista e escritor Flávio Aquistapace, que abordará a prosa tardia e o rico legado de Hilst , com foco em quatro de seus títulos Contos D'escárnio - Textos Grotescos, O Caderno Rosa de Lori Lamby, Cartas de um Sedutor e Rútilo Nada.

Em janeiro de 2014, Hilda Hilst foi capa da edição 78 da revista Brasileiros, em reportagem de Gonçalo Júnior, que trouxe fotos até então inéditas e gentilmente cedidas pelo português Fernando Lemos, amigo da autora. Leia, na íntegra, a seguir. 

Nunca houve uma mulher como Hilda

Ela foi linda e teve todos os homens que desejou – exceto Marlon Brando. Escritora e poetisa paulista, rotulada de pornógrafa e consagrada pela crítica, volta agora, dez anos depois de sua morte, em documentário, lançamentos, relançamentos e minissérie. Por aqui, amigos íntimos contam quem foi, de fato, Hilda Hilst.

por Gonçalo Junior

Inteligente, segura, determinada, independente, transgressora. Namoradeira, mas discreta. Jamais vulgar. Dona de uma hipnótica beleza, poucas mulheres tiveram, como ela, os homens que desejaram em seus braços. Hilda Hilst, a escritora brasileira que ficou também conhecida por seus livros eróticos, morreu há dez anos, em 4 de fevereiro de 2004, aos 74 anos.

Ela, que foi representante da alta sociedade, esforçou-se para ser respeitada como poetisa, recebeu prêmios importantes, como Anchieta (pela peça Verdugo, uma das oito que escreveu entre 1967-68), e  Jabuti (pelo volume de poemas Cantares de Perda e Predileção) – ao todo, foram sete. No entanto, seus livros nunca foram sucesso de público. Nem quando partiu pelo caminho do erotismo, que resultou em obras-primas (O Caderno Rosa de Lori Lamby e A Obscena Senhora D., entre outras), provocaram polêmica, porém não movimentaram grandes tiragens. Dizia-se que suas sacanagens eram de tão alto nível literário que os consumidores do assunto não se interessaram muito.

Seja como for, Hilda tinha uma maneira peculiar de enxergar o mundo. “Sexo e beleza eram rigorosamente a mesma coisa para ela, a única pessoa de nossa geração que não teve sentimento de culpa em relação a esses temas”, afirma Jorge da Cunha Lima, 82 anos, administrador, jornalista e advogado, um dos amigos mais próximos da escritora durante toda a vida, que confessa ter sido apaixonado por ela. “No começo dos anos 1950, eu era um jovem estudante, e ela, já escritora, dona de uma liberdade que deixava todo mundo perplexo.”

Verdade.  Além de linda, Hilda foi uma mulher de espírito livre. Tinha fascínio pelo sexo oposto, mas não cedia a abordagens passivas. Nunca. Seguia um estilo próprio em que ela dominava a cena. Foi assim quando abordou aquele que se tornaria seu único marido. Nos anos 1960, Hilda ia para casa, pela Avenida Dr. Arnaldo, em São Paulo, quando viu um homem no último ponto em frente ao Cemitério do Araçá.  Pediu ao motorista que parasse diante do local e disparou: “Por que você vai para casa de ônibus, se pode fazer isso de Mercedes?”. O homem era o jovem escultor Dante Casarini, que sorriu e aceitou a carona. Primeiro, eles foram amantes. Depois, mulher e marido – nessa ordem. Certo dia, ela teria dito a Cunha Lima: “Estou felicíssima vendo aquele homem maravilhoso, com dorso nu, que volta com uma penca de lenha nas costas”.

Paixões e decepções

Apesar do forte sentimento de Cunha Lima, Hilda jamais deu a entender que percebia seu interesse. No entanto, ela contava suas aventuras amorosas ao amigo, como a que a levou a seduzir o ator americano Dean Martin e seu lamento por não ter conquistado Marlon Brando, ícone americano de beleza e masculinidade.

No livro Fico Besta Quando me Entendem (Editora Globo), que reúne 20 conversas mantidas com Hilda entre 1952 e 2003, ela voltou ao assunto com o jornalista Fernando José Karl: “Eu queria muito conhecer Marlon Brando, achava-o lindo. Então, tornei-me namoradinha do Dean Martin, só para ficar perto do Marlon. Mas não conseguia essa aproximação de jeito nenhum. Vi-me obrigada a aguentar Dean bêbado vários dias e, como ele não me apresentava Marlon, resolvi ir ao hotel onde ele estava, dei uma linda gorjeta ao porteiro e perguntei o número do quarto dele. Cheguei lá, bati na porta, esperei uns dez minutos. Marlon Brando apareceu com um extraordinário robe de seda, acompanhado do ator francês Christian Marquand, que, anos depois, revelou ser seu amante. Eu estava acompanhada de uma amiga, Marina de Vincenzi, e meio de pileque. Disse-lhe que queria fazer uma entrevista. Mas eu só olhava para os pés dele e não sabia o que dizer. Aí ele falou: ‘Só porque você é bonita, acha que pode acordar um homem a essa hora da noite?’. Ele achou graça, foi educadíssimo, mas eu não consegui entrar no quarto e dormir com ele. Fiquei decepcionadíssima. Naquela noite, novamente, ele tinha escolhido Marquand”.

Seu comportamento ativo, entretanto, não incomodou mais do que seu talento para a escrita. Só que Hilda nunca se deixou intimidar por qualquer espécie de crítica. “Ela era de uma ousadia inacreditável”, afirma Cunha Lima. O fotógrafo português Fernando Lemos, de quem também foi amiga, reafirma: “Hilda recebia críticas menos por seu lado liberal, independente, e mais como poetisa porque causou inveja aos montes – nos outros poetas, principalmente.”

Lemos, hoje com 85 anos, produziu, em 1954, uma série de retratos da escritora, que ficaram inéditos por quase 60 anos. Ela apenas viu as fotos, que nunca foram publicadas, mas ficaram guardadas. Uma delas está publicada nesta reportagem, mas todas podem ser vistas na versão digital da revista da Biblioteca Mário de Andrade – a edição impressa, número 69, não por acaso com o título Obscena, sairá em fevereiro.

Quando fez as fotos, Lemos morava havia um ano no Brasil. Chegara de Lisboa com a reputação de talentoso retratista de importantes nomes portugueses – políticos e artistas, principalmente. “Quando desembarquei em São Paulo, procurei conhecer gente ligada às artes e passei a ir locais em que todos se encontravam regularmente. Foi assim que fui apresentado a Hilda.”

Os pontos de encontro eram no centro de São Paulo, como o Juão Sebastião Bar, berço da bossa nova e onde Chico Buarque fez suas primeiras apresentações, e a Livraria Jaraguá, de Alfredo Mesquita, o mesmo que dirigiu por anos a Escola de Arte Dramática de São Paulo e incentivou Hilda a invadir a praia da literatura teatral. Havia também o Clubinho dos Artistas – brincadeira com o programa de TV Clube dos Artistas, da Tupi –, que ficava no porão do prédio do Instituto dos Arquitetos do Brasil, na Vila Buarque, e reunia o pessoal das artes. “Ali, todo mundo dançava, brincava, namorava”, diz Lemos. Ele se lembra ainda do Bar do Museu de Arte Moderna, que ficava no prédio Assis Chateaubriand, na rua Sete de Abril, onde eram realizados festivais de cinema e exposições de pintura. “Todo mundo tinha sua garrafa de uísque guardada e podia pendurar a conta.” Cunha Lima não se esquece da Livraria e Editora SAL, sigla da Sociedade Amigos do Livro, que importava obras da Europa e, nos finais de tardes, realizava saraus regados a poemas em francês e doses de conhaque. Impossível não mencionar o bar Vienense. “Nesses locais, todo mundo se tocava de leve”, revela  Cunha Lima.

Além de Hilda, Lygia Fagundes Telles (amiga inseparável), Cunha Lima e Fernando Lemos eram assíduos frequentadores dessas rodas artistas como Paulo Vanzolini, Arnaldo Veloso Horta, Aldemir Martins, Massao Ohno, Rebolo Gonçalves. Uma época efervescente, sem dúvida.

Logo, Lemos e Hilda tornaram-se muito amigos. “Eu a convenci a fazer um ensaio no pequeno estúdio, que acabara de montar no bairro de Santa Cecília, região central de São Paulo. Quando se vê o resultado, a impressão é que não havia muita originalidade da minha parte. Mas fiz dessa forma, propositadamente, para compor um retrato com a imagem que eu tinha imaginado de uma mulher que não tinha sex appeal aparente, apesar da elegância, mas era dona de uma beleza protegida, porém interessante.” Ele se nega a dizer se teve ou não um romance com Hilda, mas não desmente nada. “Ela fez alguns sonetos para mim, eram versos mais humorísticos do que literários. Uma brincadeira nossa.” Com orgulho e saudade,  mostra dois dos muitos livros autografados pela amiga. “Para Fernando, todo amor de antes, da Hilda”, escreveu ela em um exemplar de Jubilo, Memória, Noviciado da Paixão, de 1954. Na mensagem de Fluxo-Floema, 1970, ela anotou: “Ao querido Fernando, a maior amizade e ternura dos velhos anos”.

É fato. Hilda teve contatos intensos, imediatos e breves que, ao final, levavam-na a um processo doloroso: arrancar da dor ou do tormento de uma relação encerrada versos que descreviam as suas emoções. Depois, os publicava em livros, sempre dedicados ao amor que se foi. Para o poeta e jornalista João Ricardo Barros, por exemplo, ela dedicou Trovas de Muito Amor para um Amado Senhor, de 1959. Em seus versos e prosa, não fazia a menor concessão à palavra. “Ela transformava o sentimento ou o amor perdido em poesia arrancada do fundo da alma”, afirma Cunha Lima.

O extraordinário

Hilda nasceu em Jaú, interior paulista, em 21 de abril de 1930, filha de Apolônio de Almeida Prado Hilst, fazendeiro e poeta, e Bedecilda Vaz Cardoso, dona de casa. A união não deu certo e, ainda menina, foi com a mãe para Santos. Aos 7 anos, recebeu a notícia, pela mãe, de que o pai sofria de esquizofrenia e foi estudar como aluna interna do Colégio Santa Marcelina, em São Paulo. Esse ambiente escolar evocaria nas peças A Possessa e Rato no Muro e em um poema: “Os amantes no quarto/Os ratos no muro/A menina/Nos longos corredores do colégio”. Mais tarde, estudou na Escola Mackenzie e Direito na USP. Mas nunca exerceu a profissão.

Aos 20 anos, publicou seu primeiro livro, Presságio, e nunca mais parou de escrever. No entanto, a doença do pai sempre foi um forte fantasma em sua vida. Ela acreditava que, ao ter sido poupada do distúrbio psiquiátrico, poderia ter filhos doentes. Por isso, rejeitou a maternidade – teria feito mais de 15 abortos.

Apesar de seu espírito livre, Hilda era uma mulher resguardada, que não gostava de compartilhar seus tormentos. “Ela vivia com certa angústia da contrapartida de seus relacionamentos, no sentido de tudo aquilo que quis fazer e não teve tempo ou não foi correspondida. Não do fracasso, mas sim da  completude da relação, do que faltou fazer”, diz Lemos. Parte do seu drama estava na tragédia que condenou seu pai, enlouquecido, a viver sem qualquer noção da realidade. Para Lemos, Hilda sofria com a situação dele, “que vivia quase como um cachorro louco, enjaulado em uma fazendinha perto de Campinas”.

Em 1966, depois da morte do pai, que a deixou em boa condição financeira, Hilda se mudou para um sítio a 11 km de Campinas. Batizou o lugar de Casa do Sol, construído perto de uma figueira centenária. Acompanhada do marido Dante Casarini, estava decidida a se concentrar em seus escritos. Mas longe do glamour da juventude, afastada dos amigos e da vida boêmia de São Paulo, Hilda começou sua travessia ao inferno. Mudava de humor constantemente, brigava com as visitas e os amigos. Passou também a ter o hábito de tentar falar com os mortos por frequência de rádio.

Quem conta essa história é a cineasta paulistana Gabriela Greeb, que pesquisa há mais de cinco anos a vida e a obra da escritora para o documentário Contato, Hilda Hilst Pede Contato, com previsão de lançamento para setembro deste ano. As filmagens foram iniciadas em dezembro último. Gabriela, que morou uma temporada na Casa do Sol, teve acesso a arquivos e documentos, além de ter conversado com amigos e parentes, como Edson Costa Duarte, que morou com Hilda durante muito tempo. Também teve acesso aos diários do artista plástico Jurandy Valença, amigo de Hilda, em que conta o dia a dia da casa durante o período em que viveu na Casa do Sol, que hoje abriga cartas e documentos, além de três mil livros, boa parte deles com anotações.

O foco do filme, explica Gabriela, é reproduzir a atmosfera da Casa do Sol. Será um documentário de criação, não típico, a partir de acervos importantes, como as mais de cem fitas gravadas com a voz de Hilda, ao tentar se comunicar com os mortos. São gravações feitas entre 1976-78, em que ela dizia: “Hilda Hilst querendo saber dos amigos em outra dimensão” ou “Hilda Hilst pede contato com o absurdo”. Fez essas experiências influenciada pelo sueco Friedrich Jurgenson, cientista, cineasta e crítico de arte, que afirmava que os mortos precisavam se manifestar por meio de frequência de rádio ou TV fora do ar, ou ainda pelo ronronar dos gatos. “A busca pelos mortos fazia parte do desejo de Hilda se comunicar de outros modos, além da escrita. Ela estudou física quântica para não chegar burra à outra dimensão”, diz Gabriela. “Hilda era extremamente lúcida e mantinha todo esforço para não enlouquecer.” Especula-se que a mãe da escritora também sofreria de esquizofrenia.

Vale lembrar que Hilda passou a ter sérios problemas financeiros. Até mesmo para alimentar seus cães – ela chegou a abrigar 150 deles. A situação só não foi pior porque a escritora conseguiu aposentadoria da Unicamp – a partir de 1986, ela fez parte do Programa Artista Residente da Unicamp, no qual conversava com os interessados sobre temas ligados à criatividade e imaginação, personalidades históricas e marcantes.

Outras histórias

Hilda morreu de isquemia, mas foi até o fim fazendo o que mais gostava: escrever com imaginação. E, como dizia, partiu em busca do silêncio absoluto. Antes, porém, deixou em testamento os direitos de sua obra para Daniel Fuentes, filho de José Moura Fuentes, grande amigo da escritora, que morreu cinco anos depois dela, em 2009.

É Daniel quem lança, neste mês, a loja virtual Obscena Lucidez (obscenalucidez.com.br), que vai vender livros, traduções e CDs. “A obra dela estará concentrada em um único lugar para os fãs de todo o País”, diz o herdeiro, que pretende criar outros produtos, como pôsteres e capas para celulares. A ideia de abrir o portal de negócios surgiu de uma experiência pela página que Daniel montou no Facebook sobre a escritora, que tem mais de 15 mil seguidores – curiosamente, metade com idades entre 15 e 24 anos. “Colocamos na rede 1,5 mil livros à venda e esgotamos o estoque em duas semanas, sem divulgação.”

[caption id="attachment_78541" align="aligncenter" width="620"]CAMPINAS A escritora Hilda Hilst em junho de 1999, já afastada da boemia paulistana  CAMPINAS A escritora Hilda Hilst em junho de 1999, já afastada da boemia paulistana[/caption]

Daniel parece querer valer o legado que recebeu. Em abril do ano passado, inaugurou na Casa do Sol um teatro de 125 lugares com peças de Hilda – a morada da escritora agora se chama Instituto Casa do Sol, um espaço de nove mil metros quadrados, tombado pelo Patrimônio Histórico. Ele também organiza o programa de residência na casa, que já está com as vagas preenchidas até fevereiro. Podem participar da iniciativa autores de projetos que envolvem a escrita.

A história não para. A Globo Livros coordena uma biografia, com lançamento previsto para 2015 – o nome do autor é mantido em segredo. No entanto, para este ano, a editora relança 40 obras da escritora, reunidas em 23 volumes, além de coletâneas de poesia e cartas, e edições de luxo. O diretor Walter Carvalho já deu início a um longa-metragem de ficção sobre a vida de Hilda, mas não adianta detalhes, já que planeja finalizá-lo em 2016. A produção será de Tainá Müller (que fará Hilda jovem) e Bianca Villar, responsáveis ainda por dois projetos de telefilmes e uma telessérie com os textos teatrais.

Texto e imagens reproduzidos do site: paginab.com.br

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Socorro, não consigo mais ler livros


Publicado originalmente no site Updateordie, em 19.07.16 

Socorro, não consigo mais ler livros
Por Wagner Brenner 

Sou um leitor, desde que me entendo por gente. Sempre li muito. E continuo lendo. Mas de uns anos para cá, me alimentar compulsivamente de internet tem causado um efeito colateral que ainda não consigo explicar muito bem.

Só sei que agora, toda vez que pego um livro nas mãos, não consigo ler, canso rápido. Se o texto não “embala” logo, preciso de muito esforço para continuar com a leitura. E não é só com o livro de papel. A mesma coisa acontece com o livro digital. Não tem nada a ver com o tipo de apoio. Tem a ver com a extensão do texto.

Essa situação tem me deixado angustiado. Será que desaprendi a ler? Será que fiquei preguiçoso? Será que agora só consigo ler coisas curtinhas e, de preferência, com uns links? Acho que não. Na verdade, nunca li tanto como agora. Passo o dia inteiro lendo. Mas leio cacos, fragmentos.

Sim, o efeito é conhecido e foi previsto anos atrás.

Sai o disco, entra a música.
Sai o filme, entra a série.
Sai a série, entra o curta do Youtube.
Sai a mesa de bar, entra o Facebook.
Sai o livro, entra o post, o artigo.

Tudo o que era consumido em pacote-família, em tabletão, agora é consumido em formato M&M’s.

A gente já sabia que isso acontecer, faz tempo. Mas o que eu ainda não tinha sentido na pele é que esse fenômeno do snack culture iria me TIRAR algo e me IMPEDIR de ler textos longos. Porque uma coisa é você perceber que existe uma nova maneira de ler (circular e não linear) e passar a usá-la.

Outra coisa é você perder sua capacidade de concentração.

Eu queria adicionar o jeito novo, mas não queria perder o jeito velho.

A internet causou em mim, e talvez em você, uma diminuição na atenção, um efeito similar ao do Transtorno do Déficit de Atenção (TDAH). Não que essa dificuldade de concentração seja um TDAH (que é neuro-biológico e tem causas genéticas), mas tem essa característica em comum. Aliás, os próprios parâmetros de diagnóstico de TDAH tem sido frequentemente revistos justamente por conta dessa alteração de comportamento, especialmente em escolas.

Já tentei de tudo, busquei aquelas ficções bacanas, cheias de escapismo, com viagens para lugares distantes, coisas que eu devorava durante a adolescência…mas 10 minutos depois o que escapa é minha atenção mesmo.

Fico voltando para o começo do parágrafo, sabe? Nem a biografia do Steve Jobs eu consegui terminar.

Fico repetindo para o autor “vai, já entendi, conta logo, pára de enrolar”.

Esse é outro sintoma: fiquei mais factual e perco fácil a paciência com aquela fase de contextualização e envolvimento com os personagens.

Meu kindle tem, neste exato momento, a ridícula marca de 18 livros iniciados.

Estou fazendo com eles a mesma coisa que faço com as músicas no meu iPhone, que fatalmente acabam tomando uma “skipada” depois de alguns segundos (tirando as do Zappa, que felizmente ainda ouço cada nota com prazer até o fim). Pô, eu ouvia aqueles álbuns inteiros do Pink Floyd… agora isso seria inimaginável.

Sei que isso tudo soa como algo ruim, mas nem isso eu tenho certeza.

A civilização humana já passou por isso muito antes da internet, por exemplo quando passamos da comunicação exclusivamente oral e acrescentamos a escrita. Colocar conteúdo por escrito livrou nossa memória e permitiu textos bem mais longos e precisos. Agora estamos de volta aos conteúdos curtos, mas ainda mais precisos. E, se um dia desenvolvermos a telepatia, certamente as palavras vão nos parecer ineficientes demais. Formas diferentes de trocar conteúdos, histórias.

Enfim, um post pouco conclusivo, mais desabafo mesmo, para ver se tem mais gente nesse barco.

Estou assustado por não conseguir mais ler um livro inteiro.

Texto e imagem reproduzidos do site: updateordie.com

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